Amostragem é Decisiva na Busca da Qualidade

Edição IX | 01 - Jan . 2005
Osvaldo Ohlson de Castro-lascuritiba@terra.com.br
   A teoria da amostragem é um estudo das relações existentes entre uma população e as  amostras dela extraídas.                
   Em estatística, uma das maneiras segundo a qual se pode obter uma amostra  representativa, é o processo denominado amostragem aleatória, de acordo com o qual, cada elemento de uma população tem a mesma probabilidade de ser incluído na amostra. Quando nos deparamos com o assunto qualidade de sementes, quase que de imediato usamos a palavra amostragem para explicar alguma ação, pois faz parte do processo de controle da qualidade.                
   A uniformidade nos procedimentos e informações detalhadas são fundamentais na amostragem de um campo de sementes, de um lote de sementes, assim como no laboratório, na retirada das amostras de trabalho. Uma amostragem incorreta pode levar à tomada de decisões incorretas, descartando um produto de alta qualidade ou aprovando outros de qualidade inferior, resultando no insucesso de um empreendimento. A amostragem é fundamental em todos os estágios da avaliação da qualidade das sementes, a partir da sua obtenção, produção, no processo de recebimento, no beneficiamento, na análise e, finalmente, na Fiscalização do Comércio.                
   O crescente aumento da produção de grãos no Brasil, além da expansão da fronteira agrícola, é resultado do aumento da produtividade, consequência da maior qualidade das sementes oferecidas ao produtor.             Os melhoristas, graças às novas cultivares que têm desenvolvido, cada vez mais produtivas, melhor adaptadas e resistentes às doenças, em muito contribuem para o sucesso da agricultura brasileira. Mas para chegar ao agricultor, esses novos materiais precisam ser multiplicados em grande escala, gerando volume disponível para atender as necessidades. Nesse processo de multiplicação, os materiais passam por constantes avaliações da qualidade, para identificação e preservação das características favoráveis.                
  Do estágio inicial, quando em pequenos volumes, poucas parcelas, sob o constante  controle do melhorista, todo material já passa por avaliações para controle da qualidade.  Processo simplificado, população pequena onde quase é possível observar cada indivíduo  quanto às suas características desejáveis e indesejáveis. A partir daí, no processo de  multiplicação, com o aumento dos volumes e das áreas, essa observação individual se torna  impossível.                
   No campo, além da extensão das áreas, a maioria delas, quando de uma mesma espécie, numa mesma região, atingem uma mesma fase de desenvolvimento e precisam ser  inspecionados num período de tempo curto e sem que cada planta possa ser observada  individualmente. O técnico precisará realizar uma inspeção completa, que lhe permita, com  segurança, determinar a aceitação ou não da área para produção de sementes. Então, essa  inspeção envolverá uma estimativa para a qualidade, baseada na coleta de amostras, sobre  as quais estará a decisão da aceitação ou rejeição. Essas amostras serão áreas da lavoura,  tomadas ao acaso dentro de um percurso pré-estabelecido, cujo tamanho estará em função do limite de tolerância para os fatores a serem observados.                 
   A amostragem para inspeção de campo, como qualquer outra amostragem, está sujeita a limitações. O procedimento de inspeção deve levar em conta o tempo, a aleatoriedade, tendenciosidade, mas, acima de tudo, permitir uma estimativa bastante próxima da qualidade do campo. Neste caso, a amostragem deve levar em conta a uniformidade do campo, ser representativa da área e possibilitar uma avaliação precisa dos fatores indesejáveis, dentro da precisão requerida. Se em um lote de sementes todos os indivíduos fossem iguais, teríamos um lote perfeitamente homogêneo e bastaria tirar uma única amostra para a sua correta avaliação.                    
      
    No processo de multiplicação, com o aumento dos volumes e das áreas, a observação individual se torna impossível.”   
                  
