Rendimentos elevados em trigo: O desafio das correlações indesejadas

Edição XI | 05 - Set . 2007

Gilberto Cunha - cunha@cnpt.embrapa.br

    Elevar o rendimento das lavouras tem sido considerada a melhor alternativa (dentre as muitas que surgem em momentos de crise) para manter a viabilidade econômica da atividade agrícola, particularmente nos sistemas de produção de grãos. A necessidade de enfrentar concorrência em um mercado global nem sempre perfeito (subsídios camuflados e barreiras protecionistas, por exemplo), queda nos preços das commodities agrícolas, pressões ambientalistas, interesses comerciais difusos e fazer frente a uma demanda crescente por alimentos baratos no mundo exige que, cada vez mais, seja priorizada a redução de custos por unidade produzida e esta tem dois caminhos: gastar menos ou produzir mais.                     
     A opção pelos sistemas de cultivo para rendimentos elevados, especialmente em trigo no Brasil, nem sempre é, em termos econômicos, a mais atrativa: custos elevados e riscos também. De qualquer forma, alheias a esse fato, algumas iniciativas já estão sendo postas em prática, com base, principalmente, em doses elevadas de fertilizantes (envolvendo também o uso de redutores de crescimento) e proteção química (fungicidas e inseticidas). O entendimento do rendimento das culturas, o seu significado e, particularmente, a sua formação é essencial para não frustrar expectativas de quem aposta em soluções simples para questões complexas e que, com raras exceções, quase sempre, não leva em consideração, pelo menos de forma explícita, o desafio das correlações indesejadas.                        
    Sobre esse assunto (rendimentos elevados em trigo), dentre os questionamentos iniciais, que não podem ser menosprezados, destacam-se: afinal, quanto é possível produzir (com base em resultados experimentais locais e desempenho de lavouras em campos de produtores)? E ainda: o que é tecnicamente possível e o que é economicamente viável? Ou, um pouco mais além: a tecnologia apregoada foi cientificamente testada? Também: a tecnologia disponível (testada experimentalmente) está sendo usada de forma integral?                                                                                                                                                                                        
    Rendimentos de grãos e proteína tendem a apresentarem uma correlação negativa, gerando um conflito de interesses entre produtores e processadores (rendimento penalizando qualidade e vice-versa). Também, não se pode desconsiderar que muitas relações, com implicações no rendimento final, ainda são pobremente compreendidas, particularmente devido às interações com os estádios fenológicos da cultura.                                  
    Um embasamento teórico sólido sobre a formação do rendimento na cultura de trigo e a integração de conhecimentos de diferentes disciplinas são fundamentais para combinar-se adequadamente a base genética (escolha da cultivar) e as práticas de manejo, conforme as condições de ambiente. O rendimento, em geral, nesse cereal, é expresso como uma fração da fitomassa aérea que é colhida na forma de grãos. Nesse particular, exercem um papel decisivo os mecanismos de controle da partição de assimilados, a capacidade de armazenamento e a mobilização de reservas.                                                                                          
Sobre o enfoque dos chamados “projetos para rendimentos elevados” nas principais culturas de grãos utilizadas no Sul do Brasil, especificamente no caso do trigo, algumas colocações são importantes, buscando-se entender suas potencialidades e seus desafios. Começando pelo potencial genético disponível para se manejar. Hoje, há cultivares de trigo com potencial de rendimento elevado e que já atingem rendimentos da ordem de 6.000 a 7.000 kg/ha (100 a 117 sacas/ha, em experimentos) no Sul do Brasil e chegam a valores superiores a 8.000 kg/ha (133 sacas/ha, em lavouras) no Brasil Central, sob condições de cultivo irrigado. Assim, é biologicamente possível a obtenção de rendimentos superiores a 100 sacas/ha em condições específicas. Mas surge a pergunta: porque é tão difícil a expressão deste potencial em áreas de lavoura?                                   
     Para ajudar a responder tal questão é fundamental ter em mente, conforme explicitado anteriormente, que o rendimento de grãos é o produto final de uma série de interações que ocorrem durante o ciclo da cultura e que envolvem não somente o potencial encerrado na carga genética de uma dada semente, mas de outros fatores que interagem com esta semente. A disponibilidade de temperatura, água e radiação solar, a nutrição, a ocorrência de pragas, doenças e plantas daninhas, são variáveis que influenciam no crescimento e desenvolvimento das plantas e consequentemente no seu produto final de interesse econômico, os grãos. Se uma destas variáveis estiver abaixo de um ótimo, estará limitando o rendimento de grãos, não importando que todas as outras estejam em níveis adequados. Mas será possível obter mais de 100 sacas de trigo fora do ambiente de pesquisa onde, na maior parte das vezes, as áreas manejadas são pequenas e o manejo é intensivo? Esta questão vem sendo respondida por estudos de “Agricultura de Precisão” que avaliam a variabilidade espacial e temporal do rendimento de grãos por meio de monitoramento de colheita.

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