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Pré-melhoramento de plantas:

o escudo da agricultura contra ameaças invisíveis

Edição XXX | 05 - Set . 2026
Alexandre Nepomuceno-alexandre.nepomuceno@embrapa.br
   A agricultura moderna vive uma busca constante por produtividade. Ao longo de décadas, a ciência do melhoramento genético transformou lavouras ao redor do mundo, oferecendo aos produtores cultivares cada vez mais produtivas e adaptadas às demandas do mercado. No entanto, o próprio sucesso dessa seleção gerou um efeito colateral preocupante, a redução da variabilidade genética no campo. À medida que variedades antigas e crioulas são substituídas por cultivares modernas de alto rendimento, a variabilidade genética das plantas diminui. Nesse processo, genes valiosos, que no passado permitiam às espécies rústicas sobreviverem a secas extremas, solos pobres ou ao ataque de pragas e doenças acabam ficando pelo caminho.

   Para evitar que esse patrimônio genético desapareça, os pesquisadores criaram os bancos de germoplasma, que funcionam como verdadeiros "cofres da biodiversidade". Essas estruturas armazenam sementes e tecidos vegetais de milhares de espécies, desde variedades antigas até parentes silvestres sem valor comercial imediato. No Brasil, a Embrapa
Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargem) abriga um dos maiores bancos de germoplasma do mundo. Trata-se de um reservatório vital de genes prontos para serem acionados quando o setor agrícola enfrentar um novo desafio, como o surgimento de uma superpraga ou o agravamento das mudanças climáticas.

   Entretanto, acessar uma planta selvagem e transferir seus genes de resistência para uma cultivar comercial moderna não é uma tarefa simples. Se feita de forma convencional, essa ponte pode levar mais de uma década. É exatamente aí que entra o pré-melhoramento. O objetivo dessa estratégia é antecipar cenários de crise e/ou buscar novas formas de agregação de valor, como na melhora da qualidade de grãos, frutos e fibras para usos desde o consumo humano até a indústria.

   Os pesquisadores identificam características de interesse em genótipos exóticos ou não melhorados e iniciam o processo de introdução desses genes em linhagens avançadas, mais produtivas. Ao aproximar geneticamente o material selvagem do material comercial, o pré-melhoramento encurta anos de pesquisa. Caso uma emergência fitossanitária aconteça ou um novo uso apareça como uma oportunidade, os cientistas já terão a matéria-prima pronta para lançar cultivares com características de interesse em tempo mais reduzido, conforme explicado figura no texto.

Figura 1_Etapas do Pré-Melhoramento de Plantas e tecnologias.jpg 217.72 KB


   Um aspecto importante deste tipo de atuação preventiva é, por exemplo, na linha de defesa contra pragas e doenças quarentenárias, onde podemos nos preparar melhor contra ameaças que ainda não chegaram ao Brasil, mas que provocam estragos devastadores em outros continentes. Com a globalização, o tráfego intenso de passageiros e o comércio internacional, o risco de introdução acidental - ou mesmo intencional - de um microrganismo ou inseto exótico é constante e real. Além disso, patógenos e vetores podem viajar milhares de quilômetros impulsionados por correntes de ar. Uma ameaça presente na África, na Ásia ou em países vizinhos da América Latina pode desembarcar no ecossistema agrícola brasileiro a qualquer momento.

   Antecipar o desenvolvimento de linhagens produtivas com genes introduzidos que melhorem características de interesse ainda incipiente, mas com potencial de viabilizar novos usos de matérias-primas vegetais na indústria de biocombustíveis e de química fina. Isso também pode acelerar em vários anos a disponibilização de variedades comerciais no mercado. O pré-melhoramento também faz parte das estratégias de pesquisa das grandes empresas de sementes, que exploram a diversidade genética, identificam genes de interesse e incorporam características úteis em germoplasmas de alto valor agronômico.

   A boa notícia é que essa estratégia vive um momento de aceleração sem precedentes, impulsionado por novas ferramentas biotecnológicas:
- Sequenciamento de DNA de baixo custo: permite mapear rapidamente o genoma de centenas de acessos de bancos de germoplasma, encontrando a "agulha no palheiro", o gene exato responsável por uma resistência.
- Marcadores moleculares: funcionam como marcas no DNA que permitem aos cientistas saberem se a planta jovem herdou o gene correto sem precisar esperar o surgimento de sintomas visualmente.
- Edição gênica (CRISPR): abre caminho para inserir ou otimizar genes de interesse diretamente no germoplasma elite com precisão cirúrgica, reduzindo drasticamente o tempo de desenvolvimento de uma nova cultivar. Tambem permite reativar genes que com a evolução da espécie ficaram inativados. Por exemplo, em agosto de 2026 a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) considerou como convencional uma linhagem de milho que possuía vários genes inativados devido a uma inversão cromossomal ocorrida durante a evolução do milho. Utilizando a técnica CRISPR-Cas9, uma empresa de melhoramento de milho reinverteu um fragmento de 75.5 Mb de um cromossomo de milho. Esta reinversão colocou o posicionamento dos genes inativados em sua orientação original, reativando-os, e abrindo uma nova fonte de diversidade genética no milho, com genes da própria espécie que estavam dormentes, inativados.  

   Combinando a riqueza biológica guardada nos bancos de germoplasma com a precisão da biotecnologia moderna, o pré-melhoramento de plantas consolida-se como uma das ferramentas mais estratégicas para garantir a segurança alimentar, o aproveitamento de novas oportunidades e, consequentemente a sustentabilidade do agronegócio no Brasil.
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