Grão-de-bico: nova aposta do agronegócio brasileiro

Edição XXIII | 03 - Mai . 2019

Warley Marcos Nascimento - warley.nascimento@embrapa.br | Patricia Pereira da Silva - patricia.pereira@colaborador.embrapa.br

    Nos últimos anos, as Pulses têm ganhado espaço no segmento agrícola do país. Pulses (palavra derivada do latin Puls, que significa sopa grossa), referem-se àquelas leguminosas de sementes secas, como feijão comum e outros feijões (feijão-caupi, feijão-mungo, etc), ervilha, lentilha e grão-de-bico. Como reconhecimento da importância do papel exercido pelas leguminosas na promoção da segurança alimentar em todo o mundo, elas foram declaradas símbolos do ano de 2016 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A Declaração de 2016 como Ano Internacional das Pulses colocou em destaque esses alimentos, que receberam relevância por parte de instituições que, ao lado de outras iniciativas, buscam associar o seu consumo ao combate à desnutrição, considerada a mais grave ameaça mundial da saúde pública.

    Dentre as pulses, o grão-de-bico (Cicer arietinum L.) é uma das mais importantes espécies cultivadas no mundo, com uma produção anual em torno de 15 milhões de toneladas, sendo considerado um alimento com elevado valor nutricional. É uma excelente fonte de proteína vegetal (cerca de 21 g / 100 g do grão), fornece também minerais como cálcio, fósforo, ferro e vitaminas A e do complexo B. Rico também em fibras, o grão-de-bico faz parte dos alimentos considerados de baixo índice glicêmico, que são aqueles que, entre os seus benefícios, promovem maior saciedade. Outro ponto favorável ao grão-de-bico, e que pode alcançar mais adeptos, está relacionado à presença na sua composição do triptofano, aminoácido responsável pela produção da serotonina, que é a substância que promove a sensação de bem-estar; por isso, em algumas vezes, é chamado do grão da felicidade. 


    Apenas para contextualizar, existem dois principais grupos de grão-de-bico: a) Desi, cujas sementes são pequenas e angulares, com superfície rugosa, e apresentam colorações em tonalidades de marrom, amarelo, verde e preto. Corresponde por cerca de 85% da área cultivada no mundo, sendo o consumo mais comum na forma de farinhas e grãos partidos. Esse é o tipo mais produzido e consumido na Índia e países árabes; b) Kabuli, onde as sementes são maiores e possuem cor branca ou bege, características que fazem com que o kabuli seja mais valorizado no mercado. A textura da semente é lisa e o formato é semelhante a uma cabeça de carneiro. Em relação ao tipo desi, o kabuli tem níveis mais elevados de sacarose e níveis mais baixos de fibra. Esse é o tipo mais consumido fora do mundo árabe, inclusive no Brasil. 

    O Brasil tem importado anualmente quase a totalidade do grão-de-bico consumido, o que gira em torno de 8 mil toneladas, representando algo em torno de 12 milhões de dólares. Entretanto, esta situação está se modificando, devido ao aumento substancial da produção nacional nos últimos anos. Há cinco anos, a área cultivada com grão-de-bico no país era inexpressiva (poucos hectares), passando a ocupar, em 2018, cerca de 8.000 hectares. O cultivo do grão-de-bico está se tornando realidade no Bioma Cerrado, notadamente nos estados de Goiás e Mato Grosso, graças às pesquisas agrícolas voltadas para o manejo da cultura e da disponibilidade de novas cultivares adaptadas às condições edafoclimáticas do Brasil. Estas cultivares (todas do grupo kabuli) são altamente produtivas, e chegam a produzir acima de 2.500 Kg/ha (a média mundial é de 900 Kg/ha), com boa tolerância a doenças de solo, adaptadas à colheita mecânica e apresentando uma dupla finalidade para o mercado, tanto grãos secos ou como grãos reidratados e enlatados. Em áreas comerciais de produção de grão-de-bico, produtores têm conseguido produtividades variando de 2.000 kg/ha (regime de sequeiro) a 3.000 kg/ha (regime irrigado).


    O cultivo desse grão, pouco conhecido pelos agricultores brasileiros, pode ser uma opção de cultivo no período de safrinha (ou segunda safra), bem como no período de inverno sob irrigação. Período seco, clima favorável e médias altitudes tornam algumas regiões brasileiras aptas para o seu cultivo. Trata-se de uma espécie mais rústica quando comparada com outras leguminosas, exige menos água e adubo e, assim, apresenta um custo de produção bem menor, isto é, cerca de 40% quando comparado com o feijão, por exemplo. Uma outra vantagem do grão-de-bico é em relação a problemas fitossanitários, pois esta espécie não atrai a mosca branca (diferentemente do feijão, soja etc), e o aparecimento de doenças foliares na cultura é ainda bastante reduzido. Neste último aspecto, com a proposta de fomentar a produção nacional de grão-de-bico, além do desenvolvimento de cultivares, a pesquisa deve entregar respostas sobre o controle de pragas e doenças que afetam a produtividade da cultura, principalmente porque o cultivo, em algumas regiões, vem sendo realizado em sucessão com soja e outras commodities. Portanto, é preciso considerar as pragas e doenças presentes em todas as culturas que compõem a paisagem agrícola das regiões produtoras. 


    Outro ponto importante é a menor disponibilidade de produtos fitossanitários registrados para a cultura do grão-de-bico no país; a curto prazo, a “extensão” de produtos registrados para a cultura do feijão, por exemplo, poderiam ser utilizados em grão-de-bico. 

