FEIJÃO COMUM

Edição XXIII | 01 - Jan . 2019

Élcio P. Guimarães - elcio.guimaraes@embrapa.br | Thiago Lívio Pessoa Oliveira de Souza - thiago.souza@embrapa.br

    O nosso feijão com arroz continua sendo o prato principal das refeições da maioria dos brasileiros. Desta maneira, o feijão segue sendo um elemento fundamental para a segurança alimentar do nosso país e é nossa principal, mais saudável e barata fonte proteica, além de também fornecer vitaminas, fibras e minerais. Entretanto, a estatística de consumo do feijão-comum segue, desde muitos anos, flutuando próximo aos 17 kg/habitante/ano. O leitor curioso deve estar se perguntando por que, num país com forte viés agrícola, não estamos mostrando uma tendência crescente no consumo de um produto tão importante e saudável como o feijão. Embora a resposta não seja simples e direta, nos concentramos em dizer que a falta de políticas públicas que estimulem a organização da cadeia produtiva e o consumo do feijão é uma das principais responsáveis por essa situação.

    Recentemente, o Brasil foi estimulado a atender a demanda de mercados externos, como o indiano (que consome principalmente feijão-caupi), nos cultivos chamados de “pulses” ou “leguminosas de grãos secos comestíveis”, que, além dos feijões, incluem também grão-de-bico, ervilhas secas e lentilhas. Algumas das culturas reconhecidas como “pulses” são cultivadas por milhares de anos, fazendo parte da história da humanidade. A Índia é o maior produtor mundial desses “pulses”. Quando olhamos a América do Norte, segundo dados da FAO, vemos que o crescimento dos “pulses”, no período 1990 a 2014, foi de 7,7% ao ano, principalmente pelo crescimento dos cultivos no Canadá, cuja produção é voltada à exportação. Quando olhamos o feijão-comum, o Brasil é o maior produtor mundial, mas quando incluímos outros feijões alternamos o primeiro lugar com a Índia e Myanmar. 

    Como resposta a essa demanda, o governo brasileiro, através do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), solicitou ao Conselho Brasileiro do Feijão e Pulses (CBFP) que preparasse o “Plano Nacional de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Feijão e Pulses” (PNDCFP). Esse documento visa ser o marco de transformação da cadeia produtiva do feijão em nosso país.


(...) mesmo apesar do desestímulo decorrente do baixo uso de sementes certificadas, os programas de melhoramento de feijão-comum no Brasil continuam sendo produtivos e, a cada ano, lançam novas cultivares no mercado (...)


    Embora o Brasil seja o maior produtor de feijão-comum, temos uma grande limitante para colocar esse produto no mercado internacional. Nossa produção de grãos é predominantemente da classe comercial carioca, que reflete a demanda nacional, mas não atende aos interesses do mercado externo. Desta maneira, políticas de governo que visem estimular o aumento da produção devem vir associadas a uma forte estratégia de comunicação e abertura de mercados para o feijão carioca, para que nossos agricultores não sejam aqueles que paguem as contas pela saturação do mercado interno e consequente queda nos preços do produto.

    Segundo dados do IBGE (2017), a produção do feijão no Brasil segue sendo realizada em três épocas de plantio: primeira safra ou das águas (723.000 ha, com média de produtividade 1.670 kg/ha), segunda safra ou da seca (759.500 ha, com média de produtividade 1.160 kg/ha), e terceira safra ou irrigada (207.600 ha, com média de produtividade 2.600 kg/ha). Em número, os produtores de feijão-comum seguem sendo predominantemente pequenos, com pouco acesso a recursos, financiamentos e assistência técnica, baixo uso de tecnologias e, consequentemente, alcançando baixas produtividades. No outro lado está o segmento empresarial, que segue crescendo, sendo predominante no cultivo em terceira safra no Brasil Central.


          

    Quando falamos na cadeia produtiva de uma cultura, qualquer que seja, o ponto de partida é a semente. Infelizmente, no caso do feijão-comum, esse ponto de partida tem sido, na realidade, um gargalo, não sendo tão sólido quanto outros elos da cadeia, mesmo sabendo que muitos dos principais patógenos do feijão-comum podem ser transmitidos ou conduzidos pelas sementes. Segundo dados da Abrasem para a safra de 2015, em somente 19% da área total cultivada com feijão-comum foram utilizadas sementes certificadas. Quando se analisa individualmente os estados, a variação é grande. O Paraná, por exemplo, estado maior produtor nacional, e tradicionalmente grande produtor de feijão preto, tem uma taxa média de uso de sementes de 10%. Já no estado de Goiás, tradicional produtor de feijão carioca e onde a produção se concentra na safra irrigada, com alto uso de tecnologias, a taxa é de 45%. Importantes estados produtores de feijão, como Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, apresentam taxas de 28, 18, 16 e 3%, respectivamente.

