Nosso país passou de importador de grãos para um dos líderes em exportação, isto num período de 45 anos. Pode ser considerado um exemplo a ser seguido pelas estratégias que adotou, principalmente em relação as inovações tecnológicas e pelo empreendedorismo de seus agricultores. Neste período, a pesquisa desenvolveu várias inovações, à disposição do agricultor, como a adoção do plantio direto na palha, cultivares e/ou híbridos com atributos agronômicos superiores, sementes de alta qualidade, eventos biotecnológicos, entre outros.
O Brasil possui várias regiões com suas características climáticas específicas, como o Sul de clima temperado e o Centro-Oeste de clima tropical e subtropical. Isto significa que no Sul há apenas uma safra de verão como da soja ou milho, enquanto na região subtropical ou tropical é possível ter duas ou inclusive três safras por ano na mesma gleba de um cultivo como o milho ou o algodão, depois da soja. Neste sentido, mais da metade do cultivo do milho e do algodão são após a soja, com milhões de hectares cultivados.
No início da década de 1980, os cultivos de soja, trigo, sorgo e arroz irrigado ocorriam principalmente na região Sul do país, com clima temperado, enquanto o algodão era cultivado majoritariamente no Nordeste, por pequenos agricultores; já o arroz de sequeiro era plantado nas regiões Norte e Centro-Oeste brasileiro. Estes cultivos, na época, alcançavam pouco mais de 30 milhões de hectares.
Por outro lado, no ano de 2024, o país cultivou mais de 70 milhões de hectares com as principais culturas graníferas, destacando-se a soja com mais de 47 milhões de hectares, cultivada praticamente em todo o país, destacando-se as regiões tropicais e subtropicais, com mais de 60% da área, assim como do milho. Nesse sentido, salienta-se que o cultivo do algodão atualmente é no Centro-Oeste, conduzido em larga escala por agricultores com uso de alta tecnologia, enquanto em 1980 era principalmente no Nordeste por pequenos agricultores utilizando baixa tecnologia (inclusive utilizando sementes com línter).
Cultivo da soja A soja é a principal cultura granífera do país com uma área cultivada de 47,6 milhões de hectares em 2024/25 (tabela no texto), com um aumento de 444% desde 1980. Por outro lado, o aumento de produtividade no período foi de 109%, significando um acréscimo superior a 2 p.p./ano, o que é considerado alto em termos globais.
Destaca-se que a produtividade atual da soja é de 3,56 t/ha, posicionando o Brasil como líder de produtividade global, para um cultivo em larga escala. Isto reveste-se de importância, pois o cultivo é majoritariamente em região tropical, em que o melhoramento vegetal teve que começar do zero, pois a soja é de clima temperado (na década de 1970, as cultivares eram de clima temperado oriundas dos EUA).
Os desafios do cultivo da soja na região tropical foram vários, além da criação e desenvolvimento de cultivares adaptadas, destacando-se o ataque da doença chamada cancro-da-haste (Diaporthe phaseolorum), que atingiu grande parte da área cultivada no país, sendo superada pela identificação e criação de cultivares resistentes. Vários anos decorreram para que se tivesse cultivares em quantidade resistentes à doença.
Outro aspecto relevante do sucesso da soja é que as cultivares são predominantemente de ciclo precoce ou mediano (com menos tempo para enchimento de grão) para possibilitar uma segunda safra (milho ou algodão, principalmente). Isto significa que os melhoristas (em germoplasma e biotecnologia) fizeram um bom trabalho, sem desconsiderar a importância do uso de sementes de alta qualidade em quantidade das cultivares melhoradas.
Em relação ao aumento de área de cultivo, registra-se que a soja entrou principalmente em áreas de arroz de sequeiro, forrageiras tropicais e terras degradadas. O sojicultor preza por seu solo, utilizando tecnologias avançadas de conservação (plantio direto, sistematização e plantas de cobertura), pois está no seu perfil deixar um legado para seus descendentes.
A importância do aumento de produtividade pode ser verificada considerando a necessidade de área caso não ocorresse este aumento, ou seja, tem-se, atualmente, a produção de 169,5 milhões de toneladas de soja com a produtividade de 3,56 t/ha; entretanto, caso a produtividade ainda fosse 1,7 t/ha do ano de 1980, seriam necessários 99,7 milhões de hectares em vez dos atuais 47,62 milhões. Isto é uma das melhores evidências de que o aumento da produtividade é um dos fatores que melhor atua em benefício do ambiente. Há uma relação estreita entre inovação e sustentabilidade.
