Tecnologias que Valorizam a Semente de Soja

Francisco Carlos Krzyzanowski - francisco.krzyzanowski@embrapa.br | José de Barros França Neto - jose.franca@embrapa.br | Ademir A. Henning - henning@cnpso.embrapa.br | Nilton Pereira da Costa - nilton@cnpso.embrapa.br

    A produção de sementes de soja de elevada qualidade depende da adoção de técnicas   especiais. A não utilização dessas técnicas poderá resultar na produção de sementes com qualidade inferior, principalmente quando as sementes são produzidas em regiões tropicais e subtropicais. A adoção pelos produtores de técnicas especiais de controle de qualidade na produção de sementes visa superar algumas limitações impostas pelos diversos fatores que podem afetar a qualidade das sementes.                
    A qualidade das sementes de soja pode ser influenciada por diversos fatores, que podem ocorrer no campo antes e durante a colheita e durante todas as demais etapas da produção, como durante a secagem, o beneficiamento, o armazenamento, o transporte e a semeadura. Tais fatores abrangem extremos de temperatura durante a maturação, flutuações das condições de umidade ambiente, incluindo secas, deficiências na nutrição das plantas, ocorrência de insetos, além da adoção de técnicas inadequadas de colheita, secagem e armazenamento.                
     O controle de qualidade assume importância fundamental para assegurar a obtenção de sementes de alta qualidade, quer seja na fase de campo como nas de beneficiamento e de armazenamento.                  
 

    Controle de Qualidade               
    O DIACOM - Diagnóstico Completo da Qualidade da Semente de Soja, que engloba os testes de tetrazólio e de patologia, avalia, respectivamente, as qualidades fisiológica e sanitária da semente.                
    A tecnologia foi desenvolvida por Henning & França Neto, em 1980, para proporcionar a correta avaliação da qualidade da semente de soja e identificar as causas de descarte de seus lotes devido à baixa germinação no teste de laboratório. O teste de tetrazólio permite conhecer a viabilidade e o vigor da semente sem as interferências do processo de infecção causado por patógenos que a acompanham.
   Além disso, diagnostica os principais problemas que podem afetar a qualidade da semente, tais como dano mecânico, deterioração por umidade e dano de percevejo. O teste de patologia de sementes, através do método do papel-defiltro, possibilita a identificação dos principais fungos que interferem no teste de germinação em rolo de papel (Phomopsis sp. e Fusarium semitectum).



    


   As informações fornecidas por esses dois testes propiciam o Diagnóstico Completo (Diacom) das causas dos problemas de qualidade na semente de soja. Assim, através do Diacom, é possível evitar o descarte de lotes de sementes cujas causas de baixa qualidade no teste de germinação sejam a infecção das sementes por esses dois fungos.               
   O diagnóstico dos problemas de qualidade propiciado pelo Diacom possibilita que medidas corretivas possam ser adotadas, visando o aprimoramento da qualidade. Concomitantemente, pode-se identificar outros patógenos importantes que podem estar afetando a qualidade das sementes, permitindo a seleção de fungicidas mais adequados para o seu tratamento.               
   O teste de tetrazólio, ou teste de TZ, como é comumente chamado, pode ser utilizado desde a fase de maturação fisiológica da semente, possibilitando assim um inventário da qualidade em nível de campo antes da colheita, fornecendo informações sobre as ações dos percevejos, principal inseto que afeta negativamente a qualidade, bem como das flutuações climáticas, temperatura e umidade relativa, causadora da deterioração de campo.               
   Na operação de colheita o teste de TZ permite aferir o grau de dano mecânico imposto à semente na operação de trilha e transporte no interior da máquina colhedora. Associado ao TZ, visando a monitoração do dano mecânico, têm-se os testes do hipoclorito de sódio e o de sementes partidas, que dentro dos padrões-limites para qualidade se equivalem e permitem a obtenção de sementes de soja de elevada qualidade fisiológica.              
   No momento da recepção da matéria-prima na Unidade de Beneficiamento de Sementes (UBS), além das avaliações de dano mecânico, grau de impureza, sementes verdes e esverdeadas, é importante a aferição do grau de qualidade fisiológica da semente, o qual pode ser avaliado através dos testes de tetrazólio, este na versão metodologia alternativa, de condutividade elétrica e do pH do exsudato.               
  O monitoramento da qualidade fisiológica, abrangendo vigor, viabilidade, dano mecânico, durante o processo de beneficiamento é fundamental para aferição dos trabalhos realizados pelos equipamentos em decorrência das regulagens adotadas. Ênfase nas regulagens deve ser observada na precisão de classificação por tamanho da semente, bem como na classificação por peso específico.                
   Mistura varietal e dano mecânico são problemas potenciais em termos de qualidade de semente, relacionados com o beneficiamento. As maiores fontes de danos mecânicos durante a operação de beneficiamento são: número excessivo de quedas, a utilização de elevadores desajustados ou inadequados para semente, e o transporte da semente em fitas com alta velocidade. Os elevadores recomendados para transportar semente são os que apresentam descarga positiva ou por gravidade, como os de corrente, com velocidade máxima de deslocamento de 40 metros por minuto.                
   A sequência de etapas no preparo da semente abrange: recepção, pré-limpeza, armazenamento temporário em silos aerados, secagem, armazenamento temporário em silos aerados reguladores de fluxo, máquina de limpeza, separador em espiral, padronizador por tamanho, mesa densimétrica, e balança ensacadora. O mesmo nível de preocupação com a qualidade da semente deve continuar durante o período de armazenamento, que em decorrência das condições ambientais do armazém, temperatura e umidade relativa, pode acelerar o avanço do processo de deterioração por umidade da semente de soja e culminar com a queda do seu vigor e da sua viabilidade no período de comercialização. O teste de Diacom, TZ e Patologia de Sementes, é uma ferramenta essencial para esse monitoramento.                           
    Na fase de comercialização é importante a adoção do teste de emergência em canteiros, pois reflete o que ocorrerá com o lote de semente quando da sua semeadura no campo.

