A insanidade é combustível

Edição XXI | 02 - Mar . 2017

Eleri Hamer - contato@elerihamer.com.br

    Há algum tempo, comecei a acreditar que o sucesso, a atitude e a insanidade são parentes próximas. Assim como muitos de vocês, leitores, algumas vezes sou questionado sobre a minha carreira. É comum a curiosidade de alunos e clientes sobre como me tornei o profissional que sou. Não que seja lá grande coisa, mas há curiosidade sobre quão difícil foi sair da roça, sem recursos, e trilhar o caminho da formação acadêmica e profissional. 

    Aliás, isso também é algo que sempre me instigou saber. Sobre os empresários e suas empresas: de como e por que resolveram abrir um negócio. A evolução, os percalços, as vitórias e as derrotas, as estratégias e as atitudes. O que fariam de novo e o que abortariam.

Por isso, penso que essa discussão pode ser pedagógica para quem está começando a vida profissional e tem muitos medos. Aliás, um dos maiores que tive, 20 anos atrás, era de não saber algo que deveria saber. Medo que todo formando ou recém-formado possui. Instigar e inspirar jovens profissionais a pensar nas dificuldades como grandes oportunidades é o desafio desse ensaio.


Sempre em frente
    Embora moderada e humildemente me orgulhe, não penso que fiz e nem possuo nada de excepcional. Há milhões de pessoas que fazem e fizeram mais e melhor do que eu e tiveram um caminho muito mais pedregoso para trilhar. Mas outro dia fui inquirido sobre isso novamente, e ao olhar para trás no tempo, um pouco sobre as dificuldades, para espanto do interlocutor, afirmei que sim, muitas vezes fiz coisas bem arrojadas e desafiantes. Muitas coisas me orgulham (algumas recentes, outras longínquas), mas que na época não pareciam assim tão diferentes e importantes. Apenas surgiram e precisavam ser feitas.
    Na verdade, as situações foram aparecendo e foram sendo enfrentadas. Só isso. Poucas vezes me esquivei do que deveria ou precisava fazer. Muitas vezes não tinha competência para desempenhar funções ou tarefas e mesmo assim me propunha a executá-las. Fui aprendendo com a coragem e talvez com a própria ignorância de não saber muitas vezes a dimensão da empreitada. Típico daquela fábula do sujeito que não sabia que era impossível e por isso foi lá e fez.
    Há algum tempo, comecei a prestar mais atenção sobre isso. Sobre a competência e as atitudes. Interessante que, conversando com profissionais de elevado sucesso, percebo que o grande diferencial deles é na verdade se candidatarem para o que precisa ser feito. Para aquilo que está por ser realizado e não há alguém pronto e disponível ou mesmo nem se sabe ainda como deve ser feito. Enfrentar o que precisa ser enfrentado.
    Ou se convidados a desempenhar determinada função, aceitarem. Aliás, quem dos leitores ainda não passou pela situação em que surge uma oportunidade e, ao ser demandado, não se entende competente o suficiente para a empreitada? Ficar em dúvida e indecisamente declinar? Mas, em seguida, ficar furioso ao descobrir que outro profissional muito menos qualificado aceitou o desafio que você rejeitou. Topou a parada.
    Aí volto um pouco mais no tempo e começo a pensar sobre quem, quais foram as pessoas que me inspiraram? Quem me emprestou coragem para ser ou fazer as coisas que inconscientemente fui fazendo sem olhar para trás ou querer voltar? Poderia elencar muitas, mas os familiares sempre pesam mais. Lembro-me de muitas vezes ver meus pais, ao terem uma situação difícil pela frente, pronunciarem uma frase simples: vamos estudar como fazer.
    Ademais, poucas vezes estive no meio do caminho e pensei em voltar. Dentre essas, lembro de uma ocasião quando, com 15 anos, passei num seletivo e entrei no internato do colégio agrícola. Ainda era tempo de trote e teve um dia que foi difícil, e por um instante me passou pela cabeça pedir arrego. Na sequência, duas coisas me vieram a mente: a primeira, de que se tanta gente passava por ali, porque eu não seria capaz de também fazê-lo? E a segunda, era o que dizer para minha família e meus amigos? Que tinha fraquejado? Não, o orgulho falou mais forte e segui em frente.

A Insanidade é necessária para evoluir
    Observando as pessoas com as quais convivo, meus alunos, por exemplo, percebo que muitos deles, embora empresários ou mesmo professores, temem coisas simples, embora já tenham realizado grandes atos. Observo quanto de coragem e ousadia há neles. O que lhes falta e o que é ou pode ser inspirador para os demais.
    Por tudo isso, temo acreditar, cada vez com mais frequência, que precisamos de uma boa dose de insanidade. Sim, nem sempre o lógico e esperado é a melhor coisa a fazer. Aliás, se fizermos mais do mesmo, é óbvio que colheremos proporcionalmente. Por isso, uma pequena dose de insanidade é um ótimo combustível.
    Para não utilizar exemplos de terceiros, lembro-me de uma ocasião, quando ainda jovem profissional, há pouco formado, fui convidado para assumir um portentoso projeto de desenvolvimento. Uma consultoria e treinamento. Fui indagado se me propunha a realizá-lo. De pronto, afirmei que sim, dado que era uma excelente oportunidade profissional. Ademais, concluí: se tem alguém que pensa que eu sou capaz, não sou eu que vou pensar o contrário, justamente de mim.
    Ocorre que eu não tinha essa capacidade toda, mas apenas disposição de sobra para estudar, me preparar e enfrentar o desafio. Vergonha é algo que nunca admiti passar, e foi exatamente isso que sempre me fez tornar uma simples apresentação, um evento. Obrigando-me à preparação exaustiva e checagem minuciosa. Um passo-a-passo detalhado. Assim, enfrentei o projeto e muitos outros desafios vieram depois. Percebo que essa tem sido a tônica de muitos profissionais em ascensão ou de sucesso consolidado: não se acovardar diante das oportunidades.

Quando o politicamente correto atrapalha
    Isso me remete ao momento atual. De que somos um povo que valoriza o politicamente correto. Nunca antes esse termo foi tão estimado como agora. Opiniões divergentes do que o senso comum espera são recriminadas e combatidas. Fala-se muito em igualdade e sociabilidade, mas pontos de vista ou comportamentos que fogem do cotidiano entendimento merecem desprezo e não estímulo. Essa é a nossa prática. 
    É assim que tolhemos o desenvolvimento intelectual e a própria criatividade. Cerceamos qualquer pensamento ou opinião que diverge da nossa. Ou da maioria pelo menos. As redes sociais, apenas a título de exemplo, têm sido um campo abundante e fértil para a superficialidade e a animosidade. Está cada vez mais difícil ser autêntico. O medo é maior que a coragem na maioria das vezes. É melhor ser igual do que ser diferente. Ser diferente causa incômodo e, como tal, incomoda os outros. E, por consequência, pode tirar os outros da zona de conforto e voltar como um bumerangue. Então é melhor não mexer.
    Mas é bom lembrar que quem sempre é igual, normalmente também é medíocre. Quem se alinha ao senso comum vai com a onda e não se complica, mas na maioria das vezes somente avança conforme a manada e fica na média. Fazer diferente, se diferenciar, significa antes de tudo entender o jogo que se está jogando, que player você é, e como você enxerga o campo. Se enxerga o campo todo ou somente uma parte. E por fim, se tem ousadia (ou um pouco de insanidade) para assumir a posição do centroavante quando o time precisa.



Até a próxima.

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