    É considerado como lote de sementes uma quantidade específica destas, fisicamente identificada, na qual cada porção é, dentro de tolerâncias permitidas, homogênea e uniforme para as informações contidas na sua identificação.                 
    A uniformidade está relacionada com a probabilidade de um componente ocorrer  em uma amostra, de um determinado tamanho ser constante através de todo o lote. Em um lote de sementes uniforme haverá uma diferente mas constante probabilidade associada com cada componente. Isso nos leva a concluir que se os componentes de um lote de sementes  estão distribuídos de forma aleatória em todo o lote, uma amostra representativa tirada de  qualquer um dos pontos não deve ser significativamente diferente de outra amostra  representativa tirada de qualquer outro ponto.                
    Quanto à semente da espécie em questão, podem existir variações em relação ao grau de umidade, tamanho, forma, peso, nível de danos, viabilidade e outros. Já o material estranho pode ser extremamente variável e estar composto por sementes de outras espécies cultivadas  e/ou silvestres e por material inerte (resíduos, palhas e torrões).                
    A uniformidade pode ser então considerada como uma característica dinâmica, sendo  influenciada a partir da colheita, onde normalmente é mais uniforme, passando pelo transporte, beneficiamento e durante o armazenamento. No armazenamento, as qualidades fisiológica e sanitária estarão mais sujeitas a alterações, tanto dentro dos recipientes individualmente como dentro de todo o lote.                 
    Para o planejamento das técnicas da amostragem é preciso levar em consideração todas as possibilidades de variação, a finalidade da amostragem e a etapa que está sendo realizada. São definidos os seguintes tipos de amostras:                
·         Amostra Simples - é uma pequena porção tomada de um ponto do lote.                
·         Amostra Composta - é resultante da combinação e mistura de todas as amostras simples tomadas do lote.                
·         Amostra Submetida - é a amostra recebida pelo laboratório para a execução dos testes. Ela deve possuir um tamanho especificado nas Regras para Análise de Sementes e pode incluir toda ou uma sub-amostra da Amostra Composta.                
·         Amostra Oficial - amostra retirada por Fiscal, para fins de fiscalização.                
·         Amostra de Identificação - amostra com a finalidade de identificação do lote.                
·         Amostra de Trabalho - é uma sub-amostra tomada da Amostra Submetida no laboratório, na qual um teste de qualidade será realizado.                
·         Sub-amostra - é parte de uma amostra obtida pela sua redução, usando métodos de  amostragem prescritos. 
              
    Uma amostra é obtida de um lote de sementes pela tomada de pequenas porções, de forma aleatória, em diferentes locais do lote e combinando-as. Desta amostra, amostras menores são obtidas por uma ou mais divisões.

    
    Amostragem em diferentes etapas do negócio sementes      

    A finalidade da amostragem em um determinado volume de sementes é obter uma  amostra de tamanho adequado para os testes que se pretende realizar, nas quais estejam  presentes os mesmos componentes do volume total e em proporções semelhantes, e que a  probabilidade de qualquer componente estar presente na amostra deve ser determinada  somente pelo grau de ocorrência no lote.               
    Cada característica da qualidade de um volume de sementes está baseada na amostragem executada segundo procedimentos previamente descritos. A quantidade de  sementes que compõe uma amostra, sobre a qual os indivíduos serão examinados, é  extremamente pequena quando comparado ao volume que representa. Quando um resultado  é expresso como um simples número para um lote de sementes, presume-se que não exista  nenhum tipo de heterogeneidade, isto é, não haja variação significativa nas diferentes partes  desse lote de sementes. Por mais criteriosos que sejam os procedimentos empregados nas análises, os resultados somente irão indicar a qualidade das sementes contidas na amostra examinada.                
    Portanto, todo cuidado deve ser dispensado pelo amostrador, no armazém, assim como pelo analista, no laboratório, a fim de que essas amostras sejam representativas,  respectivamente, do lote de sementes e da amostra recebida pelo laboratório. Se um lote é heterogêneo acima da tolerância, a amostra dele retirada não será representativa. O amostrador deverá estar atento para possíveis diferenças visuais entre as amostras simples, o  que caracterizaria a heterogeneidade do lote.                 
    A coleta de amostras de sementes, em qualquer das etapas, somente deve ser  executada por pessoas treinadas e autorizadas, que saibam da responsabilidade e importância dessa operação, considerando:               
·         tipo de semente quanto a tamanho, forma e se tem tratamento químico ou revestimento;                
·         tipo de recipiente onde estão acondicionadas as sementes;                
·         acesso aos recipientes que compõem o lote;                
·         acesso às informações completas sobre o lote;                
·         dispor de instrumento (amostrador) apropriado para a amostragem;                
·         dispor de um divisor de amostras;                
·         dispor de embalagens para acondicionar as amostras.       
           
    Amostragem no fluxo da semente                
    Na prática, é conveniente fazer a amostragem durante o beneficiamento, por ocasião do ensaque, podendo ser feito manualmente ou usando um amostrador automático, mas  sempre levando em consideração que em ambos os casos é importante que toda a secção  transversal do fluxo de sementes seja uniformemente amostrada e que as sementes que entram no amostrador não sejam jogadas para fora novamente. Várias amostras simples  devem ser retiradas a intervalos regulares de tempo para que possam representar a totalidade  do lote.    
              
