Aumentando o desempenho das sementes

Edição XI | 05 - Set . 2007

Leopoldo Baudet - lmbaudet@ufpel.edu.br | Fabricio Becker Peske - fabricio@seednews.inf.br

    Como abordado na edição de julho/agosto de 2007 da revista SEED News, na matéria “Cresce a percepção do valor da semente”, o professor Silmar Peske nos mostra num gráfico os componentes do custo de sementes de soja no Brasil, demonstrando as diferentes tecnologias ao alcance do agricultor no simples momento de depositar a semente no solo. Isto envolve, além da própria semente, que deve possuir o fator ALTA QUALIDADE pelo seu alto custo, aplicações de produtos como fungicida, inoculante, film coating (recobrimento), micronutriente e inseticida, dentre outros.                 
    De acordo com a tabela, para aproveitar tudo isto o produtor tem que ter certeza da qualidade das sementes, bem como saber se os produtos foram bem aplicados e se houve uma boa distribuição do produto para que o mesmo desempenhe seu papel.
    Em qualquer negócio, há o momento do investimento e o de colheita dos lucros. Nisto a semente é o maior exemplo, e o é desde o início dos tempos. Porém, com a chegada de diversas tecnologias na agricultura mundial, este conceito tornou-se uma verdade ainda maior.                                                                                                                                                                                       
    O uso de sementes de alta qualidade e desempenho é amplamente reconhecido pelos produtores como um dos meios mais efetivos de minimizar custos e riscos. Uma vez que todas as medidas para manter e realçar a qualidade das sementes já foram tomadas e as sementes possuem qualidade genética reconhecida, os produtores ainda podem optar por aumentar o desempenho das mesmas através da melhoria ou otimização das condições de semeadura e do ambiente ao redor delas. O aumento do desempenho das sementes se dá através de tratamentos especiais, através de beneficiamento e procedimentos para melhorar as condições de semeadura.
                    
    Estratégias de alta tecnologia aplicadas às grandes culturas para cobrir ou superar as expectativas dos agricultores                
    O mercado de sementes é hoje, em muitas espécies (soja, algodão, milho hibrido, arroz, hortaliças e flores), de intensa concorrência, pelo que os produtores têm plena consciência da qualidade e de que a falha da germinação e da emergência uniforme das sementes pode ter consequências graves em termos de aceitabilidade do produto.                                                                                                                                       
   As metodologias que vêm implementando-se para melhorar o desempenho das sementes envolvem o tratamento de recobrimento de sementes com polímeros específicos, para protegê-las no solo quando da semeadura; o tratamento de pré-condicionamento (osmótico ou hídrico) ou priming de sementes; o aumento ou melhoria de um ou mais aspectos do desempenho das sementes (germinação, emergência) acima do nível determinado pela herança genética e alcançável por condições naturais; os melhoramentos ou alterações nas propriedades físicas das sementes que realcem sua plantabilidade e tratamentos químico-biológicos para regular a germinação e emergência (reguladores de crescimento).
    Já é possível, graças ao recobrimento, aderir à semente tanto produtos em pó como líquidos, criando uma situação de não mais cogitar o tratamento tradicional de sementes, mas decidir tratá-la com quais e quantos produtos. Isto implica não só em protegê-la de quaisquer patógenos possivelmente presentes, tanto no solo como em si própria, mas muitas vezes favorece-la com micronutrientes, produtos hidrófobos ou até mesmo hormônios.
    Esta verdade possui ainda um maior peso, quando a semente em questão possuir um valor muito acima do comum, como no caso de híbridos de milho ou arroz, hortaliças e flores em geral, onde mesmo uma baixa porcentagem de sementes/plântulas mortas significa um grande prejuízo, ao levarmos em conta a sua importância na população ou potencial de produtividade.                                                         
    Diversos trabalhos de pesquisa apontam que um pequeno investimento no tratamento, relativo ao custo da semente, não só melhora o desempenho da germinação e emergência das sementes e, por conseguinte, sanidade das plântulas, mas acarreta em tremendos aumentos na produção por ha. No caso de arroz tratado com inseticida, chega até 712,5 kg/ha, controlando bicheira do arroz entre outros; fungicidas em hortaliças, reduzindo os microrganismos causadores de tombamento pré e pós-emergência (“damping-off”), como Alternaria, Pythium, Phytophythora e Rhizoctonia; ou produtos hidrófobos em sementes de Brachiarias, permitindo que as sementes germinem apenas quando houver quantidade suficiente de umidade no solo, ou seja, não germinem na primeira chuva; ou outra adversidades.                                                             
    Cada cultura, cultivar, ou até mesmo região, exige um diferente tratamento à semente. Em soja e milho o inseticida representa de 12 a 22% do custo da semente, por ser muitas vezes o único tratamento capaz de atingir pragas específicas do solo, aumentando o rendimento de grãos em até 128%.
    Em milho e arroz, a situação é ainda mais clara, em se tratando de híbridos, onde a densidade de semeadura é menor e a semente possui um valor ainda maior.                                                     
   Além do tratamento tradicional com fungicidas (sistêmicos e de contato) e inseticidas (químicos e biológicos), os tratamentos com Ácido Giberélico (regulador de crescimento) para acelerar a germinação e emergência em sementes de arroz e alface; com Peróxido de Hidrogênio, em soja, feijão e beterraba açucareira, para melhorar a germinação e emergência, tem sido relatados para a melhoria do desempenho das sementes.
                  
