O agronegócio em família

Governança e sucessão (II/II)

Edição XXV | 04 - Jul . 2021
    O assunto é amplo, complexo e indispensável para o agronegócio. Quem não o entender assim e adotá-lo com celeridade, corre os riscos de uma visão romântica e gestão amadora, tendo como consequência as dificuldades e os problemas que já conhecemos em muitas organizações, tanto nos aspectos de manutenção familiar como patrimoniais.
Por isso, neste segundo artigo sobre a Semana da Governança Corporativa – O Agronegócio em Família, da qual fui um dos mediadores, trataremos dos relatos experenciais de uma das mais sólidas e estruturadas empresas da cadeia de sementes que atua no Mercosul (Seedcorp-HO).

   O fato de estar presente em todos os elos, com cifra de investimentos apenas em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos da ordem de U$$ 1,2 bilhão já dá uma ideia da complexidade e da necessidade de gestão profissionalizada. Nela, um dos seus sócios fundadores (Sérgio Carvalho) e atual diretor do grupo revela os pontos nevrálgicos da sua experiência de governança, dando exatamente a visão empresarial.

    Prevenir os excessos de uso e finalidade
    Já de início, o painelista apresentou o que ele chama de desafio central para uma empresa que atua em todos os países do Mercosul, com a característica peculiar de ter várias empresas numa mesma empresa: prevenir os excessos de uso e finalidade na administração da organização.

    Criar normas de conduta é o caminho mais óbvio na relação familiar e que foi o primeiro passo dentro desse conceito de governança. Mas, antes de tudo, foi fundamental definir “no que a empresa acredita que seja governança corporativa”. Esse foi um ponto crucial.

    Dentre outros aspectos relevantes nesse sentido, a empresa acredita que seja “um sistema de gestão transparente em que você envolve os diferentes stakeholders da empresa”. Para isso, uma importante diretriz foi definida: como CEO, o desafio é usar a governança corporativa para manter conectadas de forma harmônica todas as partes interessadas no sucesso de uma empresa.

    Nesse sentido, harmonizar a relação e as estruturas de (i) quem de fato controla a propriedade e (ii) quem faz a gestão dos negócios é um ponto fundamental para a governança nas empresas. Quando isso está bem claro, fica sempre mais fácil.

   Esse aspecto é tão importante, justamente porque muitas vezes se entende que os problemas de gestão ou sucessão apenas surgem quando há problemas financeiros, o que obviamente não condiz com a verdade. A experiência diz o contrário na maioria das vezes. O que fazer, por exemplo, quando sobra? Se não tiver uma estrutura clara, cada um vai querer fazer o que achar conveniente o que poucas vezes é o melhor para a empesa.

    Os 4 grandes pilares e as premissas que norteiam a Governança
   Por isso, seguindo essa linha da apresentação, a Governança vem apoiada em 4 grandes pilares: a transparência, equidade, prestação de contas e a responsabilidade corporativa.
Nesse ponto, o vital, sem o qual os demais dificilmente logram êxito, está a transparência com todos os stakeholders. É um valor fundamental, e quem dá essa diretriz é o líder, o CEO. Outro aspecto que vale destacar é “agir conforme a regra”, um resumo prático do termo compliance para a organização.

    Para colocar isso em operação (a Governança) foram adotadas algumas premissas na empresa cuja função é nortear as práticas de quem está nos níveis táticos e operacionais. A primeira é que as nossas empresas são estruturadas pensando em pessoas, produtos e lucro. Sempre nessa ordem, o que já dá uma boa ideia do que cada um precisa fazer. Segundo é, após conceber um negócio, são convidados os executivos para tocar o empreendimento e, na sequência, é montada uma management company cujo CEO tem a obrigação de criar e manter a harmonia.

    Um terceiro ponto é que todos os executivos em suas áreas precisam estar melhor preparados do que o CEO da empresa. Depois, todos esses executivos se tornam acionistas da empresa assim que atingem os objetivos acordados na sua entrada. Em quarto lugar, a empresa trabalha com o conceito de inovação aberta, também chamada de plataforma integrada, mantendo relação com inúmeros fornecedores de tecnologias e serviços. Isso por si só já exige práticas de governança corporativa como premissa, dado que ninguém que tenha algo inovador a oferecer no mercado vai se juntar com alguém que não tenha transparência e ética.

    O quinto ponto está apoiado no acordo de acionistas onde são definidas as normas de conduta de toda a empresa e de partes interessadas, também, o que naturalmente contribui para a sexta premissa, que é a instituição do conselho de executivos. Esse conselho se reúne mensalmente, onde são analisados os resultados do ano corrente e o planejamento do ano seguinte. É a oportunidade para fazer as correções dos desvios, avaliar os avanços e as oportunidades identificadas.

"Criar normas de conduta é o caminho mais óbvio na relação familiar e que foi o primeiro passo dentro desse conceito de governança. Mas, antes de tudo, foi fundamental definir “no que a empresa acredita que seja governança corporativa”. Esse foi um ponto crucial"

    Nesse caso, temos alguns mantras na governança: consistência, execução e simplicidade. O planejamento não precisa ser necessariamente primoroso, mas a execução deve ser cirúrgica. 

    Como sétima premissa constituímos o conselho dos sócios, que se reúne bimestralmente e é onde prestamos conta da gestão da empresa. É o momento para se discutir assuntos de maior relevância, como uma fusão ou aquisição, uma grande ameaça ao negócio ou um movimento estratégico.

    A premissa de número oito estabelece que qualquer diretor pode convocar um ‘call extra’ na sexta-feira para um tema de urgência. A nona, todos os balanços são auditados pelas principais empresas de auditoria internacionais. O décimo é a adoção da responsabilidade corporativa com a empresa e com a sociedade e nesse sentido são trabalhados diversos temas como saúde individual e coletiva, apoios psicológicos, questões socioambientais, dentre outros pontos.

    Nesse aspecto da décima premissa, trabalhamos muito forte a accountability e fizemos isso através da digitalização e conexão das informações com ferramentas e tecnologias modernas, para permitir medir os avanços, identificar e corrigir rapidamente os desvios, dentre outros benefícios. Todos sabem, quem não mede não controla.
Isso tudo ajuda muito o CEO a liderar o processo, não apenas dentro da empresa, mas fundamentalmente com as partes interessadas, sejam instituições financeiras, clientes, fornecedores ou colaboradores, fazendo com que a governança auxilie e agilize na resolução de conflitos. 

    Na próxima edição, para fechar o ensaio final, serão discutidos os destaques da experiência emocionante sobre os desafios da sucessão familiar de um dos mais importantes grupos empresariais de máquinas e implementos agrícolas do país (Grupo Jacto)

    Até a próxima.

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