A grande onda de STARTUPS no mundo do agronegócio

Fabricio Becker Peske - fabricio@seednews.inf.br | Sandro Nornberg - sandro.nornberg@partamon.com

    O livre mercado, terreno fértil para empreendimento e surgimento de novas empresas e tecnologias, possui em sua base constantes quebras de paradigmas, as quais incluem renovação e até mesmo eliminação por completo de negócios consolidados por séculos. A tecnologia e seus frutos é o principal catalisador destas mudanças, seja no agronegócio ou qualquer outro mercado de oferta e demanda. 

    O sucesso de novos negócios num mundo globalizado e dinâmico requer cada vez mais uma base tecnológica inovadora, que decorre de conhecimentos científicos. Por meio da ciência conhecemos o novo, e a utilização deste conhecimento gerado contribuirá decisivamente na inserção no mundo da inovação global. O investimento em ciência e tecnologia constitui uma questão estratégica para um país, que precisa pensar além da exportação de commodities e a dependência de tecnologia de outras nações.

    A inovação é uma importante fonte para gerar valor ao setor produtivo, por meio do desenvolvimento de novos produtos, processos ou modelo de negócios. Historicamente, o processo de inovação, de levar o desenvolvimento científico e tecnológico ao mercado, era realizado basicamente por grandes empresas, sendo considerada uma inovação fechada. Atualmente, os conceitos de inovação aberta e inovação disruptiva estão em alta e são o caminho para que novas empresas ou modelos de negócio inovadores, como as chamadas “Startups”, possam trabalhar com pesquisa e desenvolvimento, gerando tecnologias inovadoras.

    Com o acesso a informação e o aumento das tecnologias digitais, internet, big data, inteligência artificial, criou-se um ambiente propício para estes conceitos de inovação. Com isso, vem ocorrendo uma nova revolução, onde são desenvolvidas tecnologias e modelos de negócios que modificaram os setores tradicionais estabelecidos, criando mercados inteiramente novos, onde atuam as Startups. Embora as grandes empresas agrícolas destinarem uma boa parte de recursos para pesquisa e desenvolvimento, algumas das maiores ideias para agricultura de precisão tem tido origem em Startups, as quais se caracterizam por ter equipes pequenas, flexibilidade, capacidade de resolver problemas pontuais e rápida interação. Esse modelo tem dado certo em outros setores, visto que algumas marcas globalmente conhecidas, como Google, Facebook, Tesla e Uber iniciaram como startups e hoje estão entre as empresas mais valiosas e inovadoras do mundo.

    Nos últimos anos, muita atenção tem se voltado à agricultura, devido a muitos avanços em ciência e tecnologia no campo, principalmente em países como o Brasil, cuja base de crescimento do PIB é fortemente impulsionado pelo agronegócio, uma indústria que mundialmente representa de US$ 7,8 trilhões e é responsável por empregar bem mais de 40% da população global.

    O Brasil é uma economia significantemente dependente da agricultura e pecuária, sendo vital para a sua economia que empresas do setor evoluam e cresçam, beneficiando a todos os ramos ligados direta ou indiretamente à produção agropecuária. A agricultura brasileira evoluiu graças à pesquisa, os conhecimentos gerados e as novas tecnologias que originaram inovações e viabilizaram a agricultura tropical. Contudo, novas demandas, e consequentemente novos desafios, têm surgido, exigindo novos conhecimentos científicos e o desenvolvimento de tecnologias inovadoras para a manutenção da agricultura brasileira num patamar de destaque.

    O desafio de produzir mais alimentos, num contexto de sustentabilidade e otimização de recursos naturais, passa primeiramente por uma melhoria da eficiência agrícola. Para este avanço, é fundamental a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias, principalmente em manejo (práticas culturais, condições de solo, clima, além de como e quando controlar as  pragas) e genética (cultivares mais produtivas e adaptadas às diferentes regiões e condições climáticas) utilizando técnicas atuais para melhoramento e edição de genes.

