Embora esta abordagem possa ser feita para sementes de diversas culturas, iremos focar a discussão na cadeia produtiva das sementes de soja.
A possível e provável sobra de sementes de soja produzidas na safra 2024/25 e que seria utilizada para o plantio da safra atual ganhou holofotes, passando de conversas de bastidores para o palco central nos círculos de obtentores, multiplicadores e distribuidores. Ainda sem condições de se conhecer os números exatos das sobras, nas diversas regiões do país, o setor produtivo de sementes de soja novamente depara-se com um antigo conhecido: o descompasso entre oferta e demanda (leia-se: capacidade produtiva instalada e compra de sementes legais pelos agricultores). Os números das sobras apontam para algo entre 30 e 40% do volume total produzido, de acordo com relatos de players do setor. Números estes, entretanto, que obviamente carecem de levantamentos e comprovação oficial.
Fato: a área de plantio projetada para a safra 2025/26, ao redor de 49 milhões de hectares, parece ter se concretizado. Assim, se pode fazer uma conta simples: com um gasto médio ao redor de 55 kg.ha-1, podemos estimar uma demanda total de sementes de soja para o Brasil em torno de 2,7 milhões de toneladas. É certo que as sementes legais não abocanham toda esta fatia. A taxa de utilização de sementes (TUS) é diferente e varia em cada região sojícola do país. O valor da TUS nacional para sementes de soja, de 67%, é um bom número e aceito pelas entidades representativas do setor. Desta maneira, quanto produzimos a mais? Certamente este montante será apurado com o passar dos dias, pois os sementeiros são obrigados a passarem tais informações ao setor regulador, bem como a quantidade de sementes vendidas.
Pode ser que tais informações formais demorem certo tempo para serem publicizadas. Mas, ao tempo presente, o que se tem são as informações informais de sobras, aqui e ali, juntamente com reclamações do setor sementeiro.
Nos últimos anos, temos assistido uma robusta ampliação da capacidade operacional dos multiplicadores licenciados de sementes de soja. No mesmo sentido, novos players têm adentrado ao mercado. Estes dois fatos observados, juntamente com melhorias das técnicas produtivas, aliadas aos bons desempenhos em campo das modernas cultivares, facilmente permitem concluir que foi, sim, possível o significativo aumento na quantidade das sementes produzidas. A taxa de aproveitamento das sementes de soja (desde a aprovação de campos, passando pelo beneficiamento e armazenamento) tem sido maior atualmente do que na década passada.
Já o sojicultor, consumidor de sementes, vem sendo pressionado frente a incertezas de mercado. Dificuldades de acesso à crédito mais seletivo para custeio da safra ocasiona para ele aversão ao risco, além da necessidade de redução dos seus custos de produção. Aumento do uso de sementes salvas pode ter sido a opção adotada.
A combinação disto tudo alterou o comportamento de compra das sementes por parte dos consumidores e encurtou janelas de planejamento e decisão dos multiplicadores de sementes.
E qual pode ser o custo invisível da sobra de sementes? Neste caso, não irão ocorrer apenas perdas de valor na comercialização das sementes.
A gestão dos gastos na produção e comercialização das sementes nunca foi tão necessária. Nas contas do sementeiro, o impacto é amplo. Dentre os gastos envolvidos nos custos de produção, somente poderão ser amortizados aqueles relativos à matéria-prima (custo direto), sem a bonificação já paga non caso de operação por meio de cooperantes.
Como se sabe, as sobras de sementes de soja podem ser comercializadas como grão comercial. Mas, mesmo para aqueles sementeiros que trabalham com a prática de produzir os pré-lotes, o operacional adicional para o descarte como grão é alto e nem sempre previsto. Em casos de que as sobras de sementes já estejam acondicionadas na embalagem final, a conta só aumenta.
Mas deve ser entendido que a magnitude deste reembolso irá depender do preço de mercado da commodity quando a posição for realizada. Todos os demais custos de produção (fixos e variáveis – que são indiretos) irão impactar negativamente no resultado e, obviamente, serão suportados pelo montante de sementes comercializado.
As despesas de administração e vendas (também indiretas), inclusive as financeiras, também irão aumentar para as demais sementes vendidas. À exceção de despesas diretas como royalties e taxa tecnológica, recolhidas apenas quando as sementes são vendidas, as demais deverão ser apuradas. Ao perder o timming de comercialização das sementes, destrói-se o valor agregado neste ativo. Novas contas precisam ser feitas.
Não bastasse somente isto, a grande oferta de sementes no mercado pressiona os preços de vendas, gerando comoditização desta mercadoria, que possui marca e padrões de qualidade definidos. Lembremo-nos de que do preço de venda sai a margem de lucro, para o sementeiro pagar todos os seus gastos, investir, contratar, suspirar aliviado e ter saúde financeira para poder permanecer no mercado, pelo menos até a próxima safra.
Assim, perguntas incômodas precisam ser feitas... Existem lacunas na gestão dos sementeiros? Produzir muito é produzir melhor e garante rentabilidade? Projeções de demanda empíricas e históricas ainda tem papel relevante nas tomadas decisões? Quais os indicadores de gestão (fáceis de serem calculados) que estão sendo adotados pelas empresas multiplicadoras de sementes?