A Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (ABRATES) realizou em agosto último o seu XXIII Congresso de Sementes, com mais de 1500 participantes, oriundos principalmente como responsáveis técnicos pela produção de sementes e controle de qualidade, da academia (universidades e centros de pesquisa), empresas diversas com produtos, serviços e equipamentos para sementes.
“A semente é a base insubstituível de todo sistema agrícola, o ponto de partida onde a pesquisa científica ganha vida e se transforma em produtividade real no campo”, afirmou Fernando Henning, presidente da associação.
A ABRATES foi criada em 1970 por 18 profissionais com o objetivo principal de gerar e de trocar experiências sobre a produção e o controle de qualidade de sementes, pois naquela época, segundo a Dra. Odette H. T. Liberal, primeira presidente da entidade, em sua participação na abertura do congresso, as informações eram precárias e muitas vezes pouco confiáveis. Os anos se passaram e atualmente a ABRATES possui uma publicação científica (Journal of Seed Science) de reconhecimento internacional, vários comitês específicos na área de sementes, realiza bienalmente seu congresso e participa como membro ativo da ABRASEM em nível nacional e na ISTA em nível internacional.
As atividades do congresso foram várias durante os quatro dias do evento abrangendo palestras sobre o ambiente sementeiro, apresentação de trabalhos científicos (mais de 500), visitas a empresas com produtos e serviços para o setor de sementes (mais de 50) e não menos importante, reuniões específicas de interesse comum entre os participantes. O congresso é o local em que a pessoa que decide a compra está presente, mesmo que quem paga normalmente está em outro local.
No congresso houve, como de costume, a sessão poster em que os trabalhos científicos, desenvolvidos pela academia, foram apresentados, sendo visitados com frequência. Entretanto, merece destaque um trabalho científico apresentado no salão principal do evento sobre maturação de sementes de soja, que muito agrega para a produção de sementes de alta qualidade em quantidade.
O trabalho consistiu em acompanhar a maturação da semente de soja, utilizando uma cultivar de hábito indeterminado, em ambiente tropical (estado de Mato Grosso), em que a colheita foi escalonada em fases de maturação, desde predominantemente verdes até praticamente todas as sementes maduras e para a colheita utilizou-se dessecação em metade das unidades experimentais. As avaliações foram a dispersão da umidade, avaliada em vagens com três sementes, e a qualidade fisiológica (germinação e vigor).
Salienta-se que este trabalho foi motivado pelo autor dr. Elton Hamer, que em sua tese de doutorado, defendida em 1999, realizou o estudo também em região tropical, entretanto com cultivar de hábito determinado e não utilizou o tratamento de dessecação, o que duplicou o número de unidades experimentais. Foi um trabalho robusto, dando consistência ao estudo.
Resumindo, os resultados de 2026 corroboraram os de 1999 em que há uma grande dispersão da umidade das sementes dentro de uma mesma planta e entre plantas, seja de hábito determinado ou indeterminado e que caso a colheita seja realizada quando todas as sementes estejam secas (menos de 13% de umidade) a qualidade fisiológica é fortemente afetada (não servindo para semente).
As consequências desta constatação são praticamente duas de alto significado, quais sejam:
1- É essencial a realização da colheita com alta umidade das sementes (18-20%) e subsequente secagem artificial e;
2- Utilização da dessecação das plantas para minimizar a deterioração de campo.
Elton salienta que “em ambiente tropical, a dessecação não constitui um mero instrumento de manejo, mas sim, uma técnica essencial e inegociável para a sustentabilidade do negócio de sementes de soja de alta qualidade fisiológica”.
Tecnologia
Vários são os processos que a semente passa antes de chegar ao agricultor entre eles estão a secagem, beneficiamento e o armazenamento de sementes. Todos esses processos já se dominam há muito tempo, entretanto vale lembrar que a eficiência destes processos passa em que o básico deve ser bem-feito.
