O que é qualidade de sementes?

Edição V | 05 - Set . 2001

John Hampton - hampton@lincoln.ac.nz

    Se definirmos qualidade como um “grau ou padrão de excelência”, então a qualidade de sementes pode ser vista como um padrão de excelência em certos atributos que vão determinar o desempenho da semente quando semeada ou armazenada. Na prática, a expressão “qualidade de sementes” é utilizada livremente para refletir o valor da semente para seus propósitos específicos; o desempenho da semente deve estar à altura das expectativas do consumidor. Esta revisão examina a qualidade da semente a partir de cinco diferentes perspectivas: qualidade de sementes como uma ferramenta mal utilizada de biossegurança; qualidade de sementes como uma ferramenta de marketing; qualidade de sementes como um contra-senso; qualidade de sementes como uma exigência específica para produção moderna dos cultivos; e necessidades de qualidade de semente em ambientes não temperados.

Introdução

    Nos primeiros tempos da agricultura primitiva, quando predominava uma vida nômade, a experiência prática e, freqüentemente, amarga ensinou que somente as sementes de melhor qualidade de qualquer cultivo deveriam ser selecionadas. A qualidade de sementes é mencionada em escritos da antiguidade, desde a filosofia chinesa do século X AC até a Bíblia. Muitas centenas de anos depois, desenvolveu-se o comércio nacional e internacional de sementes, e a qualidade de sementes transformou-se em assunto a ser debatido, infelizmente, porém, mais por razões negativas do que positivas. Práticas comerciais inescrupulosas  e/ou uma falta de conhecimento por parte daqueles envolvidos no comércio de sementes na Europa e Américas do século XIX levaram às primeiras leis de sementes e ao desenvolvimento da chamada “arte e ciência da análise de sementes”.

Componentes da qualidade das sementes

    A qualidade das sementes é um conceito múltiplo que compreende diversos componentes, ainda que para muitos dos que irão utilizá-la, a semente de qualidade é aquela que vai germinar e está livre de espécies de invasoras indesejadas. Este conceito público reflete-se no fato de que para muitos laboratórios de análise de sementes, entre 80 a 90% de todas as análises solicitadas são de pureza e germinação. Contudo, existem outros componentes da qualidade de sementes que podem ser agrupados em três categorias: 

1. Descrição: espécie e pureza varietal; pureza analítica; uniformidade; peso da semente.

2. Higiene: contaminação com invasoras nocivas; sanidade da semente; contaminação com insetos e ácaros. 

3. Potencial de desempenho: germinação, vigor, emergência e uniformidade em campo. 

    Estes componentes não apresentam todos o mesmo valor, nem a sua ordem de importância relativa é a mesma em todas as circunstâncias. Para dar um exemplo óbvio, um lote de sementes de certa cultivar que apresente uma pureza de 99,9%, uma umidade de 10%, que seja livre de sementes de invasoras nocivas e patógenos, mas que tenha uma germinação de 5%, é de pouca utilidade para o agricultor que queira iniciar um cultivo!

Qualidade de sementes: uma ferramenta de biossegurança mal utilizada?
    Problemas potenciais criados por pragas (patógenos, insetos e plantas daninhas) associadas aos lotes de sementes são reconhecidos há bastante tempo e a maioria dos países têm uma legislação de quarentena  relativa à importação de sementes. Esta é geralmente para: 

- contaminação, infecção ou infestação com insetos ou patógenos de significância para quarentena; 
- mistura ou contaminação com espécies proibidas; 
- contaminação com substâncias proibidas, tais como solo ou palha. 