    Com relação à tecnologias para o manejo, o Brasil já colhe os resultados da Agricultura 4.0, por meio da adoção de ferramentas da Agricultura de Precisão. Houve uma revolução tecnológica no campo, como a adoção de Inteligência Artificial, robótica e Internet das coisas (do inglês IOT), boa parte graças à atuação de Startups chamadas Agritech, ligadas ao agronegócio.


    As Startups, que têm mais agilidade e disposição para assumir os riscos intrínsecos ao processo de inovação, têm atuado justamente num grande problema no campo, que é eliminar a lacuna existente entre a pesquisa e desenvolvimento da tecnologia e sua chegada ao usuário final, mostrando ao agricultor que existem meios inovadores e a seu alcance para interferir no processo de gestão e manejo, com impactos no custo da produção.

    Quando partimos para a manipulação e a pesquisa de moléculas ou agentes biológicos, o processo não é tão simples quanto desenvolver um aplicativo ou escrever um código de computador. Contudo, grandes avanços aconteceram no desenvolvimento de novos métodos e equipamentos, tornando a atividade de pesquisa em biotecnologia viável e como potencial de negócio para Startups. Ademais, hoje temos um ambiente favorável para o início de uma Startup, valendo-se de ecossistemas de inovação já existentes (incubadoras e parques tecnológicos) e dos processos de aceleração de novos negócios já bem difundidos com as Startups chamadas Agritech. Cabe destacar também o novo marco legal de ciência, tecnologia e inovação no Brasil, que alterou regras importantes, favorecendo a criação de um ambiente de inovação mais dinâmico, possibilitando a cooperação e interação entre os entes públicos, os setores público e privado e entre empresas. 

    Neste cenário, observa-se um ambiente favorável para a criação de empresas de base tecnológica com foco em biotecnologia, tornando-as a nova onda das Startups.

    Novas empresas com produtos ou modelos de negócio inovadores, chamados de “Startups”, enfrentam muitos desafios desde sua concepção e até consolidação. Assim, pode-se considerar que há cinco estágios que cada “Startup” irá vivenciar até atingir sucesso de seu negócio:

    Gatilho Inicial da Tecnologia: Novas tecnologias avançam e se modificam oferecendo oportunidades de negócio a todo momento. Assim, neste estágio, há muitas expectativas e a gama de ideias é bem variada, não havendo certeza de quais irão realmente se tornar compensativas no futuro. 

    Pico Inflacionado das expectativas: Muitas tecnologias ou modelos de negócio apresentam um enorme prospecto de potencial, recebendo significativa atenção dos investidores, os quais geram expectativas inflacionadas do empreendimento, que por sua vez podem (em muitos casos) demorar mais do que o esperado para conquistar o mercado ou, até mesmo, desiludi-los por completo.

    Vale da Desilusão: Ao não apresentar um retorno desejado dos investimentos dentro do período esperado e não atender às expectativas em geral, muitos negócios passam por um período de provação, dentre os quais muitos não sobrevivem.

    Iluminação: Ao haver clara perspectiva de crescimento do negócio e retornos financeiros começarem a surgir, pode-se considerar que o empreendimento está pelo menos superando os piores cenários possíveis e iniciando um empolgante momento de conquista do mercado no qual esteja inserido.

    Platô de Consolidação: Claramente sonhado por todos os empreendedores, pode-se dizer que este estágio é a plena consolidação do negócio no mercado, o qual irá permanecer por anos ou décadas. 

    Os organismos geneticamente modificados (OGMs) são um exemplo claro de tecnologia e negócio que enfrentaram todos estes cinco estágios até atingir sua consolidação no mercado. Sendo inicialmente desenvolvidos na década de 1980, os OGMs enfrentaram muitas barreiras mercadológicas ao redor do mundo, sendo necessário quebrar muitos paradigmas para não sucumbir ao “vale da desilusão”, o qual no Brasil suportou ainda maiores atrasos para sua implementação ao longo dos primeiros cinco anos do século XXI. Felizmente, neste caso, a demanda de mercado demonstrava-se tão significativa que o volume expressivo de pirataria de sementes geneticamente modificadas trouxe força para o desenvolvimento de leis de biotecnologia e futura liberação no país. Hoje, podemos considerar que OGMs são tecnologias plenamente consolidadas e que já avançam para ter de múltiplos (acima de 3) “traits” (ou eventos) em cada cultivar.


