Escolher a semente é uma arte

Edição XXIX | 02 - Mar . 2025
Bruno Ricardo Scheeren-bruno_ricardo@terra.com.br
   Os avanços tecnológicos na agricultura aceleram ano a ano, e, nesse contexto, está o melhoramento genético da cultura da soja. Com isso, todos os anos surgem novas cultivares disponíveis para semeadura, acarretando dúvidas sobre a escolha da cultivar, almejando a obtenção de alta produtividade.

   Antes da existência da Lei de Proteção de Cultivares, a disponibilidade de novas cultivares, era restrita, pois poucas empresas atuavam no melhoramento genético da soja. O market share era dominado pela genética da Embrapa e, em menor escala, da Coodetec. Nesse período, a vida útil das cultivares normalmente ultrapassava 10 anos de mercado.

Central 1.jpg 176.92 KB


   Ao longo de 38 anos atuando na produção, comercialização e consultoria de sementes no estado de Mato Grosso do Sul (MS), destacamos quatro cultivares que foram muito requisitadas nesse período, cada qual em uma época (Ver tabela no texto).

   A cultivar BR 16 foi muito demandada por 15 anos; era a preferida pelos produtores rurais. Possuía ciclo precoce, hábito de crescimento determinado, convencional e exigente em fertilidade. A produção comercial de sementes iniciou em 1987 e se estendeu até 2002.

   Na sequência, assumiu a liderança a cultivar CD 202, ciclo precoce, hábito de crescimento determinado, convencional e exigente em fertilidade. O grande diferencial dela em relação a BR 16 era em relação à janela de semeadura mais ampla e a um maior teto produtivo. Só não permaneceu mais tempo no mercado devido ao surgimento das variedades resistentes ao glifosato. Por vários anos, houve a tentativa de transferir o gene de tolerância do glifosato à CD 202, entretanto os cruzamentos não correspondiam a expectativa do mercado.

Central 2.jpg 193.33 KB


   Com a implantação da Lei de Proteção de Cultivares, tivemos um rápido avanço no melhoramento genético da soja, no qual diversas empresas privadas iniciaram o desenvolvimento de cultivares, que eram resistentes ao herbicida glifosato.

   A lei foi um marco na evolução do teto produtivo da soja; para destacar esse período, a vedete do mercado foi a cultivar BMX POTÊNCIA. Importante destacar que o hábito de crescimento foi alterado para indeterminado, praticamente interrompendo o desenvolvimento de cultivares de hábito determinado. Possuía ciclo precoce, transgênica, ampla janela de semeadura, possibilitando a antecipação da semeadura para início do mês de outubro, o que alavancou a área de semeadura do milho de segunda safra ou milho safrinha. Muitos produtores rurais semeavam 100% da área com essa cultivar.

   A BMX POTÊNCIA foi a cultivar que estabeleceu novos patamares de produtividade ao produtor rural e às empresas de melhoramento genético. Simplesmente eliminou todas as variedades concorrentes, até surgir novo marco no melhoramento genético com as cultivares RR2, resistentes ao glifosato e àlgumas lagartas.

   A partir de 2014, o mercado dispunha de várias opções RR2, mas uma cultivar que se destacou frente as demais foi a M6410. Ela seguiu a linha das anteriores com características muito próximas, mas seu alto teto produtivo desbancou a BMX POTÊNCIA.

   Ao citar essas quatro cultivares, ressaltam-se os aspectos comuns que todas apresentam: alto potencial produtivo, estabilidade ao longo dos anos, ciclo ou grupo de maturação compatível com a próxima safra, resistência/tolerância a pragas, doenças e stress climáticos, amplo período de semeadura e qualidade de grãos.

   Atualmente a oferta de cultivares é expressiva, e as opções são diversas. Por isso, é de suma importância o conhecimento técnico de cada cultivar (arquitetura aérea, tipo de folha, sistema radicular, tolerância ao alumínio, porte da planta, suscetibilidade ao acamamento, grupo de maturação, tolerância/resistência/suscetibilidade a pragas e doenças e exigência de fertilidade), para realizar o correto posicionamento dentro da propriedade rural e o enfrentamento dos possíveis adventos climáticos.

   Podemos afirmar que o correto posicionamento aos diferentes padrões de fertilidade e tipos de solos, época de semeadura e densidade populacional são determinantes para a cultivar ter oportunidade de expressar todo potencial produtivo. Não adianta querer utilizar a melhor cultivar se ela não se adapta às condições a que será submetida. A correta escolha e manejo da cultivar tem se tornado um mecanismo de controle de risco.

Tabela Cultivares de soja_central.jpg 69.83 KB


   Mas um erro que ainda é observado é a concentração de semeadura em uma ou duas cultivares baseadas na sua capacidade produtiva. Digo isso baseado no fato de que nossos solos aqui no centro-sul do MS são desuniformes quanto a textura e fertilidade, com adventos periódicos de veranicos, que determinam diferentes desempenho das cultivares.

   Processos envolvidos na compra de sementes de soja
   Escolha da Cultivar:
   - Potencial Produtivo
   A escolha da cultivar pelo potencial produtivo passa por conhecer o ambiente de produção onde tal cultivar será alocada, sendo alguns pontos considerados: nível de correção do solo, teores de macro e micronutrientes, teor de argila, altitude, matéria orgânica dentre outros.

   A escolha correta da cultivar é fundamental para se obter altos tetos produtivos e rentabilidade da lavoura; pensando em áreas de lavoura já corrigidas e com alto potencial, a escolha da variedade se dá praticamente pelo teto produtivo que possa apresentar, sendo o fato determinante para escolha. Isso se difere de áreas com pouca tecnologia ou baixo investimento, onde a escolha da cultivar é feita pela sua rusticidade, que nada mais é do que a capacidade de suportar um ambiente desafiador onde for posicionada, como, por exemplo, solo arenoso com pouca capacidade de armazenamento de água e nutrientes.

