O impacto das sementes não certificadas no Brasil: desafios, perdas e caminhos para o futuro

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Edição XXX | 01 - Jan . 2026
Entrevistado: Gladir Tomazelli, diretor institucional da ABRASS – Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja

   
Qual a situação atual do setor de sementes de soja?
   Gladir Tomazelli: A prática de utilizar sementes produzidas pelo próprio agricultor vem crescendo de forma expressiva nos últimos anos — tanto na modalidade salva legal quanto na semente pirata. O que ocorre é que parte das sementes salvas (legal) acabam sendo comercializadas irregularmente, transformando-se também em sementes piratas.

   Hoje, temos cerca de 13 milhões de hectares no Brasil que não são cobertos por sementes certificadas. Isso representa aproximadamente 16 milhões de sacas de 40 kg, o que corresponde de 27% a 30% da demanda de sementes de soja do Brasil, que deixam de ser produzidas e comercializadas pelo setor de multiplicação de sementes — um setor que investe continuamente em inovação, tecnologia, que emprega mão de obra de qualidade, que adquire máquinas, equipamentos e infraestrutura de ponta, além de atrair grandes empresas que não faziam parte do negócio de produção de sementes. 

   A consequência direta disso é uma perda para toda a agricultura de soja brasileira. Pesquisas apontam que o uso de sementes não certificadas gera, em média, uma redução de 4 sacas por hectare na produtividade. Quando não se usa sementes certificadas e aplicamos esse número aos 13 milhões de hectares, estamos falando de um impacto grave: menos produção, menos empregos — cerca de 4,5 mil postos diretos deixam de existir na cadeia — e menor circulação de valor financeiro no setor. É, sem dúvida, uma perda irreparável para a agricultura como um todo.

   O que pode ser feito para reverter esse quadro?
   A ABRASS apoia um Projeto de Lei (PL n. 1702/19) que tramita atualmente na Câmara dos Deputados e que busca modernizar a legislação de produção de cultivares. A proposta prevê, entre outros pontos, que o agricultor recolha o royalty sobre a genética utilizada. Quando essa lei for aprovada e devidamente regulamentada, o setor de multiplicação de sementes se tornará mais competitivo em relação à semente salva e à semente ilegal. Além disso, teremos maior número de obtentores de genética, pois o pesquisador vai ter a garantia e segurança jurídica que receberá os valores pelo seu trabalho, ou seja, pela pesquisa e pela implementação de genética no Brasil. Nesse sentido, haverá maior competitividade e transparência promovendo um ecossistema mais equilibrado entre obtentores, multiplicadores e agricultores — beneficiando toda a cadeia.

   E o que a ABRASS tem feito, na prática, para melhorar esse cenário e planeja visando a redução do volume de semente pirata?
   Há cerca de quatro anos, a associação desenvolve um grande projeto de melhoria da qualidade das sementes: a Certificação de Processos ABRASS. Estamos atualmente na fase de implementação das auditorias.

   Firmamos uma parceria com a ABNT, referência em credibilidade e rigor técnico, para auditar os processos de produção de sementes. O objetivo da ABRASS é melhorar, padronizar e uniformizar os processos entre os multiplicadores associados para que possamos ter uma regularidade maior na qualidade de sementes. Isso permitirá a criação de um selo ABRASS de certificação de processos na produção de sementes, que garantirá ao agricultor maior segurança e previsibilidade na qualidade das sementes adquiridas através dos associados. É um projeto robusto, de longo prazo, mas que está avançando com muito empenho e deve gerar resultados significativos para o setor.
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