O risco das estratégias comerciais que burlam a lógica da qualidade:

estamos premiando o erro?

Edição XXX | 01 - Jan . 2026
Maria de Fátima Zorato-fatima@mfzorato.com.br
   No atual cenário da produção de sementes, sobretudo sementes de soja, cresce mais uma prática comercial que precisa urgentemente ser debatida: a reposição indiscriminada e a indenização automática a produtores, independentemente da causa real do problema.

   Trata-se de uma corrida pela fidelização, onde o critério técnico, a legislação e até a fisiologia ficam em segundo plano. Uma disputa em que “o concorrente já repôs” se torna justificativa para reposições que nada têm a ver com qualidade.

   O ressarcimento automático é um caminho curto e perigoso. Muitas empresas hoje repõem sementes em qualquer situação: erro claro de manejo, semeadura fora da janela, armazenamento inadequado na fazenda, erro na dosagem de tratamento químico ou retratamento de sementes tratadas de forma industrial, regulagem incorreta da semeadora ou simplesmente ausência ou incompetência técnica de diagnóstico. Essa “generosidade” forçada tem um preço alto. E quem paga? Todo o setor.

   Estamos assistindo um novo mito comercial: garantia de estande. Prometer estande garantido virou moeda de troca comercial. Mas estande é um fenômeno multifatorial — solo, clima, manejo, profundidade, velocidade de semeadura — e nunca esteve sob responsabilidade exclusiva da semente. Ainda assim, o mercado passou a vender garantias que não pertencem à natureza do produto.

   O problema se agrava quando empresas prometem vigor mínimo acima do que qualquer legislação prevê. Prometem o que nem a fisiologia assegura. Criam expectativas impossíveis de atender — e depois pagam por elas, porque a conta costuma chegar. 

   A pergunta é: até quando terá caixa para sustentar isso. Canibalismo puro? Essa é a pergunta que poucos se atrevem a fazer, mas que precisa ser trazida à luz: até quando os produtores de sementes terão caixa para sustentar reposições indiscriminadas?

   Repor sem critério não é apenas um ato comercial arriscado — é um modelo insustentável. As margens já são pressionadas por custos elevados, variações climáticas, logística, exigências legais, tecnologia embarcada e, ainda assim, o ressarcimento virou rotina.

   Quanto mais a prática se normaliza, mais ela corrói silenciosamente: esvazia o lucro, compromete o fluxo de caixa, distorce o custo real da semente e coloca em risco a saúde financeira das empresas, inclusive das mais sérias. E há um impacto adicional que raramente é discutido: credibilidade.

   A substituição gera desconfiança por parte do comprador. Quando isso vira regra, surge uma leitura perigosa do outro lado da mesa: "Se estão repondo tão facilmente, é porque não confiam na própria qualidade". Ou pior: "Se repuseram, é porque a culpa era da semente mesmo".

   Assim, uma estratégia criada para “proteger a imagem” acaba produzindo o efeito inverso — alimentando a percepção de insegurança.

   O dilema é ético e técnico. As consequências dessa generosidade artificial são perigosas. Se continuarmos nesse caminho, o setor inteiro corre o risco de: comprometer sua rentabilidade; desvalorizar quem trabalha corretamente; elevar custos invisíveis, que acabam repassados para toda cadeia; pressionar a produção a atender padrões irreais; perder referências técnicas; deseducar os produtores; criar uma falsa expectativa de que a semente é garantia de estande, quando nunca foi; estimular empresas sérias a entrar no mesmo jogo por sobrevivência; e transformar a semente em simples moeda de negociação, desconectada de sua base científica.

   A questão não é se devemos apoiar o produtor; a questão é como. É perfeitamente legítimo que a empresa seja parceira, que tenha pós-venda atuante, que investigue, compare e ajude o produtor a entender o que ocorreu no campo. O problema começa quando o resultado já está decidido antes da análise. Quando a troca é automática, o diagnóstico deixa de existir.

   A pergunta que precisa ecoar no setor: estamos construindo qualidade ou estamos premiando o erro até que a conta estoure?

   Não existe qualidade sustentável pactuada em acordos comerciais que ignoram leis, fisiologia e ciência. Qualidade exige compromisso, diagnóstico, rastreabilidade, técnica e, principalmente, honestidade com o produtor — mesmo quando ela não for a resposta mais fácil
Semente é tecnologia viva, não é seguro agrícola. Reposição não deveria ser política de marketing — deveria ser consequência de diagnóstico técnico.

   A cadeia de sementes precisa urgentemente reequilibrar práticas comerciais com a realidade fisiológica e econômica. Porque, ao final, qualidade não se sustenta na base da restituição; sustenta-se em ciência, educação, transparência e responsabilidade.
Compartilhar