    Tratamento moderno de sementes
    Quanto à aplicação e distribuição dos produtos, no tratamento tradicional de sementes, as tratadoras convencionais utilizam o sistema de copinhos, que já está sendo superado pelas tratadoras que utilizam o sistema de aspersão do produto químico ou spray. Este sistema, complementado com um bom sistema de alimentação das sementes na máquina (“chapéu chinês”, espalhador de disco, etc) fornece uma ótima distribuição e aderência dos produtos às sementes. Além disso, o equipamento de spray permite fazer, além de tratamento com fungicidas e/ou inseticida, recobrimento das sementes, isto é, aplicar film coating com uma calda contendo vários insumos (macro e micro-nutrientes, fungicidas, inseticida, reguladores de crescimento, produtos hidrófobos, inoculante, etc).
    O recobrimento de sementes ou Film coating foi primeiramente desenvolvido para facilitar a semeadura de precisão e proporcionar pesticidas para proteger as sementes no solo em condições adversas. Logo foram acrescentados os tratamentos com inoculantes biológicos para leguminosas; calcáreo, para modificar o pH no solo imediato às sementes; materiais hidrofílicos, para aumentar o fornecimento de umidade; carvão ativado; antibióticos para o controle de doenças bacteriais; herbicidas; herbicidas antídotos ou safeners; poli camadas para retardar a germinação em trigo de primavera; peróxido de cálcio para fornecer oxigênio em semeadura na água de arroz; óleo de linhaça ou lanolina como material hidrofóbico e/ou Captan para proteger a semente de soja em solo seco ou inundado e frio, aplicação de micronutrientes (MoCoB) em soja; proteção das sementes durante o armazenamento; etc.
    As principais vantagens que têm sido apontadas na aplicação de film coating são a regulagem da taxa de absorção de água para evitar dano por embebiçao rápida e manter a viabilidade durante o armazenamento das sementes; o transporte e liberação de químicos fotoativos, produtos biológicos, fungicidas e inseticidas de maneira não poluente do ambiente; e a proteção dos trabalhadores contra o pó tóxico.                         
    A indústria de polímeros vem se desenvolvendo muito rápida e agressivamente nos últimos anos, principalmente na produção de polímeros compatíveis com as formulações do tratamento convencional de sementes. O uso de polímeros e corantes tem fundamento pelo uso cada vez maior de variedades de alto valor (híbridos, OGMs); menores taxas de semeadura; melhor desempenho das sementes; produtos de coating ativos em dosagens menores; aspectos de marketing como o recobrimento com corantes; grande demanda pela homogeneidade da calda líquida (misturas múltiplas); necessidade de evitar perdas de produto ativo até a semeadura; e proteção do usuário na UBS e no campo.


    


    Os polímeros melhoram a aparência das sementes, deixando-as coloridas e mais brilhosas: seu manuseio e a plantabilidade, proporcionando superfícies alisadas e substituindo os produtos para esse fim, como o grafite. A agregação de valor às sementes é altamente influenciada pelas demandas de marketing. Os polímeros devem ajustar-se às especificações técnicas próprias do recobrimento e sua viabilidade econômica para contribuir positivamente, proporcionando ao agricultor sementes de alta qualidade em destaque pela sua beleza e desempenho.                                                                                                                                 
    No caso de inseticidas, há uma variada gama de produtos e ingredientes ativos disponíveis no mercado, buscando atingir diferentes pragas, comuns à cada região do país, sendo no controle de lagartas (elasmo, lagarta-rosca), ou larvas de coleópteros (bicho-bolo, larva-arame, larva-alfinete). Os danos causados por essas pragas resultam em falhas na lavoura devido a sua alimentação das sementes após a semeadura, nas raízes após a germinação, e na parte aérea das plântulas, sendo evidentes na fase em que a planta em formação está mais suscetível a danos e morte.                                                                                                 
    No caso dos fungicidas, não é diferente. O tratamento fungicida das sementes visa reduzir uma possível infecção e/ou infestação de fungos nas sementes, além de um maior controle de microrganismos na fase inicial de estabelecimento no campo. Havendo trabalhos com diversas culturas (soja, milho, algodão, arroz), indicando que enquanto o custo em percentual da aplicação de fungicidas na produção de sementes não passa de 2%, o fato de necessitar uma ressemeadura da área pode custar mais de 18%, devido a gastos com maquinários, mão-de-obra, combustível, tempo empregado, sementes, e afins. Além de muitas vezes comprometer a época correta e, assim, as condições ideais de semeadura. No caso hortaliças, é inadmissível pensar numa semente sem fungicidas, sendo estes sistêmicos ou de contato. 