    
    Teste de emergência em canteiros

    Classificação por tamanho e densidade                    
    A opção de classificar as sementes por tamanho tem sido adotada por vários produtores de sementes, que para tanto utilizam Classificadores de peneiras planas, que são alocados no fluxo de beneficiamento entre o Separador em Espiral e a Mesa de Gravidade. A razão principal da classificação da semente de soja por tamanho (peneira), advém da demanda tecnológica atual de semeadura, onde a população de soja por hectare para as novas cultivares reduziu-se a valores em torno de 200.000 a 300.000 plantas/ha para se obter maiores produtividades em decorrência do menor acamamento da planta de soja; o que não permite erros na densidade de semeadura, podendo pôr em risco toda a instalação da lavoura e, por conseguinte, todos os investimentos a ela agregados, quer sejam o preparo do solo, a adubação, o controle de ervas daninhas, o tratamento fitossanitário e a melhor época de semeadura, visando a produtividade.                
    Outro aspecto relevante é a classificação da semente de soja por densidade, operação esta efetuada com êxito pela mesa de gravidade, quando regulada na orientação da descarga pelo peso específico da semente, isto é, a semente que segue para a etapa seguinte deve ser a de maior peso. A semente de soja, em geral, tem um peso volumétrico de 770 kg/m3; sementes de alta qualidade vão a valores acima de 800 kg/m3. 

         

    Resfriamento da semente               
   O resfriamento da semente de soja no momento do ensaque à temperatura de 15°C, tem-se revelado como tecnologia promissora para assegurar a alta qualidade da semente de soja, quer seja fisiológica ou sanitária. Essa tecnologia é perfeitamente viável no Brasil, onde empresas nacionais aperfeiçoaram as tecnologias de resfriamento do ar, bem como da semente. Várias empresas de sementes já adotaram essa tecnologia e estão avaliando o seu desempenho.                
    Dados de pesquisa gerados pela Equipe de Sementes da Embrapa Soja indicam excelente desempenho dessa tecnologia na preservação da qualidade fisiológica e sanitária da semente de soja.  
                
    Pós-venda               
    O acompanhamento do desempenho dos lotes comercializados, na fase de semeadura, quanto a sua plantabilidade e emergência, é uma atitude tecnológica que muito contribui para assegurar o alto desempenho das mesmas no campo.             
 
    Qualidade e tratamento de sementes de soja             
   A soja é afetada, no campo, por grande número de patógenos. Fungos, bactérias e vírus podem causar sérios prejuízos à agricultura em geral. Muitos desses patógenos utilizam a semente como veículo de sobrevivência e de disseminação a longas distâncias. Na cultura da soja, a obtenção de uma lavoura com população adequada de plantas depende da correta utilização de diversas práticas. O bom preparo do solo, a semeadura na época adequada, em solo com boa disponibilidade hídrica, a utilização correta de herbicidas e a boa regulagem da semeadora (densidade e profundidade) são práticas essenciais, estando o seu sucesso condicionado à utilização de semente de boa qualidade.

    

    Semente com alta qualidade e semente com dano por umidade
        


    Semente com dano mecânico e semente com dano por percevejo
        


    Na moderna indústria de sementes, o controle de qualidade deve ser exercitado em todas as fases do processo de produção, desde a seleção do campo de produção até a comercialização de um Iote de semente. A análise sanitária da semente, juntamente com outros testes fisiológicos como tetrazólio, germinação e vigor, dentre outros, pode esclarecer as causas de problemas de baixa qualidade, além de orientar, com maior precisão, o tratamento da semente.    
              