Em relação a secagem, após décadas de insistência, os produtores de sementes se conscientizaram de que é uma operação essencial para quem desejar produzir sementes em qualidade e quantidade. A apresentação de uma empresa que comercializa mais de 20 000 t de sementes de soja por ano, salienta que seca ao redor de 80% das sementes que colhe, isto para garantir qualidade e quantidade. Até poucos anos não era assim.
Por outro lado, a ênfase no beneficiamento está na eficiência da separação, ou seja, remover o material indesejável com o mínimo de perda de semente boa. As perdas de 30-40% no beneficiamento, já são história. Produzir as sementes e perdê-las por um mau beneficiamento, é má gestão.
Merece destaque os benefícios do tratamento de sementes com bioinsumos que se junta aos outros como fungicidas, inseticidas, nematicidas, micronutrientes e polímeros. Está crescendo o número de produtos que são veiculados com a semente, todos com benefícios. Esta tendência reforça a importância da qualidade da semente, pois uma semente “morta” não consegue realizar sua grande função de gerar uma planta.
O armazenamento é a fase que mais evoluiu nos últimos anos com a adoção do frio dinâmico e o estático. Isto devido a conscientização do agricultor que sementes de alta qualidade produzem mais, assim há produtores de sementes de soja que só comercializam lotes com no mínimo 90% de germinação e se utilizam de armazéns climatizados para manter a qualidade das sementes.
Simpósios
Durante o evento, alguns simpósios foram organizados para dar espaço a importantes assuntos do setor, como sementes de forrageiras e análise de sementes.
Sementes de Forrageiras
O avanço da biotecnologia, as possibilidades abertas pela edição gênica, o uso da inteligência artificial e as transformações no mercado global de sementes estiveram entre os principais temas debatidos. "Para desligar um gene de soja me custou 15 mil dólares e quatro meses; para fazer exatamente a mesma coisa, eu fiz em uma semana por 500 dólares com CRISPR”, afirmou o Pesquisador Alexandre Nepomuceno.
Em sua apresentação, Nepomuceno detalhou como a edição genômica permite modificar rotas metabólicas específicas para aumentar a digestibilidade, otimizar o perfilhamento, retardar a senescência foliar e aumentar a tolerância ao estresse hídrico.
Em seguida, o palestrante Daniel Montardo, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, apresentou um panorama sobre a evolução da qualidade das sementes de forrageiras temperadas no Sul do Brasil e o impacto de programas estaduais e normativas recentes. "Entre as declaradas como certificadas, 67% cumpriam a instrução normativa, mas mais de 30% não cumpriam, não conseguiam atender; e entre as sementes não certificadas, só 32% cumpriam a normativa."
O palestrante explicou as ações desenvolvidas pelas subcomissões de sementes e mudas, com destaque para o ajuste de padrões em aveias-brancas forrageiras via Instrução Normativa nº 31, a implementação do Programa de Sementes Forrageiras do Rio Grande do Sul e as estratégias para superar gargalos como a ausência de produtos fitossanitários registrados para culturas menores (minor crops) e os desafios da dormência e sementes duras em leguminosas.
Já, o palestrante Márcio Sanches, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, abordou o impacto e o diagnóstico de doenças fúngicas que afetam a produção de sementes de forrageiras tropicais (Brachiaria e Panicum), como a mela-das-sementes (Claviceps sulcata), o carvão-da-brachiaria (Ustilago operta) e a cárie-do-sino (Tilletia ayresii).
Sanches apresentou os avanços nas metodologias moleculares de diagnóstico rápido via técnica LAMP (Loop-Mediated Isothermal Amplification), que permite identificar a presença de patógenos ainda na fase vegetativa/emborrachamento ou em lotes de sementes com alta sensibilidade e em menos de uma hora, viabilizando estratégias preventivas de manejo e mitigando perdas diretas na colheita.