    Similar ao ocorrido com OGMs, todas as novas tecnologias necessitam enfrentar duas lacunas específicas para atingir o mercado. A primeira lacuna existe entre os laboratórios de pesquisa científica dentro das universidades e instituições de pesquisa (como Embrapa, no Brasil) e o mercado, o qual inclui venda de produtos e serviços aos agricultores. Através dos anos, investimentos significativos (alcançando bilhões de reais) são inseridos nas instituições para desenvolver tecnologias inovadoras, porém, mesmo assim, ainda é necessário traduzir a pesquisa em negócios viáveis de “Startups” no mercado.

    A segunda lacuna, por sua vez, existe entre Startups e negócios consolidados. Neste caso, muitas Startups tornam-se grandes empresas ou são absorvidas (adquiridas) por demais empresas no setor, as quais enxergam o valor substancial da tecnologia. 

    Ambas as lacunas são barreiras que irão testar a tecnologia a fundo, causando a desintegração de muitos negócios e empresas ao longo do caminho.

    Outro aspecto relevante para a consolidação de empresas iniciantes ou Startups de biotecnologia é a disponibilização de formas de fomento para este tipo de negócio, considerando que os empreendedores precisam de recursos para sobrevivência e o desenvolvimento de biotecnologia demanda mais tempo e mais recurso.

    Atualmente, o novo conceito de edição de genes através de ferramentas como CRISPR-Cas9, TALENs e ZFNs já ultrapassou a primeira lacuna entre a ciência e o mercado, tendo empolgado muitos empreendedores e atraído muitos investidores para a criação de novas “Startups” ao redor do mundo. 


Nos últimos anos, muita atenção tem se voltado à agricultura, devido a muitos avanços em ciência e tecnologia no campo, principalmente em países como o Brasil, cuja base de crescimento do PIB é fortemente impulsionado pelo agronegócio, uma indústria que mundialmente representa US$ 7,8 trilhões e é responsável empregar bem mais de 40% da população global.


    Os organismos produzidos através da edição de genes são literalmente materiais GM, mas diferem dos primeiros OGMs de maneiras importantes. Primeiramente, porque seu desenvolvimento demanda bem menos tempo para conclusão do que os OGMs, reduzindo o período necessário dentre pesquisa e regulamentação de anos para apenas alguns meses. Isto ocorre porque, na maioria dos casos, nenhum material genético de outra espécie é introduzido e, quando ocorre, é inserido em uma localização genômica precisa, sendo que as mudanças que são introduzidas são muitas vezes aquelas que poderiam ter ocorrido naturalmente.

    Entre os exemplos atuais de culturas editadas, estão:

- variedades de Batatas que não adoçam durante o armazenamento;

- variedades de Soja com produção de mais raízes sob o solo;

- variedades de Cacau com melhor sistema imunológico, a fim de resistir a um vírus;

- variedades com mais resiliência para combater um fungo;

- evitar o dispendioso processo de remoção da cafeína, que pode afetar o sabor do Café, desenvolvendo uma variedade para ser naturalmente descafeinada;

- fixação da heterose de híbridos da geração “F1” de Arroz através de sementes clonadas;

- geneticistas identificaram 13 notas críticas de sabor em heranças de Tomates, as quais podem ser adicionados às variedades modernas para aumentar o sabor;

- os cientistas identificaram um gene em uma variedade de Milho nativo que produz mais grãos sob condições de seca; 

– variedades de Trigo que produzem cepas significativamente menores nas proteínas do glúten que causam a doença celíaca.

    No entanto, apesar das expectativas para este negócio serem altas, ainda não há plena clareza de qual será seu impacto e quanto tempo demorará até atingir sua consolidação no mercado.

  

    Hoje, existem milhares de startups de tecnologia agrícola em todo o mundo, e alguns especialistas salientam que a situação lembra os primeiros dias da internet: há muita atividade na agricultura, mas ainda não há clareza sobre quem serão os vencedores de cada ramo.

