Sementes: o mais completo sistema de entrega

Edição X | 04 - Jul . 2006

James Delouche - JCDelouche@aol.com

    O conceito e o uso das sementes como um sistema de entrega são amplamente aceitos, compreendidos e apreciados nestas épocas de traços genéticos empilhados, coating das sementes, altos preços das sementes, taxas tecnológicas, e acordos de compra. Porém, as  sementes não começaram a servir como sistema de entrega na era atual da biotecnologia. Elas vêm entregando coisas da maior importância para os produtores e aqueles que delas  dependem desde o início da agricultura.         
         
    Entregando o Futuro                
    As sementes, primeiramente, entregam o futuro, a esperança do amanhã. Nos meios  rurais primitivos, onde a agricultura foi praticada pela primeira vez e a civilização teve seu  começo, as sementes representavam o fornecimento da comida de amanhã e, é claro, elas ainda o fazem em nossa época de urbanização em larga escala, alta tecnologia e civilizações amadurecidas. As precoces e recorrentes aspirações humanas por melhores lugares e épocas levaram as pessoas a explorar e migrar para terras além do horizonte, sempre levando consigo sementes para os alimentos que pudessem precisar no amanhã da nova terra.               
   Os autores do artigo “A Semente”, na última edição da SEED News, relataram como seus avós trouxeram consigo sementes da Europa, o velho mundo, quando migraram para o Brasil, o novo mundo, como uma espécie de seguro de sobrevivência. Durante a grande era da  exploração e da migração das populações dos séculos 14 ao 20, as lavouras de sementes  foram introduzidas, se multiplicaram, e se distribuíram nas e entre as várias regiões.                

    Criatividade, invenção e visões de entrega               
   As sementes entregam a criatividade, a invenção natural e o trabalho dessas pessoas excepcionais que estão sempre presentes nas populações humanas. Os indivíduos que  reconheceram e compreenderam pela primeira vez a função geradora das sementes eram  visionários. As sementes eram o meio de alcançar sua visão de substituir uma existência  muito arriscada, nômade, de caça e colheita, por uma vida fixa e estabelecida no lugar de  sua escolha.               
    Existem muitos exemplos bons e relativamente recentes da criatividade e da visão  humana incorporadas às variedades das culturas e entregues por sementes pelo mundo afora  para benefício de todos nós. Híbridos de milho, sorgo, milheto e muitos vegetais, e a melhoria  e o amplo cultivo da soja melhoraram a quantidade e a qualidade de nossos alimentos e a economia do setor rural. Em meu julgamento, entretanto, a mais significativa invenção, trabalho criativo e visão humanos incorporados às culturas entregues pelas sementes nos últimos 50 anos ou mais foi a dos “arquitetos” das variedades da “revolução verde”.
   A fome havia sido prevista por muitos “experts” para o fim da década de 70, especialmente para as imensas populações da Ásia e nas populações africanas em rápido crescimento. Os pesquisadores começaram a revisar geneticamente a arquitetura e a fisiologia do arroz e do trigo, as duas culturas alimentares mais importantes, para permitir o uso mais amplo dos insumos de produção e aumentar os rendimentos.   
               
    Entregando Desempenho Melhorado                   
    No início da década de 80, uma das revistas americanas de comércio de sementes fez duas propagandas de sementes que validavam o conceito de sistema de entrega das sementes  profunda e indelével em minha psique. Uma empresa estava oferecendo sementes de festuca  para pastagens, com garantia de ser livre de endófito, enquanto uma outra empresa oferecia  tais sementes para gramados de estação fria com garantia de ter endófitos presentes.               
    O endófito, um fungo que vive em simbiose nos tecidos da festuca, tinha sido identificado uns anos atrás como a causa provável dos bem conhecidos efeitos tóxicos da festuca sobre alguns animais ruminantes. Assim, os produtores que compravam sementes de festuca para pastagens de inverno queriam uma garantia de que as sementes eram livres do  fungo. Por outro lado, já que havia boas evidências de que a festuca para gramados com  o endófito tinham melhor desempenho e resistiam a insetos, as pessoas que compravam  semente de festuca para uso em áreas recreacionais queriam uma garantia de que o  endófito estava presente.              
   Não é surpresa que esta situação causasse uma série de problemas para os analistas de  sementes e fiscais de controle das sementes. Primeiro, os analistas tinham que desenvolver  métodos simples e rápidos para determinar se o fungo estava presente ou ausente nas plântulas produzidas pelas sementes que estavam sendo testadas. Então, o pessoal da fiscalização das sementes tinham que desenvolver normas pertinentes ao rótulo da festuca para endófito e uso, isto é, pastagem ou gramado.               
   As sementes são há muito usadas para entregar materiais que acentuam ou melhoram  o desempenho das sementes, do cultivo, ou de ambas. Os produtos químicos para tratamento das sementes são, talvez, o exemplo mais familiar. Fungicidas e inseticidas protetores aplicados às sementes protegem-nas de fungos que as apodrecem e de insetos que as destroem. Fungicidas e inseticidas sistêmicos aplicados e entregues às sementes protegem as plântulas e as plantas em crescimento contra certas doenças e insetos. A aplicação do elemento molibdênio nas sementes de soja entregou melhor nodulação e desempenho sob condições muito ácidas.               
   A giberelina aplicada às sementes entrega uma melhor germinação das sementes  de alface sob condições de calor e melhor emergência de algumas variedades de arroz  semi-anão. Microorganismos tais como espécies selecionadas de Bacillus subtilis e  Trichoderma spp. aplicados e entregues pelas sementes acentuam o desempenho de  amendoim, algodão, e outras lavouras, provavelmente por ocuparem nichos ecológicos  ao longo do sistema radicular, que poderiam de outra forma ser ocupados por  microorganismos menos benignos.
   O uso de coatings para entrega de um programa para  desempenho da semente e da cultura também precisa ser mencionado aqui, bem como alguns  tratamentos de uma natureza fisiológica que altera as sementes, realçando o seu desempenho  e do cultivo. Estes efeitos benéficos são de certa forma entregues pelas sementes como  mudanças fisiológicas, por exemplo, tratamentos de priming ou osmocondicionamento para melhorar a uniformidade e o desempenho das sementes sob condições de estresse, ou umidificação (crescente conteúdo de umidade na semente) das sementes de feijão e ervilha para reduzir o dano por embibição.  
                  
    “Os pesquisadores começaram a revisar geneticamente a arquitetura e a fisiologia do  arroz e do trigo, as duas culturas alimentares mais importantes.”
                      
    Tenho certeza de que por este ponto foi observado que o uso mais poderoso e revolucionário do sistema de entrega das sementes foi pouco mencionado. A biotecnologia moderna, dramática e irrevogavelmente, expandiu os usos do sistema das sementes para entregar eventos realçados, frequentemente a partir de fontes externas e exóticas, para  melhorar e proteger os cultivos, melhorar a qualidade e o valor nutricional dos produtos, e produzir toda sorte de produtos químicos específicos. A biologia e a economia de tais usos múltiplos do sistema de entrega das sementes podem e põem no máximo suas capacidades de desempenho, mas se a semente não desempenhar sua função primordial de propagação nada será entregue. A biotecnologia e tecnologias mais convencionais, entretanto, geram meios e oportunidades para melhorar significativamente a semente como um veículo  de entrega que, infelizmente, não recebeu a atenção devida. Algumas das melhorias mais  potencialmente úteis serão consideradas na próxima edição.  

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