Análise de Sementes
A ABRATES convidou a ISTA para o seu congresso, sendo atendida com três participantes, seu presidente (Ernest Allen) vice-presidente (Sergio Pasquini) e o secretário executivo (Andreas Wais), os quais fizeram uma apresentação sobre as atividades da ISTA e sua participação na América latina com ênfase no Brasil, em que três laboratórios estão credenciados para emitirem o certificado laranja para comercialização de sementes.
“Uma das maiores fortalezas da ISTA é o suporte internacional dos demais colaboradores e instituições, pois os desafios que enfrentamos não respeitam fronteiras, como a mudança climática e a fome. Assim, enfatizamos que o atual foco do Presidente da ISTA é a América Latina e o Brasil”, disse Andreas Wais em seu discurso na abertura do evento.
O comitê de análise de sementes é um dos mais ativos, com reuniões técnicas frequentes em várias regiões do país para realização de treinamento, discutirem processos e metodologias de análise de sementes. Destaca-se a conscientização do comitê de que a valorização dos analistas é essencial para o sucesso de qualquer laboratório. Várias iniciativas estão sendo realizadas neste sentido, sendo o treinamento uma delas, pois a tomada de decisão baseada no controle do potencial fisiológico do lote deve estar no centro do debate técnico.
O pesquisador colaborador da Embrapa Soja, Francisco Carlos Krzyzanowski, apresentou o envelhecimento acelerado como uma ferramenta indispensável para antecipar o comportamento dos lotes sob estresse. Ao analisar a evolução e a precisão do teste no planejamento do setor produtivo, Krzyzanowski enfatizou que "o teste de envelhecimento acelerado é a bússola para a tomada de decisão no controle de qualidade."
Já na opinião de Maria de Fátima Zorato, da MF Consultoria, o relacionamento entre o laboratório e o cliente final, especialmente na condução de contraprovas e questionamentos de resultados, é de suma importância para resguardar a idoneidade da análise. Segundo ela, "o posicionamento assertivo diante de uma reclamação transforma um problema em uma oportunidade de fidelização do cliente."
Modelo de Negócio
O negócio de sementes é dinâmico e a concorrência é acirrada, neste sentido felizmente temos uma plataforma legal que propicia segurança para quem investe. Assim, as apresentações abordaram o negócio de sementes no país, cujo ambiente pode ser melhorado para minimizar a pirataria de sementes e a percepção de valor por quem utiliza a inovação tecnológica.
O progresso é alcançado pela inovação tecnológica que começa com uma ideia, sendo seu legado dependente de um sistema capaz de reconhecê-la, protegê-la e transformá-la em geração de riqueza. Um grande exemplo é a edição gênica que já se domina o processo, entretanto o modelo de negócio não está favorável para a colocação no mercado. A pesquisa não é ciência exata, sendo os grandes avanços alcançados por “gente” altamente capacitada com ferramentas sofisticadas e muitas vezes após retumbantes insucessos. É essencial o reconhecimento de algo superior que realmente impacta gerando riqueza
Empresas de Sementes
Estamos num novo ambiente de participar no negócio de sementes no país, enfatizado pela organização do evento que colocou para palestrar três empresas, uma na bolsa de valores, outra uma cooperativa e a terceira com executivos fora do círculo familiar. Até recentemente a grande maioria das empresas de sementes eram dirigidas por alguém da família do fundador. Ou seja, o CPF está sendo substituído pelo CNPJ.
A gestão profissional das empresas de sementes está trazendo um novo ambiente de se fazer negócio, principalmente na análise dos “números” sem olhar nos olhos de quem está do outro lado. Os aspectos de eficiência, eficácia e custo tomam mais atenção.
Comentários finais
O congresso da ABRATES pode ser considerado um dos eventos mais importantes do país na área de sementes, pois consegue despertar interesse da comunidade científica, dos responsáveis técnicos pela produção de sementes, os prestadores de serviços, o pessoal de laboratório de sementes, a indústria de máquinas e equipamentos e não menos importante, o pessoal de governo que ajuda manter a plataforma legal do “negócio” de sementes.