Vinte anos de Plantas Geneticamente Modificadas no Brasil

Edição XXII | 06 - Nov . 2018

Liliane Henning - liliane.henning@embrapa.br

    Quando se pensa em plantas transgênicas ou Plantas Modificadas Geneticamente (PGM), a primeira coisa que vem à cabeça é a soja RR da empresa Monsanto. O RR vem de Roundup Ready, onde Roundup é a marca comercial do herbicida Glifosato da Monsanto, e o Ready vem do inglês, que significa pronto. Ou seja, Soja pronta para o Glifosato. 

    Quando foi cultivada pela primeira vez em 1996, nos EUA, e 1997, na Argentina, a soja RR gerou muita polêmica por ser a primeira cultura comercial a utilizar a transgenia em grande escala, facilitando o controle de ervas daninhas, mas também trazendo a “venda casada” com o herbicida. No Brasil a liberação foi dada pela CTNBio em 1998, mas devido a uma ação na justiça, impetrada pelo IDEC, GreenPeace e Ibama, e devido a um conflito entre a Lei de Biossegurança, na época, e a Lei Ambiental, o produtor brasileiro ficou proibido de utilizar a tecnologia por quase sete anos. Isto trouxe vários problemas como a entrada ilegal de variedades de soja RR não adaptadas da Argentina, prejuízos no setor sementeiro nacional, além da falta de investimento em pesquisa no desenvolvimento de PGM de interesses mais específicos para o Brasil.

    Somente em 2005, quando a nova Lei de Biossegurança brasileira foi implementada, Lei N°11.105 de 24 de março de 2005, a soja RR foi totalmente liberada no Brasil.  Infelizmente, isto tudo causou muito debate e muita desinformação, o que acabou prejudicando o uso da tecnologia de forma democrática em todo o mundo.

    Apesar de se associar a transgenia em plantas com a soja RR, existem hoje no mercado e em pesquisa/desenvolvimento PGM com diversas características de interesse. 

    Pouco se fala da redução considerável na aplicação de inseticidas nestas lavouras, favorecendo a saúde do trabalhador, consumidor e o meio ambiente. Outras características de interesse, como tolerância à seca, aumento da qualidade nutricional, resistência a doenças e nematoides, entre tantas outras características que trazem ganho não somente aos produtores, mas também à população de maneira geral, são desenvolvidas através do uso de PGM. Infelizmente, a polêmica em cima dos transgênicos, fez com que vários países acabassem criando legislações que exigiam uma série de avaliações de biossegurança de PGM, que no fim das contas fez com que, hoje,  somente um grupo pequeno de empresas seja capaz de colocar PGM no mercado.


A transgenia é utilizada pela humanidade desde os anos 1970, quando pela primeira vez se clonou o gene da insulina humana em bactérias e leveduras.


    Estima-se que o custo para desenvolver uma PGM desde a identificação do gene, testes de eficiência da característica, desregulamentação de biossegurança em cada país importador, e colocação no mercado esteja em torno de U$150 milhões. Hoje, somente quatro empresas têm tido condições de fazer isso: Corteva (junção da Dow, DuPont e Pioneer), Bayer (que recentemente adquiriu a Monsanto), Syngenta e a BASF. Apesar de toda polêmica, nestes mais de vinte anos de uso comercial de PGM em todo planeta, nenhum impacto considerável foi observado na saúde humana, animal ou ao meio ambiente decorrente do uso de PGM, mesmo que nunca antes na história da humanidade tenha se estudado tanto um alimento utilizando-se as técnicas mais sofisticadas hoje disponíveis. As Academias de Ciências dos EUA e da Europa, nos dois últimos anos, apresentaram a compilação de diversos trabalhos científicos que comprovam a segurança das PGM em uso comercial hoje no mundo. O interessante é que a polêmica surgiu somente com plantas, pois a maioria das pessoas não sabe que a transgenia é utilizada pela humanidade desde os anos 1970, quando pela primeira vez se clonou o gene da insulina humana em bactérias e leveduras, fazendo com que estes organismos produzissem o hormônio humano em grandes quantidades. Hoje, praticamente toda insulina consumida no Brasil é produzida em organismos transgênicos. Isso vale para várias outras substâncias de interesse na medicina, como por exemplo, o Fator de Coagulação IX, usado por hemofílicos, e o Fator de Crescimento Humano, usado com idosos ou crianças com problemas de desenvolvimento. 

    Na indústria química e na de alimentos, o uso de organismos transgênicos para produção, por exemplo, de detergentes ou laticínios, respectivamente, também já são utilizados há décadas. A verdade é que o uso da transgenia na agricultura mudou vários paradigmas na produção e no manejo das culturas, fazendo com que alguns grupos perdessem e outros ganhassem dinheiro. Talvez, indiretamente, tenha surgido daí a grande polêmica, e, possivelmente, nem tanto por questões de biossegurança. A biossegurança foi sempre levada a sério, pois é uma tecnologia nova, e deve ser feita seguindo o princípio da precaução, mas não ao extremo. Trata-se de uma análise de risco que deve ser feita levando-se em conta também os ganhos que podem ser trazidos para a sociedade.  O fato é que a transgênia em plantas tem um potencial tremendo para trazer soluções e agregar valor aos problemas e produtos da agricultura, e um país como o Brasil, cujo agronegócio é a base de sua economia, não pode prescindir disso.

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