A produção de sementes no Peru é um componente estratégico da segurança alimentar e do desenvolvimento agrícola sustentável. Nas últimas duas décadas, o país avançou na organização institucional do sistema de sementes, liderado pelo Serviço Nacional de Saúde Agrária (SENASA) e pelo Instituto Nacional de Inovação Agrária (INIA), com a participação de empresas privadas, cooperativas e organizações de produtores.
O mercado nacional de sementes combina sistemas tradicionais de troca ou uso de sementes próprias com sistemas formais. No entanto, estima-se que apenas 15% da área total cultivada utilize sementes certificadas, enquanto o restante continua a depender de sementes próprias. Mesmo assim, a demanda por material geneticamente superior e de qualidade sanitária está aumentando, impulsionada pela modernização dos programas de melhoramento genético e pela adoção de tecnologias de cultivo mais intensivas. Merecem destaque a aquisição e a produção de sementes de qualidade para as culturas agroindustriais de exportação do litoral do país.
Estrutura institucional e programas de aprimoramento O INIA coordena a maioria dos programas nacionais de melhoramento de plantas, com 25 estações experimentais distribuídas pelo país. As culturas prioritárias incluem arroz, milho amarelo, quinoa, batata, trigo e leguminosas, além de árvores frutíferas, pastagens e espécies florestais.
O Sistema Nacional de Sementes (SNS) contempla o conjunto de entidades públicas ou privadas que realizam uma ou mais das seguintes atividades: pesquisa, produção, promoção, extensão, beneficiamento, certificação, comercialização ou distribuição, supervisão, regulação e utilização. O SNS estabelece os procedimentos para o registro de cultivares comerciais, certificação de sementes e credenciamento de produtores.
Esses procedimentos são respaldados pelos regulamentos técnicos para certificação de sementes, pelos regulamentos ou normas específicas para sementes por cultura e pelos requisitos mínimos de pureza e germinação para espécies sem regulamentação específica.
O SENASA é a autoridade nacional de sementes, sendo responsável pela certificação, enquanto o INIA, universidades e empresas privadas realizam a pesquisa e a produção de sementes. Atualmente, o país possui mais de 400 variedades registradas e 350 produtores de sementes credenciados, dos quais aproximadamente 70% são micro e pequenos produtores associados a projetos de desenvolvimento regional.
Área e produção de sementes certificadas No Peru, são produzidas sementes certificadas para batata, milho, arroz, trigo, quinoa e outras culturas economicamente importantes. No entanto, os volumes ainda são limitados em comparação com a demanda nacional. Na safra 2023-2024, por exemplo, a comercialização de sementes certificadas de batata atingiu 18.555 toneladas, cobrindo 0,6% da área cultivada.
No país, existem 23 culturas de ciclo curto, com uma área de plantio aproximada de 2,1 milhões de hectares durante a safra 2024-2025. Isso significa que as dez culturas importantes para a segurança alimentar ocupam aproximadamente 62% dessa área.
Apenas no arroz, a produção nacional de sementes certificadas cobre a demanda, com uma taxa de utilização de sementes certificadas de 60%. Nas demais culturas, há um déficit grande e significativo, especialmente na semente de batata.
A produtividade do arroz no Peru é superior à estimativa global da FAO (4.751,8 kg/ha, ±20%), o que é positivo. No entanto, para cevada (3.151,2 k/ha), milho amarelo (5.962,3 k/ha), batata (22.803,7 k/ha) e trigo (3.625 k/ha), as produtividades estão abaixo dos níveis globais estimados, com margens significativas (em alguns casos, de 50% a 80% menores). O Peru apresenta os valores que fornecemos, mas não podemos compará-los de forma robusta com uma média global bem estabelecida.
