Qualidade de sementes e gestão por resultados

Edição XXIII | 01 - Jan . 2019

Maria de Fátima Zorato - fatima@mfzorato.com.br

    “... se um grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto” (Evangelho de São João, cap.12, vers. 24).


    Este texto está no sentido de refletirmos sobre algumas questões que têm sido recorrentes. A semente é repleta de mistérios. Existem muitos estudos, há muitos anos, em instituições e entre pesquisadores renomados, bem como muitas elucidações utilizando tecnologias hodiernas que fazem o avanço pujante da agricultura. Entretanto, no que tange ao potencial fisiológico, ainda ocorrem situações nas quais permanecem lacunas. Às vezes, fica complexo entender o que está oculto aos nossos olhos. Quando sintonizamos com os limites biológicos, precisamos aprender a analisar os riscos e decidir sobre eles para minimizar prejuízos das mais diversas ordens, predominando, na empresa de sementes, o setor financeiro e a imagem de mercado.

    Contextualizando, é necessária a interação da equipe de produção de sementes para o trabalho conjunto, não negligenciando as evidências no processo e construir soluções que atendam a demanda. Portanto, devemos lançar mão de todas as ferramentas disponíveis e buscar a eficácia visando atender metas e objetivos relevantes.

    Questão: o setor de semente, no geral, leva em conta a gestão por resultados – expressão referente ao processo de definição de objetivos específicos, de modo que todos possam trabalhar para atingi-los em sequência e, que de acordo com especialistas, depende de pilares como a transparência, a objetividade e o engajamento das pessoas, para fazer acontecer. 


    A GESTÃO NA PRODUÇÃO DE SEMENTES

    O sistema de produção de sementes está num crescente no Brasil. Atualmente, é uma realidade encontrar em campo, em unidades de beneficiamento de sementes e nos laboratórios de análise de sementes profissionais técnicos extremamente qualificados. Que bom para a agricultura pujante do país. Mas, como nem tudo são flores, o mistério da semente, dependendo de espécie, do genótipo, de condições climáticas, de infraestruturas e de gerenciamento disso tudo, pode se manifestar de um jeito não conforme, para utilizar o termo do Sistema de Gestão. Esta não conformidade, ou melhor, o não atendimento de um requisito, quer dizer não atendimento às expectações da qualidade de produto, principalmente ao almejo do cliente. Este fato cria uma série de opiniões, de que houve um erro, alguém foi o culpado, etc e, de maneira geral, o laboratório que analisa a qualidade leva a carga da frustração.  

    Desta feita, a pergunta: onde está o processo? Quando ele está implantado, não existe culpado, existe sim falha em alguma parte. Será que uma produção cada vez mais tecnológica, consequentemente mais onerosa, não deve empreender ações resolutivas que alcancem os objetivos, considerando o ser biológico? Implementar gestão por resultados e não ter medo de fazer perguntas – como: será que estamos trabalhando da forma mais eficiente? será que estamos interpretando resultados como devem? será que os indicativos dos testes aplicados estão sendo levados em consideração? – podem trazer oportunidades de melhorias.


    Liderança e envolvimento do laboratório de sementes nas determinações com produto biológico

    A Liderança é mandatória sobre todos os aspectos. Desde o campo até a entrega do produto final, muitos processos são executados e, em cada fase, resoluções importantes são decididas. Inegavelmente, na finalização, todos assinam o produto, inclusive com os setores anexos à produção, como o comercial e a logística. O “pacote qualidade” é avaliado pelo cliente como um só. Ele observa e critica o serviço que está sendo entregue a ele, que adquiriu e pagou pelo todo. Portanto, assumir a responsabilidade pelas consequências da decisões e ações emitidas é preponderante numa empresa sementeira, para criar a concorrência perfeita, num mercado de competitividade aguerrida. A concretização de uma lavoura de sucesso exige muito de todo o processo e das pessoas envolvidas, além de contar muito com a colaboração das condições climáticas. 

    Em muitas épocas da produção, as sementes são submetidas às análises em laboratório, para verificar a conformidade da qualidade.

    A grande maioria das empresas, se não possui laboratórios de análise de sementes próprios, credenciados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (MAPA), tem a estrutura montada para efetuar o controle interno da qualidade. Caso não possua a estrutura de análises, recorre aos laboratórios de prestação de serviços. Enfim, todos se cercam das informações sobre a qualidade das espécies produzidas. Vamos exemplificar com a soja, a qual tem o volume de produção de sementes de maior expressividade no país. Os dados extraídos dos testes executados nas diferentes fases para conhecer a qualidade da semente, seja de talhão, de pré-lote ou de lotes formados, têm sido úteis como devem ser? 

