Estatísticas, aproximações e verdades IV

Edição XI | 05 - Set . 2007

James Delouche - JCDelouche@aol.com

    Os botânicos costumam definir a semente de uma forma muito precisa, desde o ponto de vista morfológico quanto ao desenvolvimento, como um óvulo desenvolvido. Às vezes, ele ficam surpresos e até chocados pela amplitude da definição agrícola dada às sementes, a qual resulta bastante imprecisa.       
    Aqueles com uma visão agrícola consideram a semente, aliás, a unidade semente ou de dispersão, como aquela estrutura ou conjunto de órgãos de uma planta que são plantados para obter um cultivo.   
    Para alguns dos principais cultivos agrícolas a unidade semente assemelha-se bastante àquela unidade de dispersão que se separa naturalmente da planta-mãe para cumprir a função de dispersão e reprodução. Para outros cultivos, a unidade natural de dispersão é grandemente modificada através dos processos de colheita e beneficiamento, no intuito de facilitar o seu futuro plantio. 

    “A definição de semente pura é tão complexa quanto a definição de unidade semente”

    Algumas unidades de dispersão, tais como a do feijão e milho, são formadas por uma semente funcional, enquanto outras como Cenchrus ciliares (gramínea tropical) e algumas outras espécies de leguminosas consistem de uma ou mais sementes funcionais  acompanhadas de estruturas acessórias, e ainda há aquelas formadas por várias sementes, como a multi-embrião de beterraba.   
    As estruturas acessórias fazem parte da unidade de dispersão e contribuem de forma muito importante às aproximações e quase verdades, tanto na análise de sementes quanto a especificações de lotes de sementes, no que diz respeito à pureza da semente.



    A semente pura
    Um dado muito importante a respeito do valor de plantio de um lote de sementes é o seu percentual de semente pura. Porém, a definição de semente pura é tão complexa quanto a definição de unidade semente.
    Em artigos anteriores tenho mencionado minhas dificuldades na determinação da fração semente pura em Poa pratensis (gramínea forrageira temperada) e espécies semelhantes, ou seja, como distinguir entre uma espigueta com cariopses imaturas (semente pura) e outras com as anteras secas (material inerte).
    Após algum tempo, bastante treinamento e aprendizado sobre o assunto, comecei a perceber a necessidade de um compromisso com o bom senso para contornar situações deste tipo, reduzindo a subjetividade na análise de sementes junto com a considerável – e incontrolável - variabilidade com a qual aquela se associa.
    Há um raciocínio lógico que acompanha o compromisso com o bom senso na hora da análise de pureza, desde que o valor de plantio dessas unidades de sementes sob questionamento possa ser determinado mais objetiva e consistentemente através da análise de germinação, determinação bem mais objetiva que a simples avaliação visual e os consequentes julgamentos aos quais se pode chegar.
    Resultados baseados nos valores mais aproximados aos reais têm sido aceitos, em alguns casos, para liberar os analistas de sementes dos procedimentos especialmente tediosos, como a análise de pureza daquelas espécies que possuem múltiplas unidades de dispersão, como por exemplo, Festuca rubra e Dactylis glomerata (gramíneas forrageiras temperadas).
    As unidades de dispersão múltiplas consistem de dois tipos de espiguetas, as férteis e as estéreis, junto a outras estruturas consideradas como matéria inerte. No passado, os analistas deviam separar os antécios e espiguetas férteis como semente pura, e aquelas partes estéreis das inflorescências como matéria inerte, um procedimento muito tedioso, além de cansativo.
    Um procedimento mais claro, simples e baseado na pesquisa foi adotado, consistindo na determinação das unidades simples, aplicando-se um fator de correção para a determinação da equivalência em unidades simples na hora da avaliação da presença de unidades múltiplas.
    Esse compromisso de conveniência, obviamente, não vai produzir o valor real do teste, mas a experiência tem demonstrado que se aproxima bastante do valor real, pelo menos da média dos resultados obtidos pelos analistas que faziam o procedimento à moda antiga.


    Sementes de invasoras e sementes da espécie de interesse
    Na determinação da quantidade de sementes de espécies de invasoras na análise de pureza, o compromisso também vai na direção do bom senso: sementes de espécies invasoras que apresentem imaturidade, tamanho pequeno fora do padrão, que estejam quebradas, danificadas por insetos e/ou apresentem defeitos por outras causas, e, portanto, parecendo incapazes de produzirem plantas, serão classificadas como matéria inerte ao serem avaliadas visualmente.
    A lógica por trás da utilização deste nível de subjetividade na análise de pureza é que as sementes de invasoras, diferentemente do que acontece com as sementes da fração semente pura, não são testadas para germinação. É interessante, entretanto, que a determinação das sementes de outras espécies, que ocorrem como contaminantes na análise de pureza, segue o mesmo protocolo utilizado para a semente pura, embora as sementes de outras espécies, à semelhança do que acontece com as sementes de invasoras, não estão sujeitas ao teste de germinação.


