No artigo anterior da série, tratei da ambição, a primeira das quatro competências essenciais gerais (ambição, curiosidade, capacidade de relacionamento e articulação e capacidade de execução) para qualquer profissional que deseje se manter relevante num mercado cada vez mais competitivo, complexo e imprevisível.
Nele, defendi a ideia de que a ambição não tem relação com ganância ou vaidade, mas com a inquietação saudável que nos impede de aceitar passivamente uma versão menor de nós mesmos. Mas também lembrei naquele texto que a ambição, sozinha, não resolve os problemas.
Afinal, basta observarmos o mundo corporativo para perceber que existem pessoas extremamente ambiciosas que passam anos trabalhando duro, se esforçam muito, buscam muito, mas com frequência continuam num círculo vicioso, repetindo erros, convivendo com as mesmas limitações e enxergando os mesmos problemas da mesma forma. Ou ainda vivem numa montanha russa de sucesso e fracasso, sem linearidade.
DUAS CURIOSIDADES - elas podem mudar seu destino
É exatamente nesse ponto que entra a segunda competência: a curiosidade. É ela que amplia nossa capacidade de aprender, reduz nossas incertezas, melhora a qualidade das decisões e nos impede de ficarmos aprisionados dentro das nossas experiências e nossas próprias certezas.
Tenho percebido que a maior ameaça para os profissionais não é a falta de informação - nem seu excesso -, mas a ausência de curiosidade genuína de ir mais fundo, buscando entender a origem e a razão das questões para, com isso, transformar dados em informação e informação em conhecimento.
Já escrevi anteriormente neste espaço sobre a curiosidade como um ativo invisível capaz de diferenciar líderes de chefes, quando explorei as formas de curiosidade, sua relação com aprendizagem, adaptação, neurociência e construção de repertório.
Mas, em mais de trinta anos observando pessoas e organizações, percebi que existe uma segunda dimensão da curiosidade que recebe menos atenção do que deveria e é tão importante quanto a primeira. Em síntese, existe a curiosidade voltada para o conhecimento e existe a curiosidade voltada para as pessoas.
A curiosidade voltada para o conhecimento é aquela que nos torna pensadores estratégicos e inovadores de verdade. É ela que faz um empresário questionar a lógica dos insumos, rever modelos de gestão, buscar soluções tecnológicas além do padrão, compreender melhor o comportamento dos mercados.
Os melhores relacionamentos começam com uma boa pergunta
Já a curiosidade sobre pessoas é uma das características necessárias para qualquer um que queira se tornar relevante ou crescer na hierarquia, já que está presente na maioria dos melhores líderes, negociadores, empresários e articuladores que conheci ao longo da vida profissional.
A essência está nisso: “eles possuem interesse genuíno por gente”. Curiosidade para entender histórias, origens, motivações, receios, expectativas e perspectivas diferentes das suas. Fazem perguntas não apenas para que sejam respondidas, mas para compreender.
No fundo, curiosidade é a disposição permanente para o desconhecido, revisando mapas sem perder a direção.
Relacionamento não é networking - Articulação não é influência
É nesse ponto que a curiosidade se conecta com a terceira competência: a capacidade de relacionamento e articulação. Ela deixa de ser apenas uma competência de aprendizagem e passa a se tornar uma competência de relacionamento.
Durante muitos anos, o mercado vendeu a ideia de que networking seria a chave para o sucesso profissional. O resultado foi uma geração de profissionais acumulando milhares de contatos e seguidores sem necessariamente construir relações.
Ocorre que relacionamento e networking não são a mesma coisa. A primeira é fria, distante e protocolar e normalmente associada à quantidade, enquanto a segunda está associada a interesses recíprocos, profundidade e cumplicidade.
Você precisa acima de tudo ser interessado e interessante, para não ser confundido com uma pessoa interesseira que só se aproxima de alguém quando quer algo. Por isso, seu trabalho diário é se conectar por interesses legítimos, aproximar-se das pessoas, identificar oportunidades de cooperação e criar ambientes onde vocês possam prosperar juntas.
Mas você precisa fazer isso todo o dia, não de vez enquanto. E isso não tem a ver com ser o pavão. Posso garantir que os melhores articuladores que encontrei ao longo da minha trajetória raramente eram os mais falantes da sala, os mais carismáticos ou mesmo os mais inteligentes.
Por isso, essas duas competências são tão importantes. Qualquer um que quer crescer precisa compreender que as oportunidades normalmente não circulam entre empresas. Elas circulam entre pessoas; além disso, precisa ficar claro que o agro continua sendo um negócio de gente. Mesmo que a tecnologia esteja transformando profundamente o setor, a essência continua a mesma.
As melhores oportunidades frequentemente nascem de relações construídas ao longo do tempo, sustentadas por confiança, credibilidade e reputação.
Então, se você não tiver curiosidade e não gostar de gente está mais que na hora de repensar sua trajetória e seus desejos futuros. Provavelmente já está em apuros e ainda não percebeu isso.
No próximo e último artigo da série, vou abordar a competência que transforma ambição, curiosidade, relacionamento e articulação em resultados concretos: a capacidade de execução. Porque querer crescer é importante. Aprender é fundamental. Conectar-se é indispensável. Mas, no fim, o mercado continua valorizando quem transforma intenção em realização.
Até a próxima.