    Ninguém contestaria o uso responsável de padrões de qualidade para pragas das plantas no caso de lotes de sementes importadas. Se uma espécie de invasora, inseto ou patógeno de importância econômica não ocorre em um país, por que deixar que ele entre através de um lote de sementes importado? Idealmente, o sistema fitossanitário mundial deveria proteger contra a disseminação de pragas economicamente importantes, sem trazer barreiras desnecessárias ao movimento internacional de sementes. Contudo, o sistema fitossanitário mundial tem um problema com o uso amplamente disseminado de regulamentos fitossanitários injustificados. Alguns exemplos recentes incluem:

- Um patógeno associado à semente foi detectado em uma semente de invasora presente em um lote de sementes importadas de gramíneas. Os embarques posteriores de lotes de sementes da gramínea foram suspensos porque declarouse que o patógeno não ocorria no país importador. Subseqüentes, e caras, investigações realizadas por agentes do país exportador provaram que o patógeno havia sido primeiramente registrado no país importador há mais de 80 anos e, embora não comum, estava certamente presente. 
- Por, pelo menos, 10 anos, os lotes de sementes de soja exportados dos Estados Unidos para a Comunidade Européia  tinham que ser testados quanto à murcha bacteriana, mesmo o patógeno já tendo sido encontrado na Europa por muitos anos e não sendo de importância econômica nos EUA. 
- Após exportar lotes de sementes de gramíneas para um país por 100 anos, a partir de 2.000 o país exportador tem que garantir que as sementes estejam livres de certo número de patógenos. A ocorrência destes patógenos tem sido registrada no país exportador, porém não apresenta significância econômica (e, presumivelmente, após 100 anos não causou ainda problemas no país importador!).

    Existem duas principais razões para regulamentações injustificáveis: falta de acesso de quem faz a regulamentação à informação científica da praga em questão e barreiras não tarifárias ao comércio internacional. O uso dessa última parece estar aumentando, ainda que a ética em usar procedimentos de quarentena vegetal para controlar as importações de sementes de um país seja questionável. 
    A necessidade de um sistema fitossanitário internacional que seja racional, efetivo, e de custo não proibitivo, é reconhecida pela indústria de sementes e, de forma crescente, pelas agências de regulamentação. O trabalho do Comitê de Doenças Vegetais da ISTA e a Iniciativa Internacional de Sanidade de Sementes para atingir este objetivo é elogiável.

Qualidade de sementes: uma ferramenta de marketing
    O produto é o foco do marketing. O marketing preocupa-se, portanto, com os atributos do produto (neste caso, características genéticas e qualidade de semente) e com o que estes significam para o cliente. O desempenho ou competitividade dos produtos podem ser avaliados como sendo: 

- superiores ou melhores do que os produtos dos concorrentes;
- competitivos, mas não melhores do que os produtos oferecidos pelos concorrentes; ou 
- inferiores ou não tão bons quanto os produtos oferecidos pelos concorrentes. 

    Embora uma cultivar possa ser competitiva em termos genéticos, uma alta qualidade de sementes cria uma vantagem para a comercialização. Se olharmos os anúncios publicitários de diversas empresas, veremos que a alta qualidade da semente é exibida como um componente integral do marketing do produto. Para utilizar a qualidade das sementes como uma ferramenta de marketing, as companhias devem possuir informações sobre a qualidade de seu produto e confiança naquela qualidade. As companhias de sementes, portanto, monitoram a qualidade das sementes durante sua produção no campo, colheita, limpeza, tratamento, armazenamento e transporte. Testar a qualidade (germinação, vigor, pureza, sanidade de sementes, umidade) possibilita que práticas adversas sejam prontamente detectadas e tomadas medidas corretivas. Os dados da qualidade são então disponibilizados ao cliente, via certificado de análise de sementes e/ou etiqueta da semente. 
    Contudo, não todos os dados de qualidade são disponibilizados, sendo aqueles que informam o vigor, na maioria das vezes, mantidos “na casa”. É animador que a indústria de sementes atualmente faça uso extensivo da informação sobre o vigor das sementes em seus programas de controle de qualidade, usando os resultados de várias formas, incluindo para estabelecer os níveis mínimos de qualidade que as sementes precisam alcançar para serem comercializadas. Por exemplo, para que uma germinação de 95% seja impressa na etiqueta de sementes de milho nos Estados Unidos, dois requisitos necessitam ser preenchidos: o resultado do teste padrão de germinação deve ser igual ou maior do que 95%, e o teste de frio deve dar resultado igual ou superior  a 80%. A informação do vigor tem sido utilizada como uma estratégia de marketing para cereais no Reino Unido, mas, internacionalmente, a semente raramente é comercializada com base em resultados de testes de vigor específicos. Um dos desafios do vigor de sementes e dos testes de vigor tem sido respondido de forma bem sucedida, sendo provável que a informação do vigor da semente passe a ser utilizada como uma ferramenta adicional de marketing de sementes.

