Imaginemos a seguinte situação: ao final da safra, uma empresa de sementes comemora um recorde de produção e vendas; os estoques diminuíram, a capacidade industrial foi plenamente utilizada, novos clientes foram conquistados e a equipe comercial atingiu praticamente todas as metas estabelecidas. Dias depois, ao analisar a Demonstração do
Resultado do Exercício (DRE), a diretoria se depara com uma pergunta desconcertante: se vendemos mais, produzimos mais e faturamos mais, por que a rentabilidade ficou abaixo do esperado?
Essa cena, embora fictícia, pode retratar uma realidade bastante conhecida no setor. Não é raro encontrar sementeiras tecnicamente excelentes apresentando resultados econômicos aquém do seu potencial. E, na maioria das vezes, o problema não está na qualidade da semente, na eficiência da UBS ou na competência do time. O problema está na forma como as decisões econômicas são tomadas.
Durante décadas, a formação de preços foi ensinada a partir de uma lógica relativamente simples: Preço = Custo + Lucro. Em mercados menos competitivos, essa abordagem atendia razoavelmente às necessidades das empresas. Bastava conhecer os custos de produção, acrescentar uma margem desejada e definir o preço de venda.
Hoje, entretanto, essa lógica já não explica completamente o funcionamento do mercado de sementes das grandes culturas no país. Em algumas dessas culturas, o preço é fortemente condicionado por concorrência, oferta, demanda e percepção de valor do produtor, sem contar as sementes salvas e a pirataria. A empresa continua tendo poder de decisão, mas sua liberdade para reajustar preços tornou-se muito menor do que no passado.
Essa mudança desloca o foco da gestão. Em vez de perguntar apenas “quanto devo vender?”, o gestor deve perguntar “quanto posso gastar na produção e na venda para preservar a rentabilidade que desejo?”. Sob essa ótica, considero útil trabalhar com uma adaptação conceitual inspirada na literatura de gestão econômica e formação de preços, particularmente nos trabalhos de Bornia (2002): Gastos Totais = Preço de Mercado – Rentabilidade Desejada. Mais do que uma fórmula matemática, trata-se de uma mudança de mentalidade. Se o preço tende a ser limitado pelo mercado e a rentabilidade é uma decisão estratégica da empresa, a principal variável sob controle do gestor passa a ser a administração dos gastos totais.
Faço questão de utilizar a expressão gastos totais, e não apenas custos. Custos representam apenas parte da realidade econômica. A rentabilidade de uma sementeira depende também das despesas administrativas, comerciais, financeiras, logísticas e do custo do capital investido. Ignorar esses componentes pode levar empresas eficientes operacionalmente a resultados decepcionantes.
Observando empresas do setor ao longo dos últimos anos, passei a enxergar um fenômeno que proponho chamar, neste ensaio, de Modelo da Rentabilidade Oculta. A ideia não é apresentar uma nova teoria, mas uma forma de interpretar a realidade gerencial das sementeiras. Enquanto os indicadores tradicionais evidenciam volume produzido, faturamento, produtividade industrial e participação de mercado, existe um conjunto de fatores menos visíveis que frequentemente determina o verdadeiro desempenho econômico da empresa.
Descontos concedidos sem critérios claros, campanhas comerciais pouco avaliadas, estoques excessivos, baixo giro de determinadas cultivares, fretes diferenciados, inadimplência, bonificações, custos financeiros e decisões equivocadas sobre o mix de cultivares podem consumir parcela significativa da margem sem aparecer de forma integrada nos painéis de gestão. São fatores aparentemente dispersos, mas que atuam de maneira conjunta sobre o resultado final.
Talvez essa seja a principal mensagem deste ensaio: eficiência operacional não garante desempenho econômico. Uma empresa pode produzir sementes de excelente qualidade, operar com elevados padrões técnicos e, ainda assim, destruir valor caso seus indicadores gerenciais não revelem onde a rentabilidade realmente é criada ou perdida.
É por isso que acredito existir uma evolução na maturidade da precificação. O primeiro estágio consiste em formar preços apenas pelos gastos acrescidos de uma margem. O segundo observa a concorrência. O terceiro incorpora indicadores econômicos confiáveis. O quarto utiliza esses indicadores para segmentar clientes, canais e cultivares conforme sua geração de valor. No estágio mais avançado, a precificação deixa de ser uma atividade do departamento comercial e passa a integrar a estratégia da empresa.
Nesse modelo, o objetivo não é descobrir o menor gasto possível, mas compreender quais decisões realmente influenciam a geração de valor. O foco deixa de estar apenas na redução de gastos e passa a concentrar-se na alocação inteligente de recursos, preservando a rentabilidade e fortalecendo a competitividade do negócio.
Talvez a maior vantagem competitiva já não esteja apenas na genética, na tecnologia embarcada, na estrutura industrial ou na logística. Ela pode estar na capacidade de transformar informações em decisões. Porque, ao final de cada safra, não será o volume vendido que determinará a sustentabilidade de uma empresa de sementes, mas a qualidade das decisões que produziram aquele resultado.
A adaptação conceitual apresentada neste ensaio dialoga com a literatura de gestão econômica e formação de preços, de acordo com seus principais autores. Seu propósito é servir como provocação e modelo de reflexão para o setor de sementes, não constituindo proposição matemática ou teoria formal.