    Tratamento da semente               
    O tratamento de sementes com fungicidas é uma prática utilizada por um número cada vez maior de sojicultores. O volume de semente tratada com fungicidas, que no Brasil, na safra 1991/92, não atingia 5% da área semeada, passou para 93%, desde a safra 2001/02. Além de controlar patógenos importantes transmitidos pela semente, é uma prática eficiente para assegurar populações adequadas de plantas, quando as condições edafoclimáticas durante a semeadura são desfavoráveis à germinação e à rápida emergência da soja, deixando a semente exposta por mais tempo a fungos habitantes do solo, como Rhizoctonia solani., Fusarium spp. e Aspergillus spp. (A. flavus) e Pythium spp. (principalmente no sul) que, entre outros danos, podem causar a sua deterioração no solo ou a morte de plântulas.                 
    O tratamento de semente de soja com fungicidas foi recomendado oficialmente   pela primeira vez no Brasil em 1981, para a maioria dos estados produtores. Em 1983, tal técnica foi estendida para os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, abrangendo, dessa maneira, todas as regiões brasileiras. Estima-se que, na safra 2004/05, o tratamento de semente com fungicidas foi utilizado em cerca de 95% da área semeada com soja no país. Decorridos 25 anos desde a sua primeira recomendação, a tecnologia do tratamento de semente de soja sofreu muitos avanços.                 
   Atualmente, misturas de fungicida de contato e sistêmico são recomendadas, uma vez que propiciam proteção mais eficaz à semente, contra os principais fungos de solo, como Pythium sp., Aspergillus flavus, Fusarium spp., e os transmitidos por semente, como é o caso de Phomopsis spp., Cercospora  kikuchii, Fusarium spp. principalmente (F. semitectum) e Colletotrichum truncatum.                  
    Além disso, recentes tecnologias, como a aplicação de polímeros à base de pigmentos orgânicos, melhoraram consideravelmente a qualidade do tratamento da semente, assegurando melhor distribuição e aderência dos produtos químicos e, com isso, protegendo a saúde dos operadores. Recente inclusão de inseticidas (imidacloprid, dimetoxan, fipronil) para o controle de algumas pragas reforça ainda mais a necessidade desse avanço na técnica do tratamento de semente.  
                 
    Benefício X custo do tratamento da semente                 
    Frequentemente, a semeadura não é realizada em condições ideais de umidade e temperatura do solo, especialmente em grandes lavouras, comuns no Brasil Central. Nessas condições, são frequentes os problemas de germinação e emergência da soja, havendo, muitas vezes, a necessidade de ressemeadura. Em tais circunstâncias, o tratamento da semente com fungicidas (sistêmico e de contato) oferece garantia adicional ao  estabelecimento da lavoura a custos reduzidos (menos de 0,5% do custo de instalação da lavoura).    
                
    Como tratar a semente                
    A função dos fungicidas de contato é proteger a semente contra fungos do solo e a dos fungicidas sistêmicos, principalmente do grupo dos benzimidazóis, é controlar fitopatógenos presentes nas sementes. Desse modo é importante que os fungicidas estejam em contato direto com a semente. O tratamento de semente com fungicidas, inseticidas, a aplicação de micronutrientes (cobalto e molibdênio) e a inoculação podem ser feitos de forma sequencial, com máquinas específicas de tratar sementes, desde que essas disponham de tanques separados para os produtos, uma vez que foi proibida a mistura de agrotóxicos em tanque. 
                 
    Tratamento utilizando máquinas de tratar semente               
     Dentre as diversas vantagens que essas máquinas apresentam em relação ao tratamento convencional (tambor), destacam-se:    
·         menor risco de intoxicação dos operadores, uma vez que os fungicidas são utilizados via líquida;  
·         melhores coberturas e aderência dos fungicidas, dos inseticidas, dos micronutrientes e do inoculante às sementes;  
·         rendimento em torno de 60 a 70 sacos por hora; e  
·         maior facilidade operacional, já que o equipamento pode ser levado ao campo, pois possui engate para a tomada de força do trator.  
Obs.: existem hoje no mercado máquinas para tratamento industrial, com capacidade de até 12-13 toneladas/hora.           
       
    O produtor deve tomar cuidado ao adquirir os fungicidas, inseticidas, micronutrientes e inoculantes, optando por formulações líquidas ou pó que possibilitem que o volume final da calda não ultrapasse a 300 mL/ 50 kg de sementes.