Essa situação sugere uma oportunidade técnica para melhorar a produtividade dessas culturas por meio do uso de sementes de qualidade e práticas agronômicas aprimoradas. Deve-se notar que as médias globais fornecidas pela FAO frequentemente incluem sistemas altamente mecanizados e regiões com investimentos significativos; os rendimentos nacionais refletem a heterogeneidade de áreas com tecnologia menos avançada. No Peru, apenas o arroz e o milho dentado cultivados no litoral utilizam métodos de cultivo de tecnologia média a alta (em Arequipa, por exemplo, o rendimento médio do arroz é de 13,7 t/ha, e em Barranca, ao norte de Lima, o rendimento do milho dentado chega a 14,0 t/ha). Outras culturas são mais comuns nas terras altas.
Uso de sementes certificadas e dinâmica de mercado O uso de sementes certificadas apresenta marcada heterogeneidade entre as culturas. Em hortaliças e milho dentado, predomina a importação de sementes híbridas, enquanto em culturas andinas, como batata, quinoa e outros grãos nativos, prevalece o uso de sementes de origem local ou artesanais. No caso da batata, o vice-presidente da Associação Peruana de Engenheiros Agrônomos (APIA), Juan Risi Carbone, destaca uma prática difundida em mercados atacadistas chamada "manteo", que consiste na classificação dos tubérculos de acordo com o tamanho.
Dentro dessa classificação, as batatas menores (conhecidas como "papa runtu", termo quechua que significa "ovo", devido à sua semelhança com o tamanho de um ovo de galinha) são frequentemente reembaladas em sacos de polipropileno e vendidas como sementes. No entanto, esse material não é semente certificada, mas sim pequenos tubérculos de cultivos comerciais, que não passam pelos processos de certificação que garantem sua qualidade genética, fisiológica e fitossanitária. O uso e a disseminação desse tipo de material como semente também contribuíram para a propagação de doenças quarentenárias no país, incluindo a murcha bacteriana (Ralstonia solanacearum) e o nematoide do cisto da batata (Globodera spp.).
Nos últimos anos, alguns programas públicos e privados têm concentrado seus esforços em melhorar a disponibilidade local de sementes de qualidade, promovendo o acesso de pequenos agricultores por meio de redes regionais de multiplicadores.
Essa situação sugere uma oportunidade técnica para melhorar a produtividade dessas culturas por meio do uso de sementes de qualidade e práticas agronômicas aprimoradas. Marketing e principais atores
O mercado de sementes no Peru segue um padrão misto: • empresas privadas dominam os mercados de hortaliças, frutas vermelhas, como mirtilos, arroz e milho híbrido; • cooperativas e associações rurais participam ativamente da produção de batata e quinoa; • o INIA promove a produção de sementes básicas, registradas e certificadas por meio de projetos subsidiados.
O país mantém um déficit comercial de sementes: importa principalmente milho híbrido amarelo dentado, hortaliças e forragem.
Políticas recentes do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Irrigação promovem a criação de centros regionais de sementes, o credenciamento de produtores junto à Autoridade Nacional de Sementes e a digitalização do Cadastro Nacional de Sementes — ferramentas que visam integrar pequenos produtores ao mercado formal.
Perspectivas O fortalecimento do sistema de sementes peruano requer a consolidação de quatro áreas-chave: 1. inovação genética contínua, com variedades adaptadas às mudanças climáticas e com valor nutricional diferenciado; 2. certificação acessível e descentralizada, permitindo que pequenos produtores ingressem no sistema formal; 3. programas de capacitação e assistência técnica para produtores de sementes; 4. comercialização integrada, impulsionada por parcerias público-privadas que garantam rastreabilidade, qualidade e rentabilidade.
Os programas de melhoramento genético do INIA, em conjunto com universidades e centros internacionais, fornecem uma base sólida para o desenvolvimento de novas variedades. A curto prazo, a adoção de plataformas digitais de registro e rastreabilidade será fundamental para aumentar a competitividade do setor.
Coautores: Kryss A. Vargas Lucía Pajuelo Susana Chumbiauca