A lição do carnaval para o agronegócio

Edição XXX | 02 - Mar . 2026
   O carnaval de 2026 já passou, mas extraio dele uma lição provocativa para o agronegócio: podemos e devemos explorá-lo melhor. Creio que as oportunidades estão aí esperando que alguém as encontre ou identifique. Por isso, procuro adotar a máxima de que “em cada dificuldade existe uma oportunidade ainda não revelada”. Vale para a vida toda.

   O agronegócio na passarela
   É verdade que os temas ligados ao agronegócio têm ocupado cada vez com mais frequência as passarelas do carnaval, tanto na Sapucaí como no Anhembi, mas ainda são extemporâneas ou desconexas com objetivos estratégicos que o agronegócio deveria conduzir.

   Apenas para ficar em alguns exemplos, neste ano, em São Paulo, a Acadêmicos do Tatuapé escolheu o enredo “Plantar para colher e alimentar: tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra” abordando a história da agricultura e as lutas sociais pela terra.

   No Rio, embora não tenha citado o agronegócio em específico, a celeuma em torno do desfile da escola Acadêmicos de Niterói deste ano, que homenageou o presidente Lula e retratou, satirizando em uma das alas, conservadores como latas de alimento em conserva, pode ser aproveitada como gatilho criativo para o setor (a discussão política e jurídica deixo para as respectivas áreas).

   Em 2011, patrocinada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a Mocidade Independente de Padre Miguel desfilou o enredo “Parábolas dos Divinos Semeadores”, destacando a relevância da agricultura brasileira.

   Dois anos depois, em 2013, a Unidos de Vila Isabel exaltou a agricultura brasileira e a importância do setor para a economia, e, em 2017, foi a vez da Imperatriz Leopoldinense que criticou às práticas do agronegócio, especialmente o desmatamento e o uso de defensivos.

   E mais recentemente, em 2022, a Salgueiro abordou a história dos povos indígenas e sua relação com a terra. A Tuiuti, em 2023, desfilou a trajetória do cacau ressaltando as dinâmicas de mercado, e, em 2024, a Mancha Verde apresentou o enredo “Do nosso solo para o mundo: o campo que preserva, o campo que produz, o campo que alimenta”, com foco na agricultura familiar e na cultura rural.

   Se você não controlar a narrativa, outros o farão
   Gostem ou não, o Carnaval é a maior festa popular do Brasil e uma das mais conhecidas do mundo. Possui aproximadamente 42 milhões de consumidores concentrados em menos de uma semana, capaz de injetar aproximadamente R$ 15 bilhões no turismo em nível nacional e em torno de R$ 6 bilhões apenas na economia do Rio de Janeiro, o epicentro da folia. Isso sem considerarmos as centenas de milhares de pessoas que assistem os desfiles presencialmente e os milhões nas transmissões ao vivo ou nas reprises e cortes para internet.

   Logo, a pergunta ou lição que deve nos incomodar severamente é como é possível que o agronegócio, um setor fundamental para o país, com a nossa envergadura, dimensão e robustez, não tem como objetivo estratégico central estar nessa festa todo ano, ininterruptamente?

   Não apenas com uma ala ou uma escola, como tem ocorrido lá de vez em quando, mas com distintas exposições e abordagens, demonstrando a diversidade produtiva, cultural, impactos e benefícios estratégicos diretos e indiretos. Tornar o agronegócio um assunto na boca do povo e não restrito aos nossos círculos.

   Mas o principal ponto não é apenas aparecer, é controlar a narrativa. Esse é o aspecto central que devemos nos dedicar. Se olharmos as oportunidades em que o agronegócio é abordado na passarela, veremos que o senso crítico é desmedido e a falta de entendimento sobre o que é o agronegócio ainda é gritante.

   É sinal de amadorismo deixar que os outros contem a sua versão do nosso negócio, a sua percepção, o seu sentimento, especialmente sobre algo que não vivem, não conhecem ou, pior, suas versões sejam patrocinadas por vieses muitas vezes duvidosos.

   Devemos tornar isso um projeto de setor, mas parece que ainda nos falta aptidão, clareza ou mesmo disposição em controlar o discurso. Não podemos deixar de atuar decisivamente num evento dessa envergadura, sob o risco de tornarmo-nos meros espectadores e coadjuvantes ou opositores reclamões pós-evento, quando as abordagens não nos agradam. É fundamental consistência nas nossas estratégias.

   Já mostramos sermos capazes de ações isoladas, mas agora a onipresença do agronegócio precisa virar rotina no carnaval brasileiro.

   Temos muito a mostrar e cantar
   Não nos faltam aspectos relevantes que possam se tornar enredo. A começar por um dos principais ataques que normalmente sofremos e que demonstra a ignorância (ou mesmo o interesse) ao deturpar o conceito de agronegócio, normalmente apoiado na mofada e burlesca tentativa em distinguir e distanciar agronegócio e agricultura familiar. 

   Se a sociedade não entender que “o agronegócio engloba todas as atividades econômicas ligadas à produção, processamento, comercialização e insumos de produtos agropecuários, não importando de ondem venham e para onde vão”, sempre restarão oportunidades para criar narrativas e vieses interesseiros.
 
   Listo ainda alguns outros tantos temas que podem e devem ser incluídos, como por exemplo nossa capacidade de inovação e tecnologia de alto nível, nossa pesquisa de ponta, o fato de sermos players fora de série e respeitados mundo afora (mas negligenciados aqui): dá para mostrar que serpentina e confete, na verdade, é papel e celulose, que cerveja é cevada, cachaça é cana de açúcar, que as roupas são de algodão, dentre outros exemplos.

   Que o nosso agro pode se tornar base de descarbonização do mundo, nossa matriz energética com etanol e biodiesel é uma das mais limpas do planeta, sobre o combustível de aviação (SAF), biometano, nossa contribuição na relação com o clima, dentre muitos outros assuntos e temas que possam aguçar o interesse da sociedade como um todo.

   Isso é tornar o agronegócio algo do dia a dia do cidadão comum. O Carnaval de 2027 já está em planejamento. Como seremos retratados depende de nós. 

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