A hora de afiar o machado

Edição XXI | 03 - Mai . 2017

Eleri Hamer - contato@elerihamer.com.br

    O título é caipira, mas o conteúdo está muito adiante da era do Jeca Tatú, de Monteiro Lobato. Por esse motivo, embora todo mundo saiba (ou deveria saber pelo menos) que são os diferenciais das pessoas (isso inclui os donos) que fazem com que as empresas sejam eficientes, eficazes e, por fim, tenham lucro, ainda há os que teimam em negar a realidade.

    Muito barulho tem sido feito, mas não podemos nos deixar enganar. Devemos saber que não é regra geral alocar grandes investimentos em treinamento e qualificação. Ainda há muito por fazer nessa área até que esse tema faça parte inconteste dos orçamentos dos profissionais e das empresas, e a competitividade não esteja mais ameaçada pela leniência com que tratamos esse tema.

Sorte ou azar não servem como padrão

    Sabe-se que nada ocorre do nada, sem alguma ação concreta e estruturada. Podemos até ter lances de sorte, momentâneos, que empurram nossas carreiras e empresas para frente, mas assim também temos lances de azar, igualmente casuais, que nos atrasam a jornada e trazem regresso, ao invés de progresso.

    Isso quer dizer que casos fortuitos são isso mesmo, casuais, e não devem ser tomados com padrão. Logo, quem vai com a manada, com a manada estará. É claro que há alguns que preferem estar lá mesmo, junto com os demais, iguais a todos. Mas é bom lembrar que na manada sempre existem os que bebem água limpa e comem o melhor pasto, e os que chegam quando a água já está barrenta e pisoteada, restando o pasto pitoco e fibroso. 

    Ao final de muitos circuitos, ciclos ou safras (como queiram), os primeiros estarão fortes e sadios, e os da cola enfraquecidos e suscetíveis. Temos a vida inteira para rotineiramente fazer escolhas e decidir como queremos participar do jogo. Como um player que treina e joga ou alguém que treina pouco e apenas quer jogar. 

    Aliás, você precisa escolher logo se quer ser jogador ou atleta. Há uma distância quilométrica entre eles, mas não espere descobrir tardiamente as diferenças. Se você não fizer a escolha, o mercado e a concorrência tratarão de fazê-lo por si, sem consulta, dó ou arrependimento. A fria e inconteste lei do mercado tomará as decisões por sua empresa e sua carreira.

Sempre há duas opções
    Há quem não pense desse modo, mas normalmente temos muitas opções a escolher nas nossas decisões. Objetivamente, sempre temos ao menos duas opções diariamente na nossa jornada: decidir por fazer ou por não fazer. Mesmo que tenhamos aparentemente apenas uma escolha, ela, por si só, já se revela em duas: não fazer nada também é uma opção. Infelizmente, em momentos de cortar custos, muitos profissionais e empresários cortam investimentos, adotando essa última.

    Na vida empresarial, treinar e desenvolver as pessoas (friso novamente que isso inclui os proprietários), normalmente, garante que você e sua empresa não fiquem no grupo de trás da manada ou mesmo caiam no primeiro atropelo da concorrência ou de algum sobressalto do mercado. Manter-se em forma é o segredo para participar da maratona que é estabelecer e manter qualquer negócio.

    Mas se treinar, qualificar, desenvolver, botar a equipe e as pessoas a se preparar é algo que temos de fazer diariamente, porque tantos empresários ainda relutam em fazer isso? Ou de proporcionar a devida vantagem competitiva para a sua equipe?

    Se está mais que comprovado que o grande e real diferencial competitivo está na qualidade das pessoas entregarem resultados e que esta normalmente é a que diferencia as empresas, ainda é comum encontrarmos gestores e empresários avessos a prática?

Todo dia é hora de afiar o machado
    Particularmente, estou numa posição privilegiada para analisar isso, dado que convivo com os dois lados: daqueles que fornecem a qualificação, e dos profissionais e suas empresas, que precisam diuturnamente manter e melhorar a sua performance. Por isso, uma das questões que me chama muito a atenção não é precisamente a falta de investimento em qualificação dos profissionais e empresas, mas principalmente no juízo de valor que se dá a ela.

    A título de exemplo, a principal questão reside na oxidada ideia de que os colaboradores devem se qualificar e procurar melhorar a sua performance, por si só. Completa o cenário quando muitos defendem que ela ocorra apenas fora do horário normal de trabalho. A ideia recorrente (e esdrúxula, por consequência) de alguns empresários é de que horário de expediente é horário de trabalho, e não de qualificação. Como se o lenhador não pudesse afiar o seu machado durante a jornada.

    Parece hilário, mas não é. É sério, lamentável e revelador. Em pleno século 21, tempo de tecnologias capazes de mudar praticamente os setores de cabeça para baixo, do dia para a noite, ainda há gestores que não tomam a qualificação como parte da atividade dos seus colaboradores. Correm o risco de acordar e descobrir que o seu modelo de negócio não existe mais ou que seus melhores colaboradores trocaram de empresa.

    Afiar o machado não é uma opção, é uma necessidade. É fácil entender que o conhecimento perde a validade cada vez mais rápido. Assim como as tecnologias de produto que são substituídas por outras mais novas, a prática e a gestão também sofrem a inexorável ação da evolução. Por isso, devemos afiar o machado todo o dia e, em algumas situações, várias vezes ao dia. Dentro e fora do expediente.

O que é mais caro, o conhecimento ou a ignorância?
    Assim como é esdrúxulo e atrasado que os colaboradores apenas se qualifiquem quando a empresa paga, na falsa ideia de que são as organizações que têm essa obrigação e é lá que o conhecimento será prioritariamente aplicado, também é ridículo imaginar o contrário: de que tudo depende apenas do funcionário.

    A qualificação contínua é responsabilidade de ambos, dado que, se de um lado beneficia claramente a empresa, melhorando sua performance, de outro, amplia a empregabilidade dos profissionais que não só evoluem, mas principalmente garantem que não ficarão para trás, já que os bons estão sempre em evolução. Vale lembrar a inspiradora frase de Derek Bok, ex-presidente de uma grande universidade americana: se você acha que a educação é cara, experimente a ignorância.


Até a próxima.

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