O Monte Roraima e seus Ensinamentos à Vida e aos Negócios

Edição XXII | 06 - Nov . 2018

Glauber Leite - ghpleite@yahoo.com.br

Certo dia, durante o café da manhã, minha esposa surpreendeu-me com um convite inusitado. Disse ela: “Vamos subir o Monte Roraima? Trekking. Vamos?”. E eu: “Como? Trekking? Monte Roraima?”. Logo depois à surpresa minha esposa explicou-me os benefícios físicos e mentais do trekking. Eu confesso que fui contagiado por seu entusiasmo e por sua paixão, mas fui convencido pelas fotos, e em especial, pelo desafio. O desafio de superar as dificuldades impostas pelo Monte Roraima. Eu pensei e disse à ela: “Estou dentro. Quero estar no topo. Quero uma foto na Pedra Maverick. Quero uma foto na Pedra La Ventana. Quero relaxar nas Piscinas Jacuzzi”.

O fato é que quando eu encarei o Monte Roraima, frente a frente, fiquei admirado, atônito, entorpecido por sua grandiosidade, majestade e imponência. Ao longo dos sete dias de caminhada (aproximadamente 120 km percorridos ou mais) – celular desligado (pela ausência de sinal), desconectado de redes sociais e do mundo, sujeito às intempéries do clima (sol, frio, chuva, neblina), privado do conforto e das facilidades cotidianas, adicionando a fadiga diária – o Monte Roraima proporcionou-me uma experiência ímpar de caminhada para o autoconhecimento e superação de desafios. Os ensinamentos do Monte Roraima e as marcas gravadas em mim (querendo ou não) extrapolaram os dias de caminhada, com significativo reflexo em minha vida pessoal e profissional, e alguns ensinamentos compartilho com vocês.




O primeiro ensinamento: Transforme seu sonho em meta, compartilhe seu sonho com vencedores e tenha planejamento. Eu relembro o início da história, isto é, o sonho de alcançar o cume do Monte Roraima era de minha esposa, e posteriormente tornou-se meu. Sim, sonho! Lembre-se que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que sonha junto é realidade”. O sonho na ausência de pesquisa, leitura e entendimento do cenário, e na inexistência de cronogramas e checklists para tomada de ações (ou decisões) preventivas e corretivas, certamente se torna delírio ou loucura. Portanto, sonhe! Mas transforme seus sonhos em planos, tenha planejamento, com metas e indicares claros e fáceis para medir o progresso da evolução e evidenciar o sucesso, o sonho concretizado. E, não menos importante, confie e compartilhe seus sonhos com sonhadores, com vencedores, com entusiastas, com otimistas, porque em muitos momentos você irá precisar de doses de ânimo e encorajamento, enquanto em outros, você será a dose. O sucesso, a vitória, a conquista, não são solitários!  

O segundo ensinamento: Atitude é tudo e motivar o outro é fundamental. Em muitos momentos durante a caminhada nós nos deparamos com obstáculos – travessia de rios, salto entre rochas e fendas, rochas escorregadias, altitude, respiração controlada, subidas e descidas intermináveis – e nesses momentos o pensamento em desistir torna-se incansavelmente seu companheiro de viagem. Porém, o objetivo final deve ser alcançado e ninguém deve ser deixado para trás. Porém, pelo simples gesto de ouvir e compreender os limites do outro, suas fraquezas e fragilidades, nesses momentos você se torna a força propulsora da superação ao outro por meio de palavras de apoio, de motivação, de conforto, resgatando e relembrando suas fortalezas. Mas de fato, a atitude de vencer o obstáculo é do outro, ou seja, como disse a atitude é tudo e, uma pequena vitória trás consigo outras pequenas vitórias, que tendem a se repetir inúmeras vezes, ao ponto de você conquistar grandes vitórias. Enfim, você alcançou o sucesso almejado. Portanto, na vida ou nos negócios, tenha em torno de si pessoas que motivam você e impulsionam você a realizar o impossível, a superar limites, a suplantar barreiras.

O terceiro ensinamento: O sucesso exige disciplina, persistência e sacrifício, até mesmo doses de sofrimento. Nesse ponto eu gostaria de esclarecer a diferença entre sofrimento e sacrifício, ou seja, o primeiro retrata a dor física, moral ou emocional, enquanto o segundo reflete sua oferta de valor para obter algo de maior valor aos seus olhos. Para vencer o Monte Roraima foi preciso muita disciplina – despertar logo no início da manhã, vestir-se, tomar um café da manhã reforçado, aprontar a mochila e caminhar (às vezes por horas) até o destino, descansar/relaxar – e a disciplina foi seguida rigorosamente todos os dias, no sol, na chuva, no calor, no frio. Não importa, disciplina foi fundamental. No topo no Monte Roraima, por várias vezes nós caminhamos com foco num destino e numa determinada paisagem, a foto esperada. Sim, esperada! Por quê? Porque por vezes a paisagem não refletia nosso desejo, as fotos esperadas. O que fazer? Fazer de novo. Aumentar o esforço, manter o foco no objetivo (nas fotos esperadas), esquecer as condições negativas vivenciadas e percorrer o caminho novamente. Aqui nós chegamos ao sofrimento e ao sacrifício, ou seja, ausência de mordomias e facilidades da vida moderna, banho gelado (ou não tomar banho), dormir no chão, dominar as dores musculares e a fadiga, e seguir em frente. Outro ponto importante refere-se à maturidade para aceitar a derrota, isto é, aceitar que nem sempre (ou nem todo) esforço, sofrimento e sacrifício irão resultar em sucesso conforme o objetivo inicial traçado. Por quê? Porque simplesmente mudanças acontecem. Mudanças que não foram previstas no planejamento. Mudanças que fogem ao circulo de nosso poder e controle. Portanto, a reflexão conduz a conclusão de que não há diferenças entre os desafios impostos pelo Monte Roraima e a vida pessoal e profissional. É preciso disciplina, persistência, sacrifícios e doses de sofrimento para vencer. E você pode se perguntar: “E a adaptação à mudança?”.

