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Quando os chineses inventaram o jogo de dominó (aquele conjunto de duplo 6 com 28 peças), quase dois séculos antes de Cristo, não poderiam imaginar a popularidade que o jogo alcançaria. Tampouco a variedade de aplicações relacionadas ao entretenimento, à matemática e física principalmente, bem como às de cunho virtual, metafóricas, como nos negócios.
O Efeito Cascata e o Lócus Concorrencial
A priori, qualquer questão, com um pouco de boa vontade e alguma inteligência pode ser observada de vários ângulos e de modo sistêmico, amplo e complexo, resultando em diferentes entendimentos e aplicações, quando for o caso. Até um simples jogo de dominó tem essa possibilidade. Permite-nos ver além do óbvio.
No mundo dos negócios, o efeito-cascata, por exemplo, é apenas uma metáfora utilizada a partir da física, na queda dos dominós, quando o equilíbrio se rompe e sequencialmente, uma a uma, as peças caem. Vale lembrar que a própria queda uniforme pode ser um objetivo da montagem com as peças (grandes eventos são montados para isso). Nos negócios, não. O propósito das empresas é ficar em pé o maior tempo possível.
O grande desafio para dar competitividade às organizações é criar estabilidade e segurança ao sistema onde elas estão inseridas. É isso que faz com que algumas cadeias ou sistemas do agronegócio sejam mais capazes do que outras. Como visto, a concorrência não se encerra na disputa pelo mercado entre empresas, mas entre sistemas, composto de muitas organizações. Nesse caso, o lócus concorrencial fica fluído e muitas vezes difícil de determinar.
Esse tema merece um aparte. Lócus concorrencial, de modo raso e simples, é o local onde ocorre a concorrência entre as organizações. Contudo, ao se analisar a atuação das empresas como um sistema, considerando que boa parte das organizações do agronegócio não atuam eminentemente no varejo ou não competem isoladamente com as demais, esse lugar onde a concorrência ocorre pode ser muito longe de onde sua empresa opera.
A título de exemplo e para reflexão: Onde se localizam os produtores de soja e onde estão os principais mercados? Do mesmo modo, os produtores de algodão e seus respectivos mercados? Mesmo alguns produtos componentes de suas cadeias, como as sementes por exemplo, possuem mercados variados e ampla distribuição geográfica, muitas vezes distintos de seu local de produção.
Para brigar com gente grande
Voltando aos dominós nos negócios, notadamente é em relação a essa necessária estabilidade (para um evento não derrubar os demais) que, há muitos anos, o agronegócio brasileiro tem lutado, buscando construir e se manter. Nesse sentido, o grande salto de qualidade do agronegócio no nosso país se deu justamente a partir do momento em que as cadeias necessitaram se articular, consolidando-se como agentes inter-relacionados, brigando com outras de qualquer local do planeta, sem a proteção intempestiva do Estado. A abertura comercial foi imprescindível para essa tendência.
Algumas cadeias de produção somente se tornaram relevantes no contexto econômico a partir do momento em que tiveram um enfrentamento com o mercado externo (ou sendo expostas a ele) e foram capazes de criar estrutura apropriada para enfrentar as turbulências cíclicas, brigando como gente grande, com gente grande.
Um dos exemplos mais emblemáticos e recentes dessa capacidade talvez seja a da cadeia do algodão, que hoje tem Mato Grosso e Bahia como estados produtores de destaque. Sabendo-se que, há praticamente vinte anos figurávamos como um dos principais importadores mundiais. Nesse pequeno horizonte temporal tornamo-nos um exportador de respeito e fomos capazes de enfrentar mercados consolidados e acostumados a definir os rumos do setor.