    Vale salientar ainda que é uma cultura totalmente mecanizada, onde as máquinas utilizadas para a produção de outros grãos podem ser utilizadas, tanto na semeadura, como na colheita, passando pelas pulverizações. Um maior cuidado em relação às sementes é com a possibilidade de danos mecânicos; como a semente de grão-de-bico é grande, com tecido de reserva cotiledonar, e apresentando um “biquinho”, cuidados na semeadura devem ser tomados, e neste aspecto semeadeiras de precisão são as mais recomendadas. O mesmo cuidado deve ser observado durante a operação da colheita, evitando assim a quebra de grãos (especialmente naquelas cultivares que apresentam grãos maiores, a exemplo da ‘Cicero’), reduzindo assim perdas de descarte durante o beneficiamento, bem como o seu valor comercial. Em adição, danificações mecânicas durante a colheita e beneficiamento prejudicam a qualidade fisiológica das sementes, afetando a sua germinação e vigor.


    Ainda com relação ao insumo sementes, nos últimos anos, o grande gargalo verificado na cadeia produtiva do grão-de-bico era a baixa disponibilidade de sementes aos agricultores; tanto é que, no ano de 2018, parte das lavouras no país foi estabelecida com grãos e não com sementes. É sabido que a utilização de grãos ou mesmo sementes produzidas informalmente faz com que os usuários corram um grande risco durante o estabelecimento das lavouras e ou no decorrer da produção. A Embrapa, detentora da totalidade das cultivares de grão-de-bico disponíveis no mercado, vem, juntamente com parceiros licenciados, fomentando a produção de sementes no país para atender a esta grande e crescente demanda. Por meio de Editais públicos, tem sido fornecido às empresas sementes genéticas e básicas de várias cultivares de grão-de-bico (ver https://www.embrapa.br/cultivares/editais?link=veja-tambem). 


    Neste mesmo ano de 2018, de acordo com a base de dados do Sigef/Mapa, foram registrados 15 campos de produção de sementes (categorias genéticas, básicas, C1 e S2) das cultivares disponíveis no mercado nos estados de GO, MG, MT além do DF. Espera-se assim regularizar o sistema de produção de sementes no país, evitando ou minimizando a utilização de sementes “salvas”, que são aquelas produzidas informalmente pelo produtor, e, as vezes, sem os requisitos básicos na produção. Conforme mencionado anteriormente, sementes produzidas neste “sistema informal” são de qualidade (genética, fisiológica e sanitária) duvidosa. O monitoramento, por parte da Embrapa, da qualidade fisiológica (germinação e vigor) dos lotes de sementes de grão-de-bico produzidos no país também tem sido realizado rotineiramente, e tem comprovado uma ótima qualidade das sementes produzidas no país. 

    Vale salientar que várias ações de pesquisa relacionadas à tecnologia e análise de sementes estão sendo conduzidas por diferentes instituições brasileiras. Trabalhos relacionados a locais e épocas para produção de sementes, maturação, colheita e beneficiamento de sementes, além de metodologias para avaliação da qualidade fisiológica das sementes, dentre outros, tem sido intensificados nos últimos anos. 


    O trabalho de transferência da tecnologia junto às empresas de sementes, produtores e cooperativas também está sendo feito pela Embrapa e parceiros, uma vez que a maioria das empresas não conhece bem o produto, e nem o sistema de produção. Esta “novidade” no país, aos poucos vai caindo nas graças dos produtores, a partir do momento que também a pesquisa (Embrapa, e parceiros – instituições públicas e privadas, bem como os produtores) vem gerando informações e tecnologias para a produção de grão-de-bico nas condições edafoclimáticas do Brasil.

    Além da diversificação na propriedade, o grão-de-bico aparece como uma ótima alternativa de cultivo, com uma produção que pode ser dirigida inicialmente para abastecer o mercado interno. Atrás apenas da soja em termos de consumo mundial, o grão-de-bico ainda é pouco consumido no Brasil, mas aumentam as apostas em torno de um crescimento nesse sentido, a partir do aumento da produção e do interesse de empresas processadoras. Ainda, com o aumento da produção interna, espera-se uma redução do preço do produto ao consumidor, atualmente bastante elevado (hoje chega a R$ 30,00/Kg), que poderá, de certa forma, aumentar o seu consumo.


    No Brasil, a comercialização do grão-de-bico majoritariamente é na forma de grãos secos (embalagens de 500 gramas), mas já se observa no mercado produtos enlatados (reidratados) ou mesmo cozidos e embalados a vácuo, pastas de grão-de-bico (Homos ou Hummus), grãos torrados, dentre outros. Mesmo com todos os benefícios de caráter nutricional, o consumo no Brasil não passa de 40 gramas por habitante/ano, porém esse número pode aumentar diante da popularização da cultura e em virtude do número crescente de adeptos da dieta vegana ou vegetariana e da alimentação saudável e sustentável. 

    Quanto ao mercado externo, especialmente para os países asiáticos e do Oriente Médio, onde o consumo é elevado, pode ser uma segunda via do escoamento da produção, beneficiando assim os produtores com capacidade para exportação. Em 2016, parceiros da Embrapa chegaram a exportar algumas toneladas do produto; essa exportação pode ser vista como um ensaio para chegar a outros mercados, porque existe um interesse crescente de países árabes e asiáticos pela importação de leguminosas. 



    Finalmente, ações de incentivo ao consumo de grão-de-bico no país estão sendo intensificadas este ano pela Embrapa, Ibrafe (Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses) e demais parceiros, visando assim não só esclarecer a população sobre os benefícios deste importante grão como da sua versatilidade na confecção de pratos, com consequências diretas no aumento do consumo de grão-de-bico pela população brasileira.

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