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Especialista explica por que o controle de doenças deve começar antes mesmo do plantio

Especialista explica por que o controle de doenças deve começar antes mesmo do plantio

   No episódio 351 do “Mundo Agro Podcast”, intitulado “Sanidade de Sementes: o primeiro passo para lavouras de alta produtividade”, o professor Rogério Coimbra e o professor José Menten, da ESALQ/USP discutem as bases da produtividade agrícola a partir de um dos pontos mais críticos e, ao mesmo tempo, mais negligenciados do sistema produtivo: a qualidade sanitária das sementes.

   Na abertura, o professor Menten deixa claro que a sanidade de sementes constitui o primeiro e mais eficiente mecanismo de prevenção de doenças em lavouras. Segundo ele, não existe forma mais eficaz de um patógeno ser transportado e transmitido a uma planta do que pela própria semente, que carrega simultaneamente o agente causal e o hospedeiro. Essa relação se insere no clássico triângulo da doença — patógeno, hospedeiro e ambiente — e torna o controle na origem uma estratégia decisiva para proteger o potencial produtivo e avançar em direção a uma agricultura mais sustentável.

   Ao longo da conversa, Menten percorre a trajetória da patologia de sementes no Brasil, área que começou a se estruturar de maneira mais consistente a partir de 1977, quando fitopatologistas e produtores de sementes passaram a interagir de forma mais sistemática. No início, os métodos empregados eram adaptações da fitopatologia clássica, como a câmara úmida para detecção de fungos. Com o tempo, o campo enfrentou desafios crescentes no diagnóstico de bactérias, vírus e nematoides, o que exigiu o desenvolvimento de técnicas específicas. O professor destaca que, após um período de menor visibilidade, a área vive hoje um momento de retomada, impulsionado pelo avanço dos produtos biológicos, pela necessidade de padronização dos testes e pelo surgimento de novos especialistas.

   "Nós estamos numa época que eu gostaria de estar me formando agora. Agora nós estamos numa agricultura muito mais refinada. Hoje nós temos materiais e tecnologias que exigem que o profissional entenda com muito mais precisão e possa tomar decisões muito mais baseadas em ciência e tecnologia", disse o Professor.

   Um dos pontos centrais da discussão diz respeito à formação de profissionais. Menten defende que o tema da sanidade de sementes seja apresentado já nos primeiros semestres da graduação em Agronomia, inclusive para os calouros da ESALQ, por meio de visitas a laboratórios e da exposição prática a tratamentos biológicos. Para ele, a formação deve ir além da capacitação técnica e contribuir para a construção de cidadãos conscientes do papel da ciência no campo. Com mais de cinquenta anos de atuação em instituições como o Instituto Agronômico, a Embrapa e o Centro de Energia Nuclear na Agricultura, o pesquisador fala de sua experiência com a autoridade de quem acompanhou a evolução da área desde seus primórdios e continua atuando como professor sênior.

   O episódio também aprofunda o tema do tratamento de sementes, abordando tanto os produtos químicos quanto os biológicos e a possibilidade de sinergia entre eles. Discute-se a diferença entre o tratamento industrial e o realizado na propriedade (on-farm), bem como a evolução dos equipamentos, com menção a máquinas de maior precisão que já incorporam inteligência artificial para dosagem, como as desenvolvidas pela Momesso, uma das empresas parceiras do podcast. Outro aspecto relevante é a padronização dos testes de sanidade. Enquanto o teste de germinação é obrigatório, o de sanidade ainda não o é, e comitês técnicos como o COPAZEN e a ABRATES desempenham papel importante na proposição de metodologias e padrões que possam ser adotados em escala nacional.

   Os principais patógenos fúngicos associados a sementes no Brasil, especialmente aqueles de maior importância econômica e frequentemente citados na literatura de patologia de sementes (incluindo trabalhos de referência como os de Goulart, Henning e publicações da Embrapa), são concentrados principalmente na cultura da soja, mas também relevantes em outras culturas como milho, trigo e forrageiras.