   - Estabilidade de produção (diferentes ambientes produtivos)
   Quando falamos em estabilidade de produção, nos referimos a capacidade que uma cultivar tem em responder a diferentes tipos de manejos ou mudanças de clima, mantendo sua produtividade.

   De certo modo, produtores rurais em geral preferem sempre ter nas suas propriedades alguma cultivar com estabilidade, onde a previsibilidade de bons resultados se mantém em diferentes anos, reduzindo assim o risco que vem associado à variação de clima e de solo.

   - Tolerância a pragas e doenças
   Hoje, com o lançamento de novas tecnologias nas cultivares de soja, há uma certa facilidade para o controle de pragas e plantas daninhas, sendo as duas novas tecnologias destacadas a Intacta 2 Xtend e a Conkesta E3. Possuem resistência a três herbicidas: 2,4-D, glifosato e glufosinato de amônio. Essas tecnologias incluem as proteínas Bt (Cry1F e Cry1Ac), que facilitam o manejo e controle das principais lagartas que afetam a soja.

   A resistência a doenças é um fator de suma importância na escolha da cultivar, sendo o melhoramento genético o responsável pela resistência ou susceptibilidade de cada material. Hoje, observando a campo, nota-se que o melhoramento focou em potencial produtivo, o que acaba sendo insuficiente no que diz respeito a doenças, com um número muito baixo de materiais resistentes, nos quais a grande maioria é suscetível as principais doenças da cultura da soja. No MS, os complexos de manchas Corynespora cassicola, Cercospora kikuchii, Septoria glycines e Cercospora sojina são as principais causadoras de problemas, elevando o custo de produção.

   - Grupos de Maturação
   Os grupos de maturação da soja são utilizados para o melhor posicionamento das cultivares, para os quais são utilizados a latitude e fotoperíodo da região para a classificação. A partir da criação do GMR, foi mais fácil entender e classificar as cultivares nas condições edafoclimáticas onde ela está inserida.

   - Qualidade das sementes
   A qualidade das sementes é um dos fatores cruciais para o sucesso de uma lavoura. A semente possui atributos que definem sua qualidade, sendo eles genéticos, físicos, fisiológicos e sanitários, o que as diferem de um grão qualquer.

   Vigor é a base para a compra de sementes, pois está diretamente ligado a uma semente que vai possuir rápida emergência e uniformidade, resultando em plântulas com alto rendimento, fortes, vigorosas e com desenvolvimento inicial ótimo, sendo o ponto de partida para alta produtividade.

   - Padronização das sementes
   A padronização se faz necessária visando melhor qualidade na distribuição das sementes pelas semeadoras, principalmente nas mecânicas, onde não há precisão e padrão bom de distribuição, sendo necessário que as sementes venham com tamanho uniforme.

  - Confiança x Relacionamento x Custo (R$/Kg) (Empresa idôneas)
   Para a compra das sementes, se faz necessária a relação com as sementeiras, pois é nelas que depositamos a confiança a cada nova safra. Geralmente, a qualidade está relacionada ao preço das sementes: empresas que prezam pela qualidade possuem um valor agregado maior em relação a empresas com histórico ruim, podendo ser pela qualidade de sementes, logística de distribuição, equipe de campo para dar o suporte para o produtor rural e acompanhamento da lavoura (pós-venda).

   Em anos nos quais a produção de sementes é abaixo do esperado ou com baixa qualidade (excesso de chuvas, temperaturas etc.), deve-se priorizar sementeiras de qualidade e de confiança, para se ter uma lavoura padronizada e de alto potencial produtivo.

Central 3.jpg 138.16 KB


   - Número de cultivares
   O número de cultivares utilizadas pelo produtor rural varia em função do tamanho da área e das caraterísticas de solo da região. Fazendas que apresentam grande variação na textura de solo (teor de argila variando de 10 a 50%) têm que utilizar um número maior de cultivares que se encaixem em cada teor de argila. Fazendas que apresentam talhões úmidos também precisam ter variedades que se encaixem dentro desta característica.

   Em geral, o produtor não gosta de trabalhar com muitas cultivares; para fazendas em torno de 1.000 ha, utilizam-se de 3 a 5 cultivares. Um dos motivos é que são utilizadas semeadoras grandes, possuem poucos funcionários e há facilidade de guardar no barracão.

   O aumento de produtividade da soja no estado do MS foi de 80% nos últimos 38 anos, de 1,9 t/ha para 3,4 t/ha, significando mais de 2 pp/ano, isto devido às inovações tecnológicas adotadas pelo produtor rural, como novas cultivares com atributos agronômicos superiores, sementes de alta qualidade e práticas agronômicas condizentes. 

   Ressalta-se que, após o trabalho de planejamento das cultivares que irão compor a semeadura da nova safra, inicia-se a cotação das sementes desses materiais. Talvez uma das decisões mais importantes que deve ser tomada é a escolha do fornecedor.

   Outro aspecto a ressaltar é a percepção de que há produtores rurais balizando suas compras de sementes utilizando o parâmetro de preço. Isto faz pouco sentido, pois a pesquisa já demonstrou que a diferença de produtividade entre sementes de alto e baixo vigor pode anular todo ganho genético da cultivar. Assim, o melhor critério da escolha da semente a utilizar contempla a cultivar e a qualidade da semente.


   Coautor:
   Dirceu Luiz Broch
Compartilhar