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A produtividade começa na semente, mas não termina nela:

o desafio da agricultura moderna entre desempenho, avaliação e manejo

Edição XXX | 04 - Jul . 2026
Maria de Fátima Zorato-fatima@mfzorato.com.br
   A agricultura moderna passou a exigir muito mais das sementes do que exigia há algumas décadas. O produtor investe em genética de alto potencial produtivo, fertilização de precisão, produtos biológicos, proteção de cultivos e tecnologias embarcadas nas máquinas. Nesse contexto, espera que a semente seja capaz de expressar todo esse potencial desde os primeiros dias após a semeadura.

   Por isso, a simples capacidade de germinar já não é suficiente. O que se busca atualmente é desempenho. Uma semente de alto desempenho deve apresentar elevado vigor, baixa incidência de patógenos e de danos mecânicos, reduzido nível de deterioração, boa tolerância aos estresses ambientais e capacidade de estabelecer plântulas uniformes mesmo em condições nem sempre ideais de campo.

   Quanto maior a exigência do sistema produtivo, maior também a necessidade de informações confiáveis sobre o potencial fisiológico dos lotes. E é justamente nesse ponto que surge uma reflexão importante para o setor.  Se a tomada de decisão depende cada vez mais dos resultados laboratoriais, por que ainda observamos tanta variabilidade entre metodologias, interpretações e critérios adotados pelos diferentes laboratórios? Por que resultados obtidos para um mesmo lote podem apresentar divergências significativas dependendo do local onde foram gerados?

   Parte dessa resposta está na complexidade inerente aos testes de vigor, que frequentemente demandam elevado grau de capacitação técnica, rigor operacional e constante validação dos procedimentos. Entretanto, também é necessário reconhecer que, em alguns casos, a busca por métodos próprios, adaptações locais ou interpretações particulares podem afastar os laboratórios dos princípios fundamentais da padronização científica.

   Métodos validados existem para reduzir a subjetividade, aumentar a repetibilidade e permitir comparações confiáveis entre resultados. Quando diferentes protocolos são utilizados sem adequada validação interlaboratorial, o risco não é apenas a geração de números distintos, mas a tomada de decisões equivocadas que impactam diretamente empresas sementeiras, distribuidores e produtores rurais.

   Talvez o grande desafio da atualidade não seja apenas desenvolver novos testes, mas fortalecer a harmonização dos métodos já existentes. Afinal, se o mercado exige sementes cada vez mais eficientes e eficazes, os sistemas de avaliação também precisam evoluir em direção à maior robustez técnica, rastreabilidade, treinamento contínuo e alinhamento metodológico.
 
   A pergunta que permanece é simples, mas necessária: estamos exigindo da semente um nível de desempenho compatível com o nível de confiabilidade que oferecemos para medi-lo?

   No entanto, existe uma segunda reflexão tão importante quanto a discussão sobre a qualidade das avaliações laboratoriais. Ao mesmo tempo em que o mercado exige sementes de desempenho cada vez mais elevado, também parece crescer a expectativa de que a semente seja capaz de superar limitações impostas pelo próprio sistema de produção. A pergunta que precisa ser feita é: até onde vai a responsabilidade da semente e onde começa a responsabilidade do manejo?

   Uma semente de alto desempenho possui maior capacidade de suportar adversidades, mas não foi concebida para corrigir falhas sistemáticas de condução da lavoura. Nenhum nível de vigor é capaz de compensar integralmente erros de regulagem de máquinas, condições inadequadas de semeadura, compactação excessiva do solo, deficiência hídrica severa ou práticas de manejo, entre outros, que comprometam o estabelecimento inicial das plantas.

   Produtividade não é construída exclusivamente pela semente. Ela é resultado da interação entre potencial genético, qualidade fisiológica, ambiente e manejo. A semente participa do processo como elemento fundamental, mas não atua de forma isolada.

   Talvez um dos maiores equívocos da agricultura moderna seja acreditar que a tecnologia incorporada à semente possa substituir a qualidade das decisões tomadas no campo. Quanto mais avançadas se tornam as sementes, maior deveria ser o compromisso de todos os elos da cadeia em criar condições para que esse potencial seja efetivamente expresso.

   Assim, a discussão não deve ser apenas sobre produzir sementes melhores ou desenvolver testes mais precisos. Deve incluir também uma pergunta igualmente importante: estamos oferecendo à semente o ambiente e o manejo necessários para que ela entregue aquilo que esperamos dela? 

   Portanto, deve existir um triângulo de responsabilidades: o resultado da qualidade da semente, da qualidade da medição e da qualidade do manejo. Nenhuma semente produz sozinha. Ela apenas expressa, em maior ou menor intensidade, aquilo que o sistema permite.

   O futuro da produtividade não será determinado pela capacidade de exigir mais da semente, mas pela capacidade de toda a cadeia em trabalhar à altura do potencial que ela entrega.
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