Qualidade de sementes: um contra-senso? 
    Levando-se em consideração apenas os padrões de germinação, vemos que a maioria dos países possui legislação estabelecendo padrões mínimos para germinação, para importação e/ou sistemas de certificação de sementes. Os contratos de produtores também, geralmente, contêm um padrão de germinação mínimo. Minha visão pessoal é de que os padrões de germinação são de valor limitado e, em alguns casos, um contra-senso.


É animador que a

indústria de sementes

atualmente faça uso

extensivo da informação

sobre o vigor das

sementes em seus

programas de controle

de qualidade.


    Na ausência de dormência, quanto mais próxima de 100% a porcentagem de plântulas normais em um teste de germinação, maior a qualidade do lote de sementes. À medida que a porcentagem de plântulas normais diminui, a qualidade do lote diminui devido ao aumento da porcentagem de plântulas anormais e/ou sementes mortas, indicando que começou a ocorrer a deterioração fisiológica do lote de sementes.Assim, por exemplo, padrões mínimos de germinação de 60, 70 ou 80% indicam que é aceitável importar ou vender lotes de sementes que estejam fisiologicamente deteriorados e que, desta forma,  provavelmente, irão apresentar problemas de desempenho uma vez semeados. Enquanto estes são padrões “mínimos” e, usualmente, são utilizados “padrões superiores voluntários”, a falha em reconhecer a “história”  que um resultado de teste de germinação conta sobre um lote de sementes pode levar à aceitação de uma informação enganosa sobre a qualidade (e, portanto, o valor) de um lote de sementes. 

    Em um workshop organizado pelo Grupo de Pesquisa Internacional de Produção de Sementes, a questão de se os padrões de germinação serviam para algum propósito útil, foi respondida de várias formas pelos participantes. As opiniões variaram desde a concordância em que os padrões pouco serviam para propósitos úteis, até aquelas que apoiavam firmemente a sua manutenção. O primeiro grupo foi de opinião de que os compradores de sementes deveriam ser educados no sentido de pedir informações e tomar suas próprias decisões a respeito da compra de lotes de sementes, enquanto o outro grupo acreditava que os padrões de germinação forneciam um meio concreto de garantir um produto de qualidade. Ambos os grupos concordavam em que os resultados da germinação deveriam ser compreendidos e interpretados de forma correta. A ironia de que, geralmente, a alta germinação não é reconhecida como um fator de qualidade (por exemplo, 95% versus 70%) foi também observada, como foi a sugestão de que a colocação de preço deveria talvez ser baseada na semente pura viva. Enquanto a proteção ao consumidor é importante, o método para proporcioná-la deveria ser determinado usando-se apenas argumentos científicos válidos, não decisões aparentemente arbitrárias.

Qualidade de sementes: uma exigência específica para a moderna produção dos cultivos

    É evidente que a qualidade de sementes apresenta uma profunda influência sobre a produção econômica dos cultivos de todas as espécies. A qualidade das sementes afeta o estabelecimento, desenvolvimento e rendimento da cultura e, em muitos sistemas de produção modernos, é exigida uma semente de alta qualidade que vá produzir de forma consistente uma rápida e uniforme emergência de plântulas a partir de cada semente. Exemplos de tais sistemas incluem o sistema de cultivo de plântulas de hortaliças e ornamentais, e semeadura de precisão de culturas para colheita mecânica”. O problema é que as práticas de produção de sementes não necessariamente resultam em lotes que satisfaçam estas exigências.

