Amoras sem sementes e cerejeiras geneticamente modificadas que crescem como arbustos podem estar no futuro da nossa alimentação
A startup Pairwise está usando edição genética por CRISPR para redesenhar frutas e outras culturas: amoras sem sementes duras e sem espinhos, cerejeiras em forma de arbusto em vez de árvores altas, pêssegos sem caroço, plantas mais compactas, mais produtivas e mais resistentes a calor, seca, pragas e doenças.
A tese central é que o CRISPR permite fazer, em poucos anos e com precisão, o que o melhoramento clássico leva décadas e muita sorte para alcançar, e ainda empilhar várias melhorias na mesmo cultivar. Diferente dos transgênicos (OGMs), a edição não insere DNA de outra espécie: liga, desliga ou ajusta genes já existentes na planta. Por isso, até agora reguladores em vários países trataram a tecnologia de forma mais leve do que os OGMs, e a União Europeia recentemente avançou no sentido de tratar a maior parte das plantas editadas como culturas convencionais.
Na prática, o mercado ainda é quase teórico. A Pairwise lançou em 2023 a primeira folha CRISPR nos EUA (uma mostarda menos amarga), descontinuou o produto em 2024 e hoje tem uma única criação à venda: uma amora de alto rendimento, em quantidades limitadas, na Colômbia. As amoras “triplo ameaça” (sem semente dura, sem espinho, compactas e mais produtivas) não devem chegar às prateleiras americanas antes de 2030. A empresa levantou mais de US$ 160 milhões, tem dezenas de aprovações regulatórias e passou a licenciar a plataforma em vez de construir marcas próprias. Hoje, parceiros incluem Bayer, Corteva, Mars, Sun World, fundações e institutos que trabalham com culturas de pequenos agricultores na África (inhame, feijão-caupi, mandioca).
O argumento ambiental e de segurança alimentar é o mais forte da peça: o mundo precisará produzir muito mais comida com menos terra, menos desmatamento e menos agrotóxicos num planeta mais quente. Outras apostas “high-tech” como fazendas verticais, tratores elétricos, carne cultivada e substitutos vegetais têm patinado comercialmente. O CRISPR, dizem os defensores, ataca o problema na raiz da planta.
Agricultura muda devagar: campo de prova, escala, distribuição, margem baixa e pouca ajuda internacional também podem atrasar o acesso de pequenos produtores a sementes melhores. Como afirma o geneticista Julius Lucks, se a edição genética sofrer o mesmo veto cultural que os transgênicos, “vai ficar realmente difícil resolver os problemas alimentares do mundo”.
O CEO Tom Adams, que veio da Monsanto/Bayer, aprendeu a lição dos OGMs: falar só de ciência e de lucro do produtor não convence o consumidor. Por isso a Pairwise começou pelo que a pessoa sente na boca, uma amora que não deixa semente no dente, cereja sem caroço, planta baixa que a máquina colhe.
O CRISPR é mais barato e mais rápido que o transgênico clássico, o que teoricamente democratiza a inovação, inclusive para culturas órfãs e para mulheres africanas que colhem inhame. Essa promessa só se realiza se a semente chegar de fato ao pequeno produtor e se o consumidor não recusar o produto por princípio. A história recente sugere que evidência científica sozinha não dissolve tabu alimentar.
No entanto, semente e caroço não são só incômodos: são parte da morfologia que a planta usou para se reproduzir. Transformar cerejeira em arbusto muda a paisagem, a colheita, o clima possível de cultivo e, no limite, o que entendemos por “fruta de verdade”.
O futuro da comida é menos “milagre instantâneo” e mais corrida longa: entre a precisão genética e a aceitação pública, entre o arbusto de cereja e o hábito de associar fruta a árvore, semente e acaso com mais fruta comestível, menos terra destruída e plantas adaptadas ao calor. Uma prova de que, em alimentação, o gargalo raramente é só o gene.