O quarto ensinamento: A mudança vai acontecer, portanto, seja ágil para adaptar-se rapidamente e ajudar o próximo. Como mencionado anteriormente, por vezes nós iniciamos a caminhada no Monte Roraima buscando a paisagem perfeita para a foto perfeita. Contudo, o clima instável é capaz de surpreender até os mais experientes, nossos guias, e temos de enfrentar as estações do ano – verão, inverno, outono, primavera – em frações de segundos. Incrível. Assim, a mochila aprontada no inicio da manhã é seu refúgio, ela permite à você agilidade na adaptação, ou não, e nesse último caso, o parceiro de caminhada torna-se seu refúgio, ou seja, você é dependente. Portanto, quando a mudança chegar (e ela vai chegar!) seja ágil, esteja pronto para adaptar-se rapidamente, e mais rápido ainda, seja solícito em prestar ajuda ao outro nessa fase de mudança e adaptação.

O quinto ensinamento: Respeito, humildade e paciência. O líder da expedição, em algumas oportunidades, questionava sobre nosso estado físico e mental para estabelecer o desafio, o objetivo diário. Nesse momento, cada indivíduo exteriorizava seus sentimentos, seus pensamentos e expressava seu voto a favor ou contra o desafio e, por vezes, por força da maioria meu voto foi perdido. Portanto, é preciso estar preparado para ouvir atentamente os outros, respeitar a divergência de pensamentos e opiniões, respeitar suas limitações – física ou emocional – e a partir daí adaptar-se rapidamente à mudança de planejamento e “surfar” a nova onda. Ainda sobre humildade, é importante estar pronto para liderar e disponível para ser liderado. Por vezes nós seguimos o trajeto de caminhada definido pelo líder da expedição, por outras vezes nós nos tornamos nosso próprio líder e definimos nosso próprio trajeto, nem sempre fácil. O que nos resta? O fato e a certeza de que o líder da expedição tem total conhecimento dos atalhos e estando disposto a nos ensinar o melhor caminho, humildemente voltamos atrás e tornamos a segui-lo. Com relação à paciência, no Monte Roraima você aprende que, conhecendo e respeitando os limites do outro, seja físico, mental ou emocional, embora cada um tenha seu ritmo de caminhada, acelerado ou lento, todos chegam juntos e partem juntos do mesmo ponto. Ou seja, você estabelece e ajusta seu ritmo conforme o grupo ou assume a decisão de aguardar.

O sexto ensinamento: Esteja pronto para assumir riscos, tomar decisões e assumir as consequências. Como dito anteriormente, o Monte Roraima nos proporciona cenários perfeitos, para fotos perfeitas. Todavia, incontáveis vezes, quando percorríamos o caminho ao destino, nós tínhamos de tomar a decisão de alterar nossa rota de caminhada em solidariedade e respeito às limitações do outro. Nessa ocasião, nós aceitávamos o cenário de que possivelmente a paisagem perfeita, para a foto perfeita, poderia ser perdida pela instabilidade climática (fato que frequentemente repetia-se). Nessa situação, sem dúvida, o sentimento de decepção é inevitável. Porém, nós relembramos os ensinamentos anteriores, nos fortalecemos, e seguimos em frente. Juntos. Sempre juntos.

Por fim, o sétimo ensinamento: Com alegria e trabalho em grupo tudo torna-se mais fácil. Aqui eu relato a alegria contagiante do líder e dos membros da expedição, os quais submetidos às intempéries do clima por vezes hostil do Monte Roraima e à fadiga, sempre, sem exceção, nos prestavam auxílio, suporte, apoio e serviços. Contudo, você pode perguntar a si mesmo: “Claro. Eles cumprem o papel de ótima receptividade aos desbravadores para que possam retornar”. Porém, eu afirmo que por meio de conversas pude constatar o fato de que poucos retornam ao Monte Roraima, ou seja, a alegria não dá-se por obrigação, mas é genuína. Sobretudo destaco o trabalho em grupo, uma vez que cada um dos membros da expedição, incluindo o líder, desempenhava atividades específicas – carregadores, cozinheiro, montagem e desmontagem de barracas e banheiro, gari (ou varredor), outras – isto é, todos trabalhavam em benefício do grupo, expedição e desbravadores, e independente da atividade exercida, todos tinham um único objetivo, assegurar que todos atingissem o topo do Monte Roraima nas melhores condições possíveis. Nessa ocasião, eu acredito fortemente que, semelhantemente à nossa vida pessoal e profissional, a alegria e o trabalho em grupo são os combustíveis essenciais para a superação dos desafios e o alcance das metas.

Finalizo o artigo desejando a todos que permitam a si mesmo experimentar o novo, novos ares, novos desafios, novas emoções. É fato: “Você irá surpreender-se!”.

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