    Germinação
    Os métodos e procedimentos para a determinação da germinação de espécies de interesse agrícola apresentam-se descritos nas várias regras para a análise de sementes. Porém, existem várias inconsistências nas recomendações para o tratamento de determinado tipo de sementes e/ou condição das sementes.
    Os métodos para o tratamento de sementes com dormência são particularmente inconsistentes e difíceis de interpretar, talvez pela ignorância ou desconhecimento.
    Um dos exemplos com o qual estou mais familiarizado refere-se à Paspalum notatum (grama forquilha), gramínea forrageira que possui várias cultivares. Todas essas cultivares possuem sementes com dormência, às vezes dormência profunda, mas para as sementes da cultivar Pensacola a recomendação para executar a análise de germinação implica somente na utilização de luz. Para o resto das cultivares é recomendada a remoção das glumas e outras estruturas, mediante o uso de um estilete afiado, procedimento que deverá deixar a cariopse levemente danificada.
    A filosofia por trás da consideração da dormência de sementes tem sido no sentido de que os tratamentos para a superação da dormência deveriam reproduzir as condições naturais sob as quais as sementes irão superar esse estado e germinar. Portanto, esfriamento, estratificação por baixa temperatura, alternância de temperaturas, nitrato de potássio e luz têm sido empregados para superar a dormência, com base no principio de que reproduzem a sucessão de eventos que na natureza fazem as sementes germinarem.
    Os tratamentos de descascar junto com a parcial remoção das cariopses das outras cultivares de Paspalum notatum (exceto Pensacola), com certeza, não reproduzem os fenômenos naturais percebidos pelas sementes. Os dois métodos de germinação estabelecidos para as sementes com dormência profunda como de Stipa viridula (gramínea da vegetação nativa), um deles envolvendo a embebição em ácido sulfúrico e o outro através do tratamento com ácido giberélico junto a um fungicida, não têm muita semelhança com o que acontece naturalmente no solo.
    Entretanto, existem vários outros exemplos que evidenciam a dificuldade em definir os procedimentos recomendados para executar a análise de germinação em sementes florestais, de olerícolas e de grandes culturas.
    Uma parte muito importante do problema é que a dormência é um processo muito complexo, e as condições para sua superação no campo não estão completamente compreendidas, havendo ainda muitos aspectos desconhecidos sobre esse processo.
    A determinação do percentual de germinação, ou seja, o valor de plântulas normais obtido tem sido reconhecido como frequentemente diferente do valor real obtido em campo.
    O conceito de "energia germinativa" apareceu cedo na análise de sementes, como resposta às diferenças do teste de germinação. Da mesma forma, os testes de vigor desenvolvidos desde a segunda metade do século passado representaram um esforço sério de prover metodologias para fornecer informações sobre a aptidão das sementes em produzir plantas viáveis, em valores mais próximos à realidade do que simplesmente através do teste de germinação.


    Algumas reflexões finais              
    Não é difícil identificar compromissos de conveniência, inconsistências e deficiências gerais nos métodos-padrões para a determinação da qualidade e valor das sementes. Desejaria, porém, que ninguém ficasse ofendido pelo conteúdo deste artigo, uma vez que essa não é minha intenção.
    Ainda me considero um analista de sementes, e o que fiz ou procurei fazer foi desenvolver uma visão para o interior da análise de sementes. Levando em consideração o número de espécies que são cultivadas no mundo, quanto à grandeza do comércio mundial de sementes, a estrutura geral das análises de sementes deve ser considerada como "verdadeiramente" extraordinária.
    Essa é uma estrutura sob constante revisão, por conta da multiplicidade de dedicados analistas de sementes e cientistas, sejam dos órgãos públicos ou de instituições privadas, o que determina que seja constantemente atualizada e aprimorada.
    Não há discussão no que diz respeito à importância do grande serviço prestado pela análise de sementes tradicional, e ainda mais através das novas técnicas para a determinação de caracteres genéticos e eventos.
    A tendência mundial de transição para uma agricultura global, com base na biotecnologia, proporcionará oportunidades de serviços ainda maiores, bem como desafios que deverão ser superados através de ações cautelosas e bem pensadas, que têm sempre caracterizado a disciplina de análise de sementes. 

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