Principais fungos de importância econômica em sementes de soja

De acordo com os levantamentos mais consolidados, os fungos mais relevantes são:

  • Phomopsis sojae / Diaporthe spp.: É considerado o principal patógeno de sementes de soja no Brasil. Causa deterioração das sementes, redução acentuada da germinação (especialmente em testes de laboratório) e está associado ao cancro da haste, seca da haste e da vagem. Sua incidência aumenta quando há chuvas e altas temperaturas durante a maturação e colheita.
  • Colletotrichum truncatum: Agente causal da antracnose. Causa necrose dos cotilédones logo após a emergência, morte de plântulas e pode gerar infecção sistêmica. A semente é o veículo de disseminação mais eficiente desse fungo.
  • Fusarium semitectum: (sinônimo Fusarium pallidoroseum) e outras espécies de Fusarium. Muito frequente nas sementes. Provoca podridão de sementes e problemas de germinação, de forma semelhante ao complexo Phomopsis/Diaporthe. Em algumas safras aparece em quase 100% das amostras analisadas.
  • Cercospora kikuchii: Responsável pela mancha-púrpura da semente. Embora nem sempre reduza drasticamente a germinação, deprecia a qualidade visual e comercial do lote e pode estar presente mesmo em sementes aparentemente sadias.
  • Sclerotinia sclerotiorum: Causador do mofo-branco. A transmissão direta pela semente é baixa (geralmente < 0,1%), mas o grande problema são os escleródios (estruturas de resistência) misturados ao lote de sementes, que funcionam como fonte de inóculo no campo.
Outros fungos de relevância incluem:

  • Corynespora cassiicola (mancha-alvo)
  • Macrophomina phaseolina (podridão de carvão)
  • Rhizoctonia solani (tombamento e morte em reboleira)
  • Aspergillus flavus e outras espécies de Aspergillus e Penicillium (fungos de armazenamento, que deterioram a semente principalmente em condições inadequadas de umidade e temperatura)

   Além desses, há um grupo de fungos considerados de importância secundária ou contaminantes, como Alternaria alternata, Cladosporium spp., Curvularia lunata, Chaetomium, Epicoccum, Rhizopus e Nigrospora, que aparecem com alta frequência nas análises, mas geralmente causam menos danos diretos.

   Ao todo, mais de 35 espécies de fungos já foram relatadas como transmitidas por sementes de soja no Brasil. A transmissão via semente é particularmente crítica porque permite a introdução do patógeno de forma aleatória na lavoura, gerando focos primários de doença já nos estádios iniciais de desenvolvimento da planta. Por isso, o teste de sanidade e o tratamento de sementes (químico e/ou biológico) são ferramentas fundamentais de manejo.

   Olhando para o futuro, Menten e Coimbra discutem o potencial das técnicas moleculares e sorológicas na detecção de patógenos, bem como a necessidade de construir bancos de dados robustos que permitam quantificar, com o auxílio da inteligência artificial, o impacto real de cada organismo sobre a produtividade. Para Menten, o desafio da nova geração de pesquisadores será tornar esses diagnósticos mais rápidos, precisos e acessíveis. "Com essas técnicas de inteligência artificial, de bancos de dados bem organizados, isso vai nos auxiliar bastante a termos maior clareza de quais são as principais limitações." Exemplos citados incluem a possibilidade de estimar quantos pontos percentuais de perda um determinado nível de *Colletotrichum* ou *Phomopsis* pode causar. 

   A conversa não se restringe às grandes culturas, como soja e milho, mas se estende a hortaliças, plantas de cobertura e forrageiras, reforçando que o princípio da sanidade de sementes é transversal a todo o sistema agrícola.

   Ao final, os professores reforçam a ideia de que a melhor forma de controlar doenças é impedir que elas entrem na lavoura, e a semente é o principal veículo dessa entrada. 

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Assunto:Sementes

Autor:Equipe SEEDnews

Data de publição:04/08/2026 14:05:13

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