    Enquanto muitos agricultores apresentam as habilidades exigidas (ou acesso à informações e transferência de tecnologia), para possibilitar-lhes a produção de lotes de sementes que estejam dentro dos padrões do contrato quanto à pureza, sanidade e germinação, poucos sabem como produzir lotes de sementes que proporcionem uma emergência rápida e uniforme sob uma grande classe de condições (isto é, sementes de alto vigor). Produzir sementes de alto vigor, hoje em dia, é  mais um resultado de boa sorte do que de bom manejo. 

    Já foi comentado que um problema crônico que a indústria de sementes enfrenta é a produção de sementes de baixo vigor. Enquanto têm havido relatos dos efeitos da influência das práticas agronômicas e do ambiente sobre o vigor das sementes, a questão “como produzir sementes de alto vigor” não pode ainda ser respondida; ainda não sabemos o suficiente sobre como as práticas de produção de sementes e o ambiente interagem para afetar os processos fisiológicos que determinam o vigor da semente. 

    O assunto vigor de sementes é complexo e apresenta muitos desafios para a tecnologia e a fisiologia de sementes. É necessário um maior entendimento deste importante componente da qualidade para que melhor se satisfaçam as exigências de qualidade dos lotes de sementes para a moderna produção dos cultivos.

Qualidade de sementes: necessidades em ambientes não temperados 

    Atualmente, na Zâmbia, existe uma crescente percepção por parte do agricultor de que a semente de boa qualidade é o insumo chave para o aumento de produção. Os agricultores estão se conscientizando sobre a importância da semente de alta qualidade, que é capaz de proporcionar emergência rápida e uniforme sob diversos tipos de condições ambientais. 

    Em qualquer ambiente, as vantagens e benefícios do uso de sementes de alta qualidade são bem conhecidos e provados. Mas, particularmente, em ambientes tropicais, a obtenção de sementes de qualidade é, freqüentemente, um problema, pelas razões a seguir:

- O clima dos trópicos, quente e úmido, é desfavorável  para a produção de sementes, particularmente para a colheita; tempestades tropicais ocorrem freqüentemente durante a tarde, e com a exposição repetida à alta umidade, as culturas são submetidas aos danos por deterioração a campo. 

- O material colhido pode umedecerse rapidamente enquanto submetido à secagem ao ar livre; a secagem no sol não é eficiente e pode ser danosa se as temperaturas da superfície (como as de um piso de concreto, por exemplo) forem superiores a 50°C; somando-se a alta umidade ao problema. 

- As sementes deterioram-se muito rapidamente em armazenamento; sementes de forrageiras, por exemplo, com umidade de 12-14% armazenadas a uma temperatura ambiente de 30°C perdem  sua viabilidade dentro de poucas semanas. 

- Lotes de sementes importadas de algumas espécies (como brassicas, por exemplo) podem ser submetidas a uma alta temperatura que induz à dormência secundária, a qual pode persistir por períodos de 6 a 8 meses. 

- O custo da semente de alta qualidade está acima das posses de muitos agricultores em países de escassos recursos.


Ontem: primeiro a semente.
Hoje: sempre semente de alta qualidade.


