Gestão é um processo de decisão contínua

Edição XXX | 03 - Mai . 2026
Jean Carlo Possenti-jpossenti@utfpr.edu.br
   O termo “gestão” tem origem no latim gestio, derivado do verbo gerere, que significa conduzir, administrar ou governar. Historicamente, o conceito de gestão acompanha a própria organização da vida em sociedade. Desde as civilizações antigas — como Egito, Mesopotâmia e Roma — já se observavam práticas de administração de recursos, trabalho e produção. 

   No entanto, foi a partir da Revolução Industrial que a gestão passou a ser tratada de forma sistematizada, com o desenvolvimento de teorias administrativas voltadas à eficiência, produtividade e organização do trabalho. Ao longo do século 20, ela evoluiu para incorporar dimensões mais complexas, como qualidade, estratégia, finanças e tomada de decisão sob incerteza. 

   Nesse contexto, gestão deixou de ser apenas controle e passou a ser, essencialmente, um processo contínuo de tomada de decisões.

   Na indústria sementeira, o termo gestão se manifesta de forma evidente na organização dos processos produtivos e, especialmente, na “gestão da qualidade”. Pois produzir sementes não envolve apenas produzir elevado potencial fisiológico, mas garantir que esse potencial seja preservado desde a formação no campo até a emergência na lavoura.
Isso envolve decisões técnicas ao longo de toda a cadeia: escolha de áreas de produção, manejo de campo, controle de contaminantes, ponto de colheita, beneficiamento, armazenamento e logística. A aplicação de princípios de gestão da qualidade — como padronização de processos, rastreabilidade, monitoramento de indicadores e melhoria contínua — é fundamental para assegurar a conformidade com padrões legais e, principalmente, com as expectativas do mercado. 

   Um exemplo claro é a decisão sobre o momento ideal de colheita: antecipar pode comprometer o vigor; atrasar, além disto, pode também aumentar perdas e deterioração. Trata-se, portanto, de uma decisão gerencial, baseada em critérios técnicos e econômicos. Não por acaso nas empresas sementeiras denominam-se os cargos de chefia de “gestores”.

   Entretanto, é na gestão econômica e financeira que muitas empresas sementeiras, especialmente as pequenas e médias, apresentam maiores fragilidades. Existe, com frequência, uma crença implícita de que produzir sementes com qualidade é suficiente para garantir o sucesso do negócio. 

   Embora a qualidade seja condição indispensável, ela não é suficiente. A sustentabilidade econômica e financeira da empresa depende da sua capacidade de gerir adequadamente os recursos, compreender seus custos e despesas e, principalmente, transformar essas informações em decisões estratégicas. 

   A ausência de controles financeiros estruturados com adoção de indicadores confiáveis leva muitas vezes à precificação inadequada, à redução das margens e, em casos mais críticos, à inviabilidade do negócio.

   Nesse ponto, é importante distinguir conceitos frequentemente utilizados de forma indistinta. “Lucro” refere-se ao resultado absoluto obtido após a dedução de custos e despesas, enquanto “rentabilidade” expressa o retorno relativo sobre o capital investido. Para fins de gestão, especialmente em empresas de sementes, a rentabilidade (por vezes não apurada) tende a ser um indicador mais relevante, pois permite avaliar a eficiência do uso dos recursos e comparar alternativas de investimento. 

   Uma empresa pode apresentar lucro, mas ter baixa rentabilidade, o que indica que o capital poderia estar sendo mais bem alocado.

   A gestão econômica eficaz exige o domínio de ferramentas básicas, mas fundamentais: apuração de custos de produção por cultura, cultivar e peneira (se for o caso), distinção entre custos fixos e variáveis, controle de despesas operacionais, análise de ponto de equilíbrio e planejamento de fluxo de caixa. A elaboração do fluxo de caixa projetado é fundamental ao se fazer o planejamento da produção de sementes.

   Além disso, é essencial integrar essas informações ao processo de tomada de decisão. Por exemplo, definir a área a ser multiplicada, o volume de produção ou o momento de comercialização não deve ser apenas uma decisão das áreas técnica, comercial ou financeira, mas sim uma decisão econômica tomada em conjunto.
Produzir além da demanda pode resultar em sobras de sementes, com impactos diretos na rentabilidade. De outro lado, produzir abaixo pode significar perda de mercado.

   Em empresas de maior porte, esses processos tendem a ser mais estruturados, com sistemas de informação e equipes dedicadas à gestão econômica e financeira. 
Indo aos conceitos, a gestão econômica foca na rentabilidade. Ela quer saber se a operação da empresa, no papel, gera lucro ou prejuízo. Aqui, utiliza-se o Regime de Competência (o registro é feito na data em que o evento acontece, independente de quando será pago). A gestão financeira é dinheiro na mão. A gestão financeira foca na liquidez. Ela cuida da movimentação do dinheiro vivo, do caixa e das contas bancárias. Neste caso, manda o Regime de Caixa (o registro só ocorre quando o dinheiro entra ou sai de fato).

   Exemplificando, se a empresa produziu seu volume projetado de sementes, com excelente controle de gastos e vendeu toda esta produção, tem uma gestão econômica positiva. Mas se o recebimento do dinheiro será no prazo ou mesmo contra a entrega da mercadoria (muitos chamam de “venda à vista”) e se suas contas estão vencendo, com compromissos a pagar, fluxo de caixa deficitária no curto prazo, tem a empresa problemas na sua gestão financeira.

   Em pequenas e médias empresas sementeiras, a gestão frequentemente é centralizada e menos formalizada, o que aumenta o risco de decisões baseadas em percepção ou experiência, em detrimento de dados concretos. No entanto, é justamente nesse contexto que a gestão se torna mais crítica. A limitação de recursos exige maior precisão nas decisões, e não o contrário.

   Assim, compreender a gestão como um processo contínuo de decisão implica reconhecer que cada etapa da produção e comercialização de sementes envolve escolhas que impactam diretamente os resultados da empresa. 

   Qualidade, custo, preço e mercado não são dimensões isoladas, mas interdependentes. Produzir com qualidade é essencial, mas gerir bem é o que transforma qualidade em resultado financeiro. Em um ambiente cada vez mais competitivo e incerto, a capacidade de decidir com base em informação e método é o que diferencia empresas que apenas produzem daquelas que efetivamente prosperam.
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