    

    Componentes do custo de várias espécies de sementes no Brasil

     


    Em arroz, há diversos trabalhos demonstrando a eficiência do ácido giberélico no desempenho da semente, diminuindo em até dois dias e meio o período necessário à emergência das sementes. Isto é um fator muito importante nas mãos de um produtor consciente de que, muitas vezes, situação como baixa temperatura do solo pode retardar e comprometer a emergência das sementes.
    Quanto aos inoculantes, o nitrogênio (N) é o nutriente requerido em maior quantidade pela cultura da soja. Estima-se que para produzir 1000 kg de grãos são necessários 80 kg de N. A fixação biológica do nitrogênio é a principal fonte de N para a cultura da soja. Bactérias do gênero Bradyrhizobium, quando em contato com as raízes da soja, infectam as raízes, via pêlos radiculares, formando os nódulos. A FBN pode, dependendo de sua eficiência, fornecer todo o N que a soja necessita. Hoje, há inoculantes compatíveis com os fungicidas aplicados às sementes.
    O recobrimento das sementes de soja com fungicida, micronutrientes e polímero proporciona sementes com boa aparência, bem como aderência, distribuição e coloração dos produtos utilizados no recobrimento.
    Pré-condicionamento de sementes ou Priming
    O estabelecimento rápido das plântulas no campo é pré-requisito fundamental para alcançar um estande uniforme e garantia da produtividade e qualidade do produto colhido. As sementes, durante o período de pré-emergência, são normalmente expostas a diferentes condições edafo-climáticas, sobre as quais o produtor nem sempre tem controle total. Assim, dentre os diferentes tipos de tratamento de sementes, que têm sido desenvolvido, está o condicionamento osmótico, o qual consiste de uma hidratação controlada das sementes, suficiente para promover atividade pré-metabólica, sem, contudo, permitir a emissão da radícula.           
    Em geral, o tratamento consiste em embeber as sementes numa solução osmótica por um período de tempo e fazer em seguida a secagem das mesmas para o grau original de umidade. A hidratação de sementes em soluções salinas procede até um nível geralmente próximo à germinação. Logo, são mantidas em frio por vários dias e são semeadas imediatamente ou secadas para comercialização posterior. Também pode-se utilizar soluções nutritivas.
    O condicionamento osmótico tem sido utilizado em sementes de hortaliças, flores, florestais e algumas forrageiras, com o objetivo de aumentar e uniformizar a velocidade de germinação e de emergência de plântulas, consequentemente aumentando a resistência das mesmas a estresses edafo-climáticos.                                                                                                                                               
    Diversos benefícios do condicionamento osmótico têm sido relatados: melhor desempenho das sementes condicionadas em temperaturas sub ou super ótimas para diferentes espécies, como aipo, alface, alho-porró, beterraba, brássicas, cenoura, espinafre, melancia, melão, milho-doce, pimenta e tomate dentre outras. As sementes condicionadas têm contribuído para melhorar a emergência das plântulas em solos com alta concentração salina, da mesma forma que essas têm sido utilizadas para minimizar o efeito de fungos que causam damping-off (tombamento). Os polímeros associados ao film coating contendo aditivos, que jogam um importante rol na peletização de sementes de espécies olerícolas, também em certo grau influenciam no priming dessas espécies.
    Os agricultores estão sempre procurando reduzir os custos e minimizar os riscos para manter seu investimento lucrativo. Assim sendo, o estabelecimento de uma população ótima de plântulas vigorosas e uniformes é o primeiro passo para uma produção economicamente bem sucedida. Além disso, os agricultores querem ter a garantia de que o estabelecimento da população no campo seja livre de falhas. Os produtores de sementes devem perseguir o sistema de fornecimento de sementes com zero defeito. Cada produto que é aplicado às sementes deve contribuir para a melhoria do seu desempenho, visto que o agricultor, que está pagando pela tecnologia, deve ter certeza de que o mesmo ficou bem aderido, bem distribuído, e, assim, poderá dormir tranquilo, sabendo que está semeando uma semente de alta qualidade e desempenho.



     


         


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