Para onde vai a agricultura na próxima década

Edição XXIV | 01 - Jan . 2020

Pedro Antonio Arraes Pereira - pedro.arraes@embrapa.br | Élcio P. Guimarães - elcio.guimaraes@embrapa.br

    Escrever hoje um artigo com o objetivo de colocar ideias sobre como será a agricultura em dez anos é um grande desafio. Esse exercício era mais fácil há algumas décadas, pois o dinamismo do setor agropecuário era bem menor. Atualmente, as descobertas, as novas tecnologias, o empreendedorismo e a criatividade do setor parecem não ter limites e ideias e ações que acreditávamos difíceis no ano passado hoje são realidade. Não temos dúvidas que o Brasil seguirá contribuindo de maneira significativa nos mercados da cana de açúcar, laranja e café, que hoje somos número um no mundo. Seguem a esses produtos a soja, o milho, o gado e as aves, onde somos segundo ou terceiro maiores produtores. A agropecuária brasileira continuará crescendo nessa direção, entretanto, as ameaças e os desafios da segurança alimentar no século 21 são muito mais complexos que os do século 20 e teremos que nos ajustar a essa realidade. Sabemos que a renda da população continua crescendo em nível global, sendo esse crescimento muito mais localizado nos países em desenvolvimento. Isso vai requerer uma maior demanda por alimentos, especialmente composta por uma dieta cada vez mais diversificada.

    Nos últimos tempos, passamos por um processo de globalização que teve reflexos na produção agrícola e pecuária. Nesse momento, estamos passando por um ponto de inflexão em que a globalização está sendo questionada e a produção local está sendo mais valorizada. Sem dúvida, a globalização continuará avançando, principalmente nas commodities agrícolas, onde ocorre um perfeito alinhamento entre todos os atores dessas cadeias. Por outro lado, os desafios para os produtores rurais que trabalham com produtos não commodities são enormes, pois é nesse grupo onde observamos os maiores impactos das imperfeições de mercado. A implementação de estratégias de massificação do conhecimento das cadeias de valor e a identificação das fraquezas e lacunas dentro das cadeias produtivas poderão criar uma massa crítica para o aumento da escala e da qualidade da produção, abrindo oportunidades para novos produtos e mercados.

    As discussões hoje nos remetem a pensar em um equilíbrio entre a produção local e a global. Nesse aspecto, o avanço espantoso das tecnologias da informação e de sua massificação, permite acelerar novos métodos para recriar cadeias de valor de produtos não commodities com valor agregado, dentro dos princípios de produção de alimentos saudáveis com uso de práticas sustentáveis. 


    Organizações internacionais já vêm incrementando ações para o levantamento em nível global das ações de investimentos público e privado, que visam dar suporte aos sistemas produtivos sustentáveis. Políticas públicas estão sendo direcionadas para maximizar a transformação dos sistemas atuais em sistemas alicerçados em práticas mais sustentáveis e com ênfase em alimentos mais nutritivos e saudáveis. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), recentemente aprovou as Normas Técnicas Específicas (NTE) para a produção integrada do feijão-comum, sendo que a Embrapa acaba de realizar o primeiro curso para “responsáveis técnicos e auditores em produção integrada de feijão-comum”. Com o avanço dos diálogos entre Brasil e Índia, o MAPA está finalizando as NTE para a produção integrada de pulses, abrindo assim possibilidades e mercados para produtores cultivarem grão de bico e outros pulses, até então pouco relevantes no agro brasileiro.

    Muito embora estejamos observando cenários de ruptura quando olhamos no retrovisor, não é o que está acontecendo atualmente no setor agropecuário, pois pode-se sentir a inovação acontecendo em tempo real. A inovação nesse setor avança a passos largos com a organização da informação denominada “big data” e que terá impactos enormes nos processos de geração de conhecimento e de novas tecnologias. 


    Essa democratização da tecnologia e da informação mudará todas as cadeias de valor relacionadas ao setor agrícola, gerando mais transparência e inclusão. Por outro lado, dispomos também de um novo arsenal de ferramentas de geoprocessamento que pode agregar e qualificar as informações no território, permitindo revolucionar, além de proporcionar uma enorme expansão da abrangência e utilização dos avanços tecnológicos. Essas ferramentas permitiram identificar nichos para produção de cultivos que neste momento não fazem parte de nosso portfólio ou que não são relevantes entre os produtos que comercializamos.

    Cabe considerar que, ao mesmo tempo em que o desenvolvimento da agricultura retirou milhares de pessoas da pobreza, essa mesma atividade teve impactos adversos na biodiversidade e nos serviços ecossistêmicos. Sabemos que as interações entre biodiversidade e agricultura são essenciais na sustentação da agricultura sob diversos ângulos e níveis. A biodiversidade fornece a matéria-prima para gerar variedades de plantas e animais melhorados pela pesquisa científica e a tecnologia. Essas variedades são ativos imprescindíveis para agricultura e para a produção de alimentos. Por outro lado, a integração da biodiversidade e das ações ambientais com setores como a agricultura e a produção de alimentos é essencial para atingir os objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, proposta pela ONU. 

    Acreditamos que essa nova ordem mundial pode gerar uma onda de sistemas sustentáveis inovadores e uma união efetiva de todo o setor da agricultura, uma vez que haja a promoção de medidas de incentivo que valorizem a conservação da biodiversidade e os serviços ecossistêmicos na agropecuária. Estamos vivenciando os efeitos ainda pequenos da Quarta Revolução Industrial nos sistemas de produção de alimentos, que contribuirão para quebras de paradigmas inimagináveis, que estão por acontecer em grande escala.