    Aqui inicia a batalha. As diferenças nas estratégias se acentuam com o mesmo produto, isto é, a semente das distintas cultivares. É fundamental conhecer o histórico do campo, saber um pouco sobre a cultivar, conhecer os princípios dos testes, para ter noção exata do que aplicar e em que momento. E, mais importante ainda, após os resultados dos testes faz-se necessária a interpretação de todas as informações que cada teste carrega, sobretudo no potencial fisiológico da amostra de semente analisada, em síntese, os tipos de danos incidentes. É real em determinadas regiões do Brasil a semente de soja estar mais desidratada, fato que demanda um conhecimento sobre o que fazer antes de submeter à análise. Isto, muitas vezes, não tem ocorrido e tem causado, além de prejuízos de tempo e financeiro, o descrédito, inicialmente da sementeira e, logo a seguir, do laboratório, que não está fazendo com perfeição seu trabalho técnico. Falta foco? Falta conhecimento técnico? 

    Existem empresas que em seus laboratórios, nos quais o trabalho é realizado com as condições controladas, executam muitos testes e muitas repetições desses. Mas, às vezes, perdem-se nas deliberações. 

    Ainda, quase todos fazem os testes de acompanhamento de emergências, seja de canteiro de areia ou de solo. Uma boa parte, hoje em dia, com cochos de areia. Precisa-se levar em consideração que areia não oferece resistência, a profundidade da semeadura é uniforme, o molhamento é de acordo com toda a necessidade, ou até mais. Mesmo no canteiro de solo, a semeadura é toda acompanhada, para que tenha a emergência de plântulas, sem muito ônus. E, por incrível que pareça, ocorre numa porção considerável de sementeiras o emprego apenas dos dados de canteiro e o desprezo de todos os resultados dos testes e todos seus indicativos, realizados no laboratório. Todavia, existe uma expressão da plântula no início, evidência do dano, tanto na emergência em areia como em solo, que pode não estar sendo levada em análise observativa. Desta feita, pode ocorrer o não entendimento causal de algum problema e da reclamação, se for o caso, no momento de semeadura em campo propriamente dito. Vigor no início e ser mais assertivo nas determinações com o lote ou preferir avaliar apenas a viabilidade final e permanecer no ponto cego da qualidade? Ou então, piores hipóteses: atribuir a frustração ao clima, aos microrganismos e chancelar ao cliente e seus colaboradores o fracasso da germinação e emergência?  


No setor de semente a gestão por resultados envolve a transparência, a objetividade e o engajamento das pessoas, para fazer acontecer.


    Muitos utilizam os testes para verificação da qualidade fisiológica de forma errônea, dependendo da espécie, sem interpretação, e isso faz gerar descréditos e repetições desnecessárias. Onde está o líder? Ou melhor, quem são as lideranças para fazer os debates técnicos, despojados de interesses individuais? Neste tipo de discussão técnica se acomodam os entendimentos e se tomam decisões muito mais coerentes com a realidade.

    Quanto custa o teste incorreto, mal feito ou mal aplicado? Ou de outra maneira, quanto custa um teste bem feito numa amostragem não representativa? Exemplificando com o teste de Tetrazólio em soja em pré-colheita: geralmente se analisam 100 sementes, ou seja, cada semente vale 1% e isso representando talhões que chegam a ser, às vezes, maiores que 100 hectares. Estão sendo interpretados os indicativos do teste ou apenas os valores de vigor e da viabilidade? E muitos outros exemplos existem no setor para serem repensados. É primordial conhecer o princípio de cada teste e fazer uso de melhor responsividade, especificamente. Estão sendo utilizadas as tabelas de tolerâncias dos testes para minimizar repetições?

    Enfim, a abordagem é para mostrar a necessidade de interpretações de resultados obtidos em laboratórios de sementes, mas deixando claro que este ambiente com pessoas qualificadas e bem treinadas é mero verificador de uma qualidade que vem do campo, da UBS, de armazenagens temporárias e, em todas, com potencial de perdas.

    Portanto, quando menciono liderança é no sentido de direcionar a atenção para onde ela necessitar estar. Daniel Goleman escreveu no seu livro “Foco” – “... não é apenas o foco de um único tomador de decisão estratégico que faz a empresa vencer ou quebrar: é toda a amplitude de atenção e destreza que envolve a todos”. Isto se traduz em trabalhar num contexto maior e evitar vitimização e atribuição de culpas com o produto do mistério. Gestão por resultados?

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