    Na ausência de dormência, quanto mais próxima de 100% a porcentagem de plântulas normais em um teste de germinação, maior a qualidade do lote de sementes. À medida que a porcentagem de plântulas normais diminui, a qualidade do lote diminui devido ao aumento da porcentagem de plântulas anormais e/ou sementes mortas, indicando que começou a ocorrer a deterioração fisiológica do lote de sementes.Assim, por exemplo, padrões mínimos de germinação de 60, 70 ou 80% indicam que é aceitável importar ou vender lotes de sementes que estejam fisiologicamente deteriorados e que, desta forma,  provavelmente, irão apresentar problemas de desempenho uma vez semeados. Enquanto estes são padrões “mínimos” e, usualmente, são utilizados “padrões superiores voluntários”, a falha em reconhecer a “história”  que um resultado de teste de germinação conta sobre um lote de sementes pode levar à aceitação de uma informação enganosa sobre a qualidade (e, portanto, o valor) de um lote de sementes. 
    Em um workshop organizado pelo Grupo de Pesquisa Internacional de Produção de Sementes, a questão de se os padrões de germinação serviam para algum propósito útil, foi respondida de várias formas pelos participantes. As opiniões variaram desde a concordância em que os padrões pouco serviam para propósitos úteis, até aquelas que apoiavam firmemente a sua manutenção. O primeiro grupo foi de opinião de que os compradores de sementes deveriam ser educados no sentido de pedir informações e tomar suas próprias decisões a respeito da compra de lotes de sementes, enquanto o outro grupo acreditava que os padrões de germinação forneciam um meio concreto de garantir um produto de qualidade. Ambos os grupos concordavam em que os resultados da germinação deveriam ser compreendidos e interpretados de forma correta. A ironia de que, geralmente, a alta germinação não é reconhecida como um fator de qualidade (por exemplo, 95% versus 70%) foi também observada, como foi a sugestão de que a colocação de preço deveria talvez ser baseada na semente pura viva. Enquanto a proteção ao consumidor é importante, o método para proporcioná-la deveria ser determinado usando-se apenas argumentos científicos válidos, não decisões aparentemente arbitrárias.

Qualidade de sementes: uma exigência específica para a moderna produção dos cultivos
    É evidente que a qualidade de sementes apresenta uma profunda influência sobre a produção econômica dos cultivos de todas as espécies. A qualidade das sementes afeta o estabelecimento, desenvolvimento e rendimento da cultura e, em muitos sistemas de produção modernos, é exigida uma semente de alta qualidade que vá produzir de forma consistente uma rápida e uniforme emergência de plântulas a partir de cada semente. Exemplos de tais sistemas incluem o sistema de cultivo de plântulas de hortaliças e ornamentais, e semeadura de precisão de culturas para colheita mecânica”. O problema é que as práticas de produção de sementes não necessariamente resultam em lotes que satisfaçam estas exigências.
    Enquanto muitos agricultores apresentam as habilidades exigidas (ou acesso à informações e transferência de tecnologia), para possibilitar-lhes a produção de lotes de sementes que estejam dentro dos padrões do contrato quanto à pureza, sanidade e germinação, poucos sabem como produzir lotes de sementes que proporcionem uma emergência rápida e uniforme sob uma grande classe de condições (isto é, sementes de alto vigor). Produzir sementes de alto vigor, hoje em dia, é  mais um resultado de boa sorte do que de bom manejo. 
    Já foi comentado que um problema crônico que a indústria de sementes enfrenta é a produção de sementes de baixo vigor. Enquanto têm havido relatos dos efeitos da influência das práticas agronômicas e do ambiente sobre o vigor das sementes, a questão “como produzir sementes de alto vigor” não pode ainda ser respondida; ainda não sabemos o suficiente sobre como as práticas de produção de sementes e o ambiente interagem para afetar os processos fisiológicos que determinam o vigor da semente. 
    O assunto vigor de sementes é complexo e apresenta muitos desafios para a tecnologia e a fisiologia de sementes. É necessário um maior entendimento deste importante componente da qualidade para que melhor se satisfaçam as exigências de qualidade dos lotes de sementes para a moderna produção dos cultivos.