        Estamos vivenciando os efeitos ainda pequenos da Quarta Revolução Industrial nos sistemas de produção de alimentos, que contribuirão para quebras de paradigmas inimagináveis, que estão por acontecer em grande escala.


    A agricultura de precisão com o uso de “big data” associado permitirá análises do ambiente específico das propriedades rurais, relacionando-os com dados ambientais que proporcionarão aos agricultores tomadas de decisão precisas em tempo real. Essas informações massivas incrementarão as práticas agrícolas e de gestão de propriedades. “Big data” e sistemas de inteligência artificial aumentarão a capacidade de modelagem para diminuição de riscos climáticos e reduzirão substancialmente o preço de financiamentos e seguros agrícolas. O uso de tecnologia da informação por meio de dispositivos móveis para financiamento, educação, intercâmbio de conhecimento e serviços básicos de extensão rural começa a trazer impactos positivos no relacionamento do produtor agrícola com o mercado.  Estão surgindo novas tecnologias para rastrear a cadeia de suprimentos de alimentos e otimizar o valor e eficiência da mesma, assim como catalisar a transparência, em termos de valor nutritivo e pegada ambiental durante todo processo produtivo do alimento. Tecnologias de edição genética como o CRISPR-CAS (do inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas) estão modificando características múltiplas, como resistência à seca, aumento de resistência a pragas e doenças, valor nutritivo, entre outros. Com baixo custo e executadas de forma rápida, podem atingir amplo espectro de cultivos e regiões. Outra tecnologia na área biológica é a relacionada ao microbioma, que poderá facilitar a utilização ampla de microrganismos nos sistemas de produção de alimentos. Os agentes de proteção biológica e fertilizantes biológicos deverão substituir praticamente todos os agentes químicos nos sistemas de produção de alimentos em poucos anos. Proteínas alternativas poderão suprir o déficit de proteínas juntamente com biofortificação e alimentos fortificados densamente nutritivos para os que sofrem de desnutrição, principalmente nas regiões mais carentes do mundo. O uso da energia renovável e armazenamento de energia para mover os equipamentos agrícolas e, finalmente, o Blockchain (ou protocolo da confiança) usado nas transações dos sistemas de produção de alimentos para identificação da origem e transparência efetuando pagamentos e créditos com baixo custo em tempo real já são uma realidade.


        O Brasil tem uma diversidade de sistemas regionais de produção de alimentos inigualável, onde o pequeno, o médio e o grande empreendedor rural têm papéis importantes na segurança alimentar do país e do mundo. 


    Essas quebras de paradigmas no Brasil poderão ter grande impacto que maximizam uma visão integrada no processo de produção de alimentos. Conseguimos ser um dos grandes produtores de alimentos tanto de commodities como não commodities. Nesse aspecto ressaltamos a nossa grande vantagem em explorar nichos de mercado valorizando os alimentos nutracêuticos e biofortificados, como feijões especiais, tipos de arroz com tegumento vermelho ou preto diferenciados em termos de elementos agregadores de saúde e, também, trigos sem a presença de glúten. Outra grande oportunidade é a exploração de inúmeras frutas tropicais presentes na nossa biodiversidade, mas que ainda não foram domesticadas.  Não podemos esquecer a capacidade que temos e também a grande diversidade na produção de mel, utilizando flores dos pampas do sul, às flores do cerrado e da catinga produzindo méis únicos e também com muitos elementos importantes para saúde.


    A grandeza

    Esse sucesso se faz presente em apenas 10% do território nacional, onde 60% da área continua preservada com vegetação nativa. Essas novas tecnologias poderão ser ferramentas importantes para o uso sustentável dessa nossa inexplorada biodiversidade, principalmente para sistemas de produção de alimentos para não commodities, com enorme agregação de valor para nichos de mercado como já foi exemplificado. 

    O Brasil tem uma diversidade de sistemas regionais de produção de alimentos inigualável, onde o pequeno, o médio e o grande empreendedor rural têm papéis importantes na segurança alimentar do país e do mundo. Somos também o único país que tem um Cadastro Ambiental Rural (CAR) declarado por todos os produtores rurais, que apresenta uma radiografia precisa das atividades desenvolvidas nas propriedades rurais.

    Porém, não podemos dormir em berço esplêndido, pois a Quarta Revolução Industrial avança. Temos que nos preparar, como produtores e como instituições de pesquisa e de assistência técnica e extensão rural, para nos beneficiarmos dessa revolução do conhecimento. Já que muitos dos paradigmas atuais deverão ser quebrados, temos que estar cientes, também, de que um novo sistema de governança ágil e transparente terá que ser implementado, para que os nossos agricultores continuem sendo os mais competitivos no novo sistema de produção de alimentos no mundo.


    Comentário

    Em resumo, o futuro para a diversificação de nossa agropecuária está ainda aberto e, seguramente, somos, no mundo, talvez o único país preparado e com capacidade para criar, processar e disseminar novas culturas e produtos em nível nacional e mundial. Precisamos de investimentos e principalmente de políticas públicas que estimulem a criatividade do setor. Postas essas condições, amanhã poderemos ser o maior produtor de culturas ainda desconhecidas e que hoje podem estar no quintal da sua casa.

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