Cultivo do milho O milho é um dos exemplos nos quais o país passou de importador para exportador de grão. Isto deveu-se, como era de se esperar, pelo aumento da área e da produtividade. A área neste período de 45 anos aumentou 91%, alcançando mais de 21 milhões de hectares, sendo mais da metade em cultivo de segunda safra, também chamada safrinha, ou seja, após o cultivo da soja na região tropical do país.
A produtividade do milho aumentou em mais de cinco vezes no período, alcançando 5,98 t/ha, isto devido ao uso de materiais genéticos mais produtivos, com a substituição de variedades de polinização aberta por híbridos majoritariamente do tipo simples com maior potencial produtivo. Salienta-se que esta produtividade ainda é inferior à dos EUA (maior produtor mundial), que apresenta mais de 10 t/ha; entretanto, deve-se considerar que a produção brasileira é majoritariamente de safrinha: com pouco tempo para enchimento de grão, o significado desta diferença é amenizado.
Atualmente, o país produz mais de 120 milhões de toneladas de milho por ano, principalmente para alimentação animal e produção de álcool, sendo parte destinada à exportação. A tendência é que a produção aumente, principalmente pela criação e desenvolvimento de materiais mais produtivos de híbridos simples, os de maior potencial produtivo.
Cultivo do trigo O trigo é um dos exemplos em que a área de cultivo diminuiu nos últimos 45 anos, reduzindo de pouco mais de 3 milhões de hectares para 2,6 milhões, sendo a produção inferior as necessidades do país.
Salienta-se que o trigo é uma cultura tradicional da região de clima temperado do país, em que investimentos públicos e privados são de larga data conduzidos, sendo que a Embrapa possui um centro específico para pesquisa sobre o cereal. Neste sentido, apesar de haver uma redução na área de cultivo, a produtividade saltou de menos de uma tonelada por hectare para mais de três.
À similitude da soja, o trigo está sendo largamente pesquisado para viabilizar seu cultivo em região tropical, sendo que já foram identificados materiais com desempenho promissor. Caso se confirme a viabilidade, o país com certeza passará de importador para exportador, com um uso mais eficiente do solo.
Cultivo do algodão O cultivo do algodão passou por grandes mudanças nestes 45 anos. Cultivado inicialmente por pequenos agricultores, utilizando semeadura manual de semente com línter, para grandes agricultores tecnificados, utilizando semente deslintada e tratada com vários produtos.
A mudança no cultivo do algodão fez com que a área diminuísse em mais de 40% e a produtividade aumentasse em mais de dez vezes, alcançando atualmente 4,53 t/ha de pluma, sendo uma das maiores em termos globais.
Várias foram as causas para a redução da área de cultivo do algodão, destacando-se o aparecimento, em 1983, do inseto conhecido como bicudo-do-algodão (Anthonomus grandis), de difícil controle, requerendo aplicações frequentes de inseticida e inviabilizando o cultivo de pequenas áreas de baixa tecnologia. Isto desmantelou a cadeia do algodão, provocando uma queda vertiginosa da área, principalmente no Nordeste, onde o controle do inseto tornou-se impraticável.
O aumento substancial da produtividade do algodão é resultado dos avanços agronômicos utilizados pelos cotonicultores, como o controle de doenças e pragas, melhoramento vegetal (germoplasma e biotecnologia) e o uso de sementes de alta qualidade das cultivares melhoradas.
Cultivo do arroz Nas décadas de 1980 e 1990, o cultivo de arroz irrigado era inferior ao do arroz de sequeiro. Entretanto, atualmente é o inverso, em que o arroz de sequeiro perdeu área para a soja, principalmente.
O arroz irrigado é cultivado principalmente em região de clima temperado, no Sul do país, apresentando uma produtividade superior a 8 t/ha, em que parte é com materiais híbridos, enquanto o arroz de sequeiro é majoritariamente cultivado em região tropical, com uma produtividade inferior a 3 t/ha.
Atualmente se cultivam 1,6 milhão de hectares, cuja produção é suficiente para abastecer o país com 12 milhões de toneladas de arroz em casca, para um consumo de 40 kg por habitante por ano.
Plataforma legal O país possui uma plataforma legal moderna, que contempla vários aspectos da exploração agrícola. Entretanto, neste documento será apresentada a plataforma legal relacionada à criação e ao desenvolvimento de cultivares, assim como de produção e de comercialização de sementes.
Pode-se considerar que grande parte do aumento de produtividade que ocorreu com as espécies nestes 45 anos deveu-se à criação e ao desenvolvimento de cultivares superiores e à adoção de suas sementes de alta qualidade pelos agricultores. Isto foi proporcionado por uma plataforma legal que protege e reconhece o trabalho do melhorista (germoplasma e biotecnologia) e incentiva a produção de sementes em larga escala para atender a demanda dos agricultores. Somente em soja, são necessárias mais de 1,7 milhão de toneladas de sementes por ano.
