Envelhecimento acelerado em sementes de soja:

o pré-condicionamento é indispensável?

Edição XXX | 03 - Mai . 2026
Tanise Costa Beber-tani_8@hotmail.com
Maria de Fátima Zorato-fatima@mfzorato.com.br
Lilian Madruga de Tunes-lilianmtunes@yahoo.com.br
Natalia Pedra Madruga-nataliapmadruga@hotmail.com
   Teor de água ou grau de umidade das sementes
   O teor de água das sementes, ou grau de umidade, é expresso como a porcentagem de água em relação ao peso total e é considerado um dos principais fatores de interferência nos resultados dos testes de potencial fisiológico. É uma variável importante, principalmente na cultura da soja, sobretudo em cultivares de hábito de crescimento indeterminado, que apresenta alta dispersão do grau de umidade na planta.

   Esse teor de água da semente é considerado fundamental para a manutenção da integridade do sistema de membranas. Quando abaixo 12% (referência para soja), ocorre redistribuição das moléculas, formando espécies de canais e, assim, propiciando a rápida embebição, fato que favorece danos durante a transição de membranas da fase gel para a fase líquido-cristalina, ocasionando a liberação de soluto para o meio. Além da desorganização de membranas, a hidratação acelerada propicia processos como a respiração anaeróbica, que geram prejuízos decorrentes da carência de oxigênio por aeração insuficiente, provocando danos que incluem a quebra na fita de DNA, devido a ação de espécies reativas de oxigênio (ERO), mudanças nos pares de bases e fragmentação do DNA e anormalidades de plântulas.

   Neste contexto, torna-se necessária a adequação do grau de umidade de lotes de sementes de soja que estejam abaixo do valor de referência. Isso pode ser conseguido pela utilização de pré-condicionamento, que se caracteriza pela elevação da umidade da semente por atmosfera úmida em laboratório para garantir uniformidade de resultados. Com isso, evita-se a diferença dos potenciais hídricos entre a semente e o substrato, interferindo no restabelecimento das membranas celulares.

Tabela 1_Tempo necessário para obtenção do teor de água.jpg 130.35 KB


   Teste de envelhecimento acelerado (EA)
   O teste de EA é, internacionalmente, um dos mais utilizado em sementes de várias espécies, provendo informações com grau elevado de consistência. O período de exposição das sementes está relacionado ao objetivo da aplicabilidade do teste, ou seja, previsibilidade da deterioração no período de armazenamento das sementes e identificação do desempenho das plântulas em condições de campo. É um teste de método indireto de vigor: os resultados demonstram que os lotes de sementes menos vigorosos se distinguem pelo seu desempenho inferior quando comparados aos lotes mais vigorosos.

   O EA tem se constituído em ferramenta de uso cada vez mais rotineiro pelas indústrias de sementes para a determinação do vigor da semente, sendo incluído em programas internos de monitoramento da qualidade para segurança de resultados das sementes destinadas à comercialização.

   A uniformização do teor de água das sementes é essencial para a padronização das avaliações e obtenção de resultados consistentes. No entanto, nos últimos tempos, após a adesão em massa dos sojicultores para uso de cultivares com hábito de crescimento indeterminado, têm-se verificado muitos lotes com sementes mais desidratadas, uma vez que o crescimento indeterminado propicia alta dispersão do grau de umidade das sementes na planta, também, entre outros fatores, como característica de folhas e as condições climáticas vigente nas diferentes regiões produtoras.

   Isto faz com que haja necessidade de adequar o teor de água do lote pré-condicionando às sementes antes de colocá-lo para o envelhecimento acelerado, uma vez conhecido que sementes, quando expostas à atmosfera úmida do teste, podem apresentar variações acentuadas em sua umidade, sendo as mais úmidas mais sensíveis à condição do teste. O grau de umidade recomendado adotado pela ISTA para iniciar o teste de envelhecimento na cultura de soja é de 12% a 12,5%.

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   Pré-condicionar sementes no EA: qual o tempo?
   Foi realizado um estudo na Universidade Federal de Pelotas com diferentes umidades iniciais, verificando o resultado do teste normal e, ainda, o tempo que as sementes de soja levavam para chegar na umidade de 12% (umidade ideal para a realização do EP). A umidade inicial para a testemunha foi de 12,0%; nos demais tratamentos, as sementes foram secadas para obtenção de 8%, 9%, e 10%. Foram testados em gerbox água (método tradicional ± 100,0% UR) e com solução salina (11 g sal/100 mL água ± 94,0% UR) com período de exposição na câmara tipo BOD durante o período de 24 horas em temperatura de 41 °C ± 3.

   No pré-condicionamento em água (método tradicional), os tempos para as sementes adequarem o teor de água em torno de 12% a 12,5% foram mais rápidos, variando conforme o nível inicial da umidade das sementes; quanto mais próximo de 12%, mais rápido ocorreu o processo de adequação de umidade. Já com a solução salina, o tempo para atingir a umidade ideal foi maior, demorando geralmente o dobro de tempo. Isso deve-se ao fato da diferença de umidade relativa entre os métodos, sendo o tradicional (água) próximo a saturação (± 100,0%) e com solução salina em torno de ± 94,0%.

   A partir disso, é possível evidenciar que o tempo para adequar o grau de umidade das sementes para execução do teste de EA é menor e menos prejudicial do que os utilizados pelos laboratórios de análise de sementes (LAS). Em geral, são utilizados pelos laboratórios, para os lotes com umidade abaixo de 12%, o pré-condicionamento realizado em atmosfera úmida, precedendo o teste de EA por um período de 16 a 24 horas, seguindo a metodologia das Regras para Análise de Sementes, que indica seu uso para o teste de germinação.

Gráfico 1_Germinação no teste de envelhecimento.jpg 83.25 KB


   Esse tempo pode ser considerado relativamente longo para o teste de EA, podendo mascarar o real vigor do lote de sementes (as RAS não têm teste de vigor oficial, e, nas regras da ISTA, não consta teste de pré-condicionamento para sementes desidratadas). Soja com proteína hidratada em temperaturas elevadas, como no teste de EA, favorece a presença de microrganismos e espécies reativas de oxigênio bem cedo, prejudicando os resultados do teste.

   No teste de germinação, subsequente ao EA, foi observado que, no método tradicional, o percentual de plântulas normais manteve-se próximo ao método com solução salina com as umidades iniciais de 8%, 9% e 10%. Já na testemunha (12%), a diferença foi muito mais evidente: no método tradicional, apresentou 80%, e o EA com solução salina, próximo a 90%.

   Assim, neste estudo, colocando as sementes mais desidratadas diretamente na câmara para envelhecer, o maior tempo de adequação do grau de umidade de sementes de soja foi de seis horas. Quanto mais próxima de 12% a umidade inicial, menor o intervalo para atingir a umidade considerada ideal para envelhecer as sementes (exemplo: sementes com 10% levaram apenas uma hora no método tradicional e em torno de duas horas no método com solução salina para atingir ± 12,0% de umidade).

   Portanto, o pré-condicionamento favorece uniformidade no teste em sementes mais desidratadas e se torna fundamental para obtenção de resultados confiáveis e comparáveis entre laboratórios.

   Coautora:
   Marta Gubert
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