    Buscando alternativas para a eficiente produção de sementes de feijão-comum, em 2010, um estudo realizado pela Embrapa Arroz e Feijão e parceiros identificou no Brasil Central as melhores condições para a produção de sementes com alta qualidade fisiológica e sanidade. Uma comprovação disto são os dados dos campos de produção de sementes de feijão-comum, considerando as diferentes categorias, homologados junto ao MAPA no período de 2016 a 2018. Conforme disponível no Sistema de Gestão da Fiscalização (SIGEF) do MAPA, dos 2.495 campos homologados, que perfizeram um total de 99.977 ha, 855 campos (37,3%) foram localizados só no estado de Goiás, os quais cobriram uma área de 52 ha. A partir desse conhecimento, foi desenvolvida uma metodologia para que a produção de sementes recebesse a Identificação de Origem, selo que estimularia a produção de sementes de feijão. Ainda que mais estudos sejam necessários para fortalecer essa estratégia, esse é um exemplo de que podemos e temos onde produzir sementes de feijão-comum de boa qualidade, mas infelizmente esse trabalho não alcançou seu objetivo porque as “sementes” seguem não tendo a importância que merecem na cadeia produtiva do feijão.

    Por outro lado, mesmo apesar do desestímulo decorrente do baixo uso de sementes certificadas, os programas de melhoramento de feijão-comum no Brasil continuam sendo produtivos e, a cada ano, lançam no mercado novas cultivares, alternativas mais resistentes às limitantes bióticas e com produtividades mais elevadas, e de diferentes classes comerciais. Mesmo o setor privado, que depende de lucros para seguir operando, e que em um passado recente não operava no mercado de sementes de feijão-comum no Brasil, também está ativo atualmente e compete com produtos que agradam e chamam a atenção dos produtores.

    Nos últimos três anos, a Embrapa Arroz e Feijão lançou quatro novas cultivares de feijão-comum com características demandadas pelo mercado. Do grupo carioca, a cultivar BRS FC104 trouxe ao mercado uma nova alternativa, a superprecocidade, sendo capaz de produzir mais de 3.700 kg/ha em apenas 65 dias da emergência à maturação fisiológica dos grãos, nas condições do Brasil Central, o que equivale a cerca de uma saca de feijão por dia. Outro destaque do grupo carioca é a cultivar BRS FC402, a qual é resistente à antracnose e à murcha de fusário, duas das principais doenças limitantes da cultura no Brasil. Essa cultivar tem ciclo normal de cerca de 90 dias, considerando as condições do Brasil Central; e, manejada corretamente, possui potencial de produzir até 4.500 kg/ha. Como alternativa para o grupo de feijão preto, foi lançada a cultivar BRS Esteio que, bem aceita pela indústria em virtude de sua alta qualidade comercial e culinária dos grãos, apresenta elevada produtividade (potencial produtivo de 4.700 kg/ha), a maior já obtida entre cultivares da classe comercial de grãos pretos. Possui ciclo normal, entre 85 e 94 dias da emergência à maturação fisiológica. Outra opção para o mercado de grãos especiais é a cultivar BRS Ártico, com grãos do tipo alubia, brancos graúdos (massa de 100 grão de 62 g) e de qualidade compatível às demandas de mercados internacionais. As plantas desta cultivar possuem hábito de crescimento determinado e apresentam um excelente porte, uma arquitetura ereta e são tolerantes ao acamamento. O seu potencial produtivo é de 2.600 kg/ha.



 

    Essas cultivares, já disponíveis aos agricultores, são somente parte das soluções tecnológicas demandadas pelos produtores de feijão-comum. O cultivo segue ainda sendo afetado pela ocorrência de uma série de doenças e pragas. Entre as doenças, se destacam a antracnose, mancha angular, murcha de fusário, podridões radiculares, mofo branco, crestamento bacteriano comum, murcha de Curtobacterium, além das viroses transmitidas pela mosca branca, como o mosaico dourado e o mosqueado suave do caupi. Os nematoides também têm despertado a preocupação da pesquisa e dos produtores. A adoção do Manejo Integrado de Pragas e Doenças continua sendo a melhor solução econômica e ambiental para essas limitantes, mas ainda tem seu emprego limitado. Além disso, as perdas na colheita, ainda altas, estimadas em 4,0 a 6,0 sacas/ha, vêm impulsionado o desenvolvimento de novas tecnologias e máquinas, visando reduzir esses prejuízos.


Quando falamos na cadeia produtiva de uma cultura, qualquer que seja, o ponto de partida é a semente.

    O escurecimento dos grãos de feijão carioca, o qual é associado pelos consumidores ao envelhecimento do produto e consequente aumento no tempo de cocção, está sendo atacado pelo desenvolvimento de cultivares com escurecimento mais lento dos grãos, sem perdas em suas qualidades culinárias e nutricionais, como é o caso da cultivar BRSMG Madrepérola. Produtores mais tecnificados estão investindo em qualidade na colheita e construindo estruturas para armazenamento de feijão em condições controladas de temperatura e umidade, o que também reduz o escurecimento dos grãos carioca. Essas estratégias objetivam dar maior estabilidade ao mercado e evitar grandes flutuações de preços, como o ocorrido no ano de 2016.