Qualidade de sementes: necessidades em ambientes não temperados 
    Atualmente, na Zâmbia, existe uma crescente percepção por parte do agricultor de que a semente de boa qualidade é o insumo chave para o aumento de produção. Os agricultores estão se conscientizando sobre a importância da semente de alta qualidade, que é capaz de proporcionar emergência rápida e uniforme sob diversos tipos de condições ambientais. 
    Em qualquer ambiente, as vantagens e benefícios do uso de sementes de alta qualidade são bem conhecidos e provados. Mas, particularmente, em ambientes tropicais, a obtenção de sementes de qualidade é, freqüentemente, um problema, pelas razões a seguir:

- O clima dos trópicos, quente e úmido, é desfavorável  para a produção de sementes, particularmente para a colheita; tempestades tropicais ocorrem freqüentemente durante a tarde, e com a exposição repetida à alta umidade, as culturas são submetidas aos danos por deterioração a campo. 
- O material colhido pode umedecerse rapidamente enquanto submetido à secagem ao ar livre; a secagem no sol não é eficiente e pode ser danosa se as temperaturas da superfície (como as de um piso de concreto, por exemplo) forem superiores a 50°C; somando-se a alta umidade ao problema. 
- As sementes deterioram-se muito rapidamente em armazenamento; sementes de forrageiras, por exemplo, com umidade de 12-14% armazenadas a uma temperatura ambiente de 30°C perdem  sua viabilidade dentro de poucas semanas. 
- Lotes de sementes importadas de algumas espécies (como brassicas, por exemplo) podem ser submetidas a uma alta temperatura que induz à dormência secundária, a qual pode persistir por períodos de 6 a 8 meses. 
- O custo da semente de alta qualidade está acima das posses de muitos agricultores em países de escassos recursos.


Ontem: primeiro a semente.
Hoje: sempre semente de alta qualidade.


    Os problemas da produção e fornecimento de sementes de qualidade em regiões subtropicais/tropicais e/ou de escassos recursos já têm sido equacionados e, enquanto tem havido muito sucesso em superar alguns desses problemas em nível local, internacionalmente ainda há muito a ser feito. 
    Contudo, a visão de que o comércio de sementes ainda é realizado principalmente  entre as regiões temperadas do mundo está há muito tempo ultrapassada. Por muitas décadas, o mercado de sementes tem sido internacional, e de um mercado mundial de sementes estimado em US$ 30 bilhões, em 1998, os mercados na Ásia são responsáveis por 20% (isto é, US$ 6,3 bilhões). O valor do comércio internacional de sementes é estimado em US$ 3 bilhões e, apesar de cerca de 75% deste comércio ser ainda dominado pelos Estados Unidos e por seis dos países membros da União Européia, países de fora das “zonas temperadas” estão se tornando crescentemente envolvidos na exportação de sementes. A Tailândia, por exemplo, teve um balanço positivo no final dos anos 90, com as exportações de sementes alcançando, em 1997, valor ao redor de US$ 23 milhões. 
    Grande parte destas exportações de sementes dos países da Ásia é também de espécies temperadas. As exportações de sementes da Tailândia, no período 1995-97, foram predominantemente, de milho, tomate e melancia. O pequeno proprietário no Vietnã, querendo semear uma gramínea forrageira tropical, está tão interessado em comprar semente de qualidade e ter acesso à informação sobre a qualidade da semente quanto um produtor de leite na Nova Zelândia ou um criador de gado dos Estados Unidos? Possui a ISTA um papel importante em fornecer a informação sobre a qualidade das sementes que o pequeno proprietário da Ásia ou da África exige? A resposta, sob meu ponto de vista, é sim, embora essas espécies possam ser cultivos nativos que não podem ser comercializados internacionalmente. Na realidade, o controle da qualidade das sementes e plantas tropicais e sub-tropicais tem sido negligenciado.

Conclusão
    Na prática, a expressão qualidade de sementes é usada livremente para refletir o valor global da semente para seu propósito pretendido. Contudo, ela é mais do que apenas uma “boa semente”. É uma mistura de interativas e complicadas propriedades fisiológicas, morfológicas e ambientais, com muitos aspectos ainda não esclarecidos. A qualidade da semente tem muitos e variados impactos sobre todos nós: da fome à abundância, da perda ao lucro, da estagnação ao progresso. O velho ditado é “primeiro, a semente”. Acredito que uma versão atualizada deveria ser “primeiro e sempre, a qualidade da semente”. A ISTA  desempenha um importante papel na ajuda para atingir este objeto.

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