    Além dos avanços em biotecnologia, a agricultura tem testemunhado rápido crescimento em outras áreas, como por exemplo: softwares de gerenciamento e rastreamento de dados no campo; mecanização e robóticos; novos sistemas de agricultura de precisão; processamento de bioenergia; e comercialização de produtos e equipamentos agrícolas. 

    Um exemplo significativo recente foi a aquisição da Startup chamada de “Blueriver Technology” pela JohnDeere por US$ 305 milhões, em 2017, a qual enxergou potencial no sistema criado através de visão computacional, “big data” e inteligência artificial que auxiliam em diversas etapas do cultivo. Com o auxílio de sensores e câmeras acoplados aos equipamentos de campo, as pragas, doenças e plantas são registradas, gerando recomendações específicas e propriamente localizadas ao agricultor. 

    O volume de “Startups” ao longo dos anos tem crescido exponencialmente em todos os ramos ligados à agricultura, os quais subiram de algumas dezenas para centenas de empresas em menos de dez anos nos EUA. 

    Já no Brasil, de acordo com o “2˚ Censo Agritech de Startups”, o crescimento também tem sido vertiginoso. Somente os anos de 2016 e 2017 foram responsáveis por 59% das Startups abertas, sendo que aproximadamente 54% destas empresas investem em produtos e tecnologias que dependem de conectividade no campo, estando inseridos principalmente nos ramos de suporte à decisão, IoT & Hardware, softwares de gestão agrícola, agricultura de precisão, consultorias, e comercialização de produtos agropecuários.

    De acordo com Associação Brasileira de Startups (ABStartups), até final de 2018, havia cerca de 182 startups de agro em atividade no país. Do total destas, 20% a 23% já faturam mais de R$ 1 milhão ao ano, e cerca de 25% faturam entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão ao ano. Segundo o mapeamento, 76% usam a conhecida forma SaaS (Software/programa como um serviço, na tradução para o português) para gerar receita. Sendo ainda, que 69% dos negócios estão dedicados a resolver problemas da porteira para dentro. 


    Do aumento de produtividade e redução nos custos às tomadas de decisão mais ágeis e assertivas, as novas ferramentas têm focado principalmente na sustentabilidade. Com a adoção de muitas tecnologias oferecidas por Startups, tem sido possível agregar valor aos produtos, bem como a viabilização dos sistemas de produção diferenciados, assim como a integração lavoura-pecuária e florestas.

    A biotecnologia, a qual cresce a passos largos nos demais países no mundo, não figura entre os ramos com maiores investimentos no Brasil, representando menos de 2% das empresas até o momento.

    Nos últimos 20 anos, a economia de nosso país não tem sido um dos melhores ambientes do mundo para motivar empreendedores, e principalmente inovações, havendo muitas barreiras para os saltos iniciais de negócios tão disruptivos como as Startups. Conforme levantado pelo 2˚ Censo, 47% das empresas consideram no mínimo difícil obter investimentos, sendo que, quando presentes, têm aproximadamente 39% do capital com origem de investidores “anjos”, familiares, amigos ou capitais de risco.

    Contudo, para suprir as necessidades da agricultura brasileira, frente às exigências de maior produção dentro de um contexto de sustentabilidade, é imperioso tornar este cenário uma grande oportunidade aos empreendedores. Há uma grande quantidade de jovens brasileiros, muitos com pós-graduação, que podem utilizar seu maior ativo, que é o conhecimento, na construção de negócios de base tecnológica, tendo uma visão da ciência sobre a dinâmica das necessidades da agricultura brasileira. Seria recomendável que instituições de pesquisa públicas pudessem assumir ou compartilhar o risco tecnológico inerente ao desenvolvimento de tecnologias inovadoras, por meio de linhas de fomento às Startups de base tecnológica, considerando áreas como biotecnologia, ou mesmo políticas que facilitem e motivem a iniciativa privada a investir em novas e inovadoras empresas. Uma vez ultrapassada a primeira lacuna – o risco tecnológico –, as Startups assumirão o risco mercadológico e, com o domínio de uma tecnologia inovadora, as chances de sucesso e geração de emprego e renda será uma realidade.

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