O tratamento industrial de sementes (TIS) é, para o agricultor, o verdadeiro cartão de visita da sementeira. Além de representar a qualidade e o cuidado no processo produtivo, o TIS tem se consolidado como uma das tecnologias mais estratégicas do setor, graças ao valor agregado que proporciona e ao retorno econômico significativo que oferece para a indústria de sementes.
À medida que a demanda por sementes de alta performance cresce, aumenta a exigência do produtor rural, que espera um tratamento industrial com qualidade superior ao realizado na fazenda (on farm), principalmente em recobrimento e fluidez. Visualmente, espera-se uma aparência atrativa, com recobrimento uniforme e fluidez adequada, mas é importante destacar que a performance do TIS vai muito além do aspecto visual.
A eficácia agronômica, a compatibilidade entre ingredientes ativos, a qualificação dos operadores, a precisão das aplicações e o controle de qualidade são fatores essenciais para garantir o sucesso do tratamento e impõem uma série de desafios.
O TIS é definido como o processo de aplicação de produtos químicos e/ou biológicos sobre as sementes, com o objetivo de protegê-las contra patógenos, insetos, pragas, fungos e outros fatores que possam comprometer sua performance de estabelecimento na lavoura.
A tecnologia de aplicação do TIS envolve o uso de uma ampla variedade de princípios ativos, frequentemente combinados em uma única receita. Entre eles estão fungicidas, inseticidas, nematicidas, micronutrientes, estimuladores de enraizamento, polímeros, corantes, produtos biológicos, pós-secantes e revestimentos protetores.
Embora muitos desses produtos apresentem excelente desempenho em ambientes controlados, nem todos são compatíveis quando misturados na mesma calda. A combinação de diferentes princípios ativos requer conhecimento técnico, testes prévios e validação agronômica. O uso inadequado pode afetar negativamente a qualidade fisiológica das sementes, causar fitotoxicidade ou reduzir o efeito residual, comprometendo assim a eficácia do TIS.
Atualmente, a indústria sementeira enfrenta diversos desafios; um dos principais é garantir um bom recobrimento das sementes. Esses desafios se tornam ainda maiores quando a aplicação ocorre na fazenda, de maneira não padronizada e sem a infraestrutura adequada.
Outro ponto de atenção é a formulação de receitas que sejam, ao mesmo tempo, economicamente viáveis, tecnicamente compatíveis e capazes de garantir bom recobrimento e fluidez dentro dos padrões aceitáveis e que forneçam a proteção desejada. Ou seja, é necessário que a elaboração das receitas a serem utilizadas considere não apenas a diversidade de princípios ativos, mas também sua compatibilidade e necessidade de mistura em calda para fins da aplicação.
Essa complexidade está diretamente ligada ao correto dimensionamento da estrutura do TIS, que deve ser planejada para lidar com a diversidade de produtos e assegurar a qualidade do tratamento.
A aplicação eficiente está diretamente relacionada à compatibilidade entre os ingredientes ativos. Por isso, é necessário prever um número adequado de bombas, compatíveis com as dosagens e com o tempo necessário para aplicação de cada princípio ativo e sua contribuição no processo. O mau dimensionamento pode gerar falhas operacionais e comprometer a qualidade do recobrimento.
Outro aspecto importante no projeto do TIS é o dimensionamento dos periféricos, elementos que, embora não façam parte diretamente da aplicação, são essenciais para o fluxo e a eficiência da operação. Entre eles, estão os sistemas de abastecimento da máquina, o transporte da semente tratada e o planejamento logístico entre sacaria e big bags. A estrutura deve ser pensada para maximizar o tempo útil de operação da máquina de tratamento, especialmente considerando o curto intervalo entre o tratamento e a expedição da semente.
Além disso, quanto maior a capacidade do equipamento de TIS, maior será a exigência sobre os periféricos. Será necessário um número adequado de empilhadeiras, operadores, balanças ensacadoras, moegas de entrada e caixas de saída, de forma a evitar gargalos e garantir fluidez em todo o processo.
Operação do tratamento industrial de sementes A operação do TIS exige total integração entre três elementos principais: o operador, a máquina tratadora e a receita (princípios ativos). A sinergia entre esses elementos é o que determina a eficiência da aplicação e a qualidade do tratamento de semente final.
Operador: É o elo central da operação, sendo essencial que esteja treinado para identificar problemas técnicos, compreender as variáveis que afetam a aplicação (como formato, cerosidade ou rugosidade da semente, além de fatores ambientais) e realizar corretamente a calibração do equipamento, seja em sistemas de batelada ou de fluxo contínuo. Máquina tratadora: O desempenho da máquina depende de regulagens finas e calibração constante. Em sistemas de fluxo contínuo, o controle sensível é de forma manual, exigindo atenção especial ao formato da semente para garantir recobrimento uniforme. Já nos sistemas de batelada, é possível obter também boa precisão na dosagem e alternância na aplicação dos princípios ativos, o que melhora o visual do recobrimento e a fluidez, desde que haja bombas suficientes e uma boa programação de tempo e ordem de aplicação. Receita (princípios ativos): A formulação da receita deve priorizar a compatibilidade entre os produtos utilizados, considerando aspectos de recobrimento e fluidez. Ponto de atenção é a escolha de polímero adequado, essencial para garantir a formação de uma película uniforme (film coating), que protege os ativos, melhora o residual no campo e ainda confere coloração específica à semente.
O recobrimento ideal exige ajustes técnicos durante a aplicação, como a dosagem, a ordem dos produtos e, especialmente, a consideração das características físicas da semente, que influenciam diretamente a aderência dos produtos. Entre os componentes da receita, o polímero exerce papel central no recobrimento: ele não apenas protege os ativos como também melhora o visual e a durabilidade do recobrimento.
Fluidez: É um aspecto fundamental para garantir boa plantabilidade. A prática comum de utilizar grafite no momento da semeadura tem trazido alguns problemas operacionais, como acúmulo de sujeira, falhas e duplos. Como alternativa, o uso de pós-secantes combinados com aditivos de fluidez e brilho no próprio TIS tem se mostrado altamente eficaz, promovendo boa fluidez e baixo desprendimento de partículas. A associação entre doses ajustadas de polímeros líquidos e um acabamento com pó secante oferece uma solução técnica viável e segura.
Oportunidades no mercado de tratamento industrial de sementes As oportunidades estratégicas para demonstrar os benefícios do TIS envolvem:
- garantir consistência e qualidade técnica;
- reduzir variabilidade nos resultados;
- comunicar de forma clara os benefícios e segurança no uso de insumos;
- investir em estrutura, treinamentos e capacitação da equipe.
O TIS é muito mais do que uma operação técnica: ele representa o cartão de visita da sementeira e um diferencial competitivo no mercado. Para conquistar a confiança do agricultor e promover a adoção do TIS, o setor precisa investir em estrutura, qualificação, controle de processos e, principalmente, entregar resultados consistentes no campo.
O verdadeiro desafio do TIS vai além da aplicação; trata-se de orquestrar um conjunto de ações técnicas e operacionais para garantir que a tecnologia agregada à semente realmente se converta em produtividade na lavoura.