A proteção para quem cria e desenvolve cultivares ocorre de duas formas: 1. no caso de germoplasma superior, pela Lei de Proteção de Cultivares, que protege os materiais até a semente; isto significa que se o agricultor desejar guardar seu grão para usar como semente, poderá fazer sem custo; e 2. no caso de eventos oriundos da biotecnologia, estes são patenteados, cuja proteção vai até o grão, significando que o agricultor, mesmo guardando seu grão para usar como semente, deverá pagar a taxa tecnológica para o obtentor.
Atualmente, no país, há vários programas de melhoramento vegetal, sendo na grande maioria privados; somente para a cultura da soja, são mais de 20.
A qualidade da semente está contemplada na Lei de Produção e Comércio de Sementes, que estabelece procedimentos e padrões para comercialização, como porcentagens de germinação e pureza.
Em termos de análise de eventos biotecnológicos, o país possui a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que tem demonstrado agilidade na deliberação dos processos encaminhados para comercialização de materiais geneticamente modificados. Desde sua criação, em 2005, já analisou e deliberou sobre segurança humana e ambiental em mais de 100 eventos de diversas culturas.
Eventos biotecnológicos O primeiro evento biotecnológico cultivado em larga escala no Brasil, a partir de 2005, foi a soja RR tolerante ao herbicida glifosato. A partir desta data, vários outros eventos foram liberados para comercialização, fazendo que o país seja o segundo em adoção de materiais geneticamente modificados (GM), com mais de 50 milhões de hectares cultivados.
A soja é o maior exemplo de adoção: mais de 90% da área cultivada usa materiais GM, apresentando tolerância a herbicidas, resistência a insetos, qualidade nutricional e atributos agronômicos. O segundo cultivo em adoção é o milho, também com mais de 90% de adoção.
Registre-se que os eventos GM para tolerância a herbicida são vários, pois o genoma das espécies é bastante grande, sendo que pode haver indivíduos naturalmente tolerantes a um determinado princípio ativo, o que após algum tempo pode tornar-se um inconveniente. Isto aconteceu na soja RR com a invasora conhecida como buva (Conyza spp.).
Em relação a materiais resistentes a insetos, também são vários, o que aufere ao cultivo uma proteção “natural”, sendo utilizado em larga escala para soja, milho e algodão. O atributo agronômico de tolerância à seca, incorporado aos cultivos do trigo, soja e sorgo, está nos estágios iniciais de adoção, o mesmo acontecendo com a qualidade nutricional para milho e soja.
O futuro A tendência do aumento da produção de grãos e fibra no país é uma realidade, considerando as conquistas já alcançadas pelos agricultores em condições muitas vezes precárias, assim como os avanços obtidos pelos pesquisadores, adaptando os cultivos para regiões consideradas marginais e hoje utilizadas em larga escala. A adaptação da soja para cultivo em região tropical é o melhor exemplo.
Pode-se assumir que o aumento da produção virá principalmente pelo crescimento da produtividade dos cultivos, pelo uso de áreas atualmente com forrageiras tropicais e recuperação de áreas degradadas. O país possui mais de 140 milhões de hectares com forrageiras tropicais que poderão ser convertidas em cultivos anuais ou com a crescente exploração do sistema Pecuária-Floresta-Lavoura. Segundo levantamento do Cadastro Ambiental Rural (CAR), o país possui menos de 8% de sua área com lavoura e mais de 30% de área preservada pelos agricultores, ratificando o cuidado que os donos da terra possuem com seu patrimônio.
Em relação ao aumento de produtividade dos cultivos, pode-se assumir que se manterá entre 1-2% ao ano, conforme dados dos últimos 45 anos, e os recentes avanços científicos com a “revolução gênica”. Destaca-se que nos cultivos de soja e algodão, o país é líder mundial de produtividade; entretanto para milho, cuja produtividade média nacional (6 t/ha) está bem abaixo do líder mundial (10 t/ha), pode-se assumir que, em um futuro próximo, esta diferença seja minimizada, aumentado a produção nacional sem aumento da área cultivada.
Registra-se com satisfação que o país possui pesquisadores de alto nível em quantidade, capacitados tanto nas várias universidades nacionais como nas internacionais, com ferramentas de trabalho a disposição. Exemplificando, os avanços advindos da biotecnologia podem ser utilizados no país com rapidez e com baixo custo, uma vez passando por análise de uma comissão que examina cada evento por sua segurança (CTNBio). Isto significa grandes e rápidos avanços na adoção de uma melhoria. Há gente qualificada, demanda e ferramentas à disposição, que poderão contribuir para o aumento da produção de grãos e fibra em um ambiente sustentável.
*Texto preparado para o Pensar Agro como parte de documento apresentado na COP30