    Amostragem manual ou com instrumentos (amostrador)                
    Em certas situações, com sementes palhentas, a amostragem manual pode ser o  único método satisfatório. As amostras simples devem ser tomadas retirando-se as mãos cheias de sementes de diferentes posições ao acaso, cuidando em manter os dedos firmemente fechados sobre as sementes, para que nenhuma escape. É necessário retirar amostras simples das camadas mais profundas da embalagem, mesmo que isso signifique a necessidade de esvaziá-lo parcialmente primeiro.                
    O uso de instrumentos (amostrador) é viável quando as sementes deslizam facilmente,  sendo então retiradas porções de sementes da parte superior, do meio e do fundo de cada  recipiente. Deve ser tomado o cuidado para que as amostras não sejam retiradas das partes  mais acessíveis e convenientes do lote.            
      
    Amostragem a granel                
    A granel, significa que a semente não está contida em recipientes como sacos. As  dificuldades para essa amostragem irão depender das condições como ela está  armazenada. Se a profundidade do recipiente ou local onde está armazenada a semente não ultrapassar 2- 5 metros, o uso de um instrumento (amostrador), de tamanho compatível, pode  ser necessário. Contudo, os métodos e principalmente os cuidados devem ser os mesmos dispensados para qualquer amostragem.



    



    Amostragem de plantas                
    Uma hectare de milho possui 50 mil plantas e, considerando que a área máxima para  inspeção da qualidade são 50 ha, vamos ter 2.500.000 plantas, as quais também, por motivos óbvios, devem ser amostradas. No caso de plantas, a intensidade da amostra envolve a tolerância do contaminante e um fator aceito universalmente, consistindo em o que tamanho da amostra deva ser tal que, encontrando-se três contaminantes, o campo ainda pode ser colhido para semente. Assim, considerando uma tolerância, de 0,2% (2 contaminantes em 1000 plantas), deveremos amostrar 1.500 plantas. Assim, cada planta amostrada representará 1.667 plantas. Quanto menor a tolerância, maior o número de plantas a serem amostradas. 
                
    Amostragem no laboratório                
    A amostra submetida, recebida no laboratório de análise de sementes, geralmente necessita ser reduzida a uma amostra de trabalho igual ou maior que o tamanho prescrito para cada espécie e teste a ser realizado.  A amostra submetida, após ser inicialmente bem  misturada, passa por divisões sucessivas, usando métodos e instrumentos específicos, para obtenção das amostras de trabalho. Amostras duplicatas e sub-amostras devem ser retiradas independentemente da amostra submetida, sendo o remanescente novamente homogeneizado, antes que outra amostra ou sub amostra seja retirada.


    



    Importância                
   Para termos uma ideia da importância da amostragem, utilizemos o teste de germinação. Considerando que um lote de sementes de soja tenha 20 t. e que 6 sementes pesam 1 g, esse lote terá aproximadamente 120.000.000 sementes. Como salientado no texto, não vamos testar todas as sementes e sim fazer uma amostragem de tal forma que as sementes a serem utilizadas no teste de germinação representem todo o lote.         Assim como o teste de germinação utiliza uma Amostra de Trabalho de 400 sementes, o resultado obtido nessa determinação irá representar as 120 milhões de sementes do lote. Caso a amostragem não seja realizada corretamente, essa relação não será verdadeira, com prejuízo para todos. 
                
    Amostrador                
    A Lei nº 10.711, regulamentada em 2004, instituiu que o Mapa deverá credenciar, junto ao Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem), as pessoas físicas que comprovem qualificação técnica em amostragem, para exercerem a atividade de amostrador de sementes, as quais serão autorizadas a executar a amostragem dos lotes de sementes  destinados à certificação.                
    Importante também nesse momento de atualização das Regras para Análise de  Sementes, que as diferenças existentes, quando se comparam os valores adotados pelo Brasil  em relação à International Seed Testing Association (Ista), quanto a tamanhos máximos de lotes, de amostras submetidas e de trabalho, sejam compatibilizadas, assim como, que todos os técnicos envolvidos na atividade de produção de sementes, inclusive aqueles responsáveis pela amostragem oficial, estejam conscientes de que os resultados obtidos no laboratório se referem à amostra analisada e que esta precisa ser representativa do lote.

 

            

 

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