Organismos transgênicos ou organismos geneticamente modificados (OGMs) são as plantas e animais que têm seu código genético alterado com o objetivo de melhorar algum índice de desempenho, como produtividade, custo de produção, resistência a doenças, valor nutricional, etc.
    Atualmente, o que tem impulsionado o plantio de soja transgênica está relacionado com a melhoria da eficiência na produção. Certas variedades de soja foram alteradas geneticamente para ter maior resistência a herbicidas, permitindo que os produtores usem menos deste tipo de agroquímico nas suas plantações sem sacrificar a produtividade ou a qualidade do que produzem.
    A discussão sobre a aceitação e uso de organismos transgênicos é muito complexa pois afeta milhões de pessoas e interesses no mundo todo. De um lado consumidores pouco informados, confusos, desconfiados e desejosos de consumir produtos sem risco algum para sua saúde, pressionam os governos para tomarem uma posição contrária à liberação dos alimentos a base de organismos transgênicos ou pelo menos tornar compulsória sua identificação nas embalagens destes produtos.
    Os governos hesitam tomar uma posição, aguardando por evidências científicas para decidirem a respeito do assunto. Grandes cadeias de supermercados e processadores de alimentos, principalmente na Europa, já se recusam a usar ingredientes provenientes de organismos transgênicos nos produtos que comercializam. A curto prazo, os produtores de soja têm um grande dilema. Eles podem plantar soja transgênica e com isto se beneficiam do seu custo de produção mais baixo ou podem optar pela soja não transgênica, com maiores custos mas cuja aceitação não corre o risco de rejeição pelo mercado em função da sua origem genética.
   Os defensores dos transgênicos também dizem que seu cultivo causa menos erosão no solo e benefícios ambientais, uma vez que se usa menos herbicidas na plantação. A taxa de adoção dos transgênicos pelos produtores tem sido expressiva. Em três anos, o uso da soja transgênica saiu de zero para mais de 40% nos Estados Unidos, primeiro país a aprovar o uso das variedades transgênicas. Outros grandes países produtores, tais como o Brasil e Argentina, têm resistido ao uso dos transgênicos nos seus solos.
    A oposição ao uso da soja transgênica tem sido impulsionada por dois tipos de preocupações. Primeiro, porque acredita-se que ela tem algum efeito negativo para a saúde humana. Em segundo lugar, se diz que a introdução de variedades resistentes a herbicidas pode alterar o equilíbrio da natureza e trazer problemas no futuro. Os consumidores europeus têm sido os mais fortes opositores ao uso de plantas transgênicas.
    Para a descrição das relações que são relevantes para estudar-se o debate sobre a soja transgênica e seus efeitos no complexo da soja, dividiu-se o quadro geral em setores para poderem ser analisados os inter-relacionamentos entre eles.

    Relevância da Perspectiva Global
    A decisão de um fazendeiro entre plantar soja transgênica ou não transgênica pode estar sendo mais influenciada pelos consumidores de outros países do que pela preferência dos consumidores de seu próprio país. Os produtores de um país estão altamente interconectados com os consumidores de outros países. Estas ligações são importantes também na discussão sobre produtos transgênicos num contexto global, que vai além dos atuais debates de cunho filosófico e político. Isto tem a ver com os interesses de grandes empresas, grupos sociais organizados, novas oportunidades de negócios e com a balança comercial de cada país, o que tem uma influência enorme nas fragilizadas economias do Brasil e Argentina, por exemplo.
    O comércio global de soja (inclui grãos, farejo e óleo) é um grande negócio que vem crescendo cada vez mais. Em 1997, três países responderam por 78% (em valor) deste comércio mundial: EUA, Brasil e Argentina.

    Setores e Relações Causais
    Um dos desafios para explorar os assuntos que cercam o debate sobre transgênicos é que o sistema subjacente é muito complexo e altamente inter-relacionado, como pode ser verificado na figura1.
    Os principais setores do sistema são:
a) percepções do consumidor - as atitudes e impulsos do consumidor influenciam a demanda pelos produtos transgênicos e não transgênicos e pelo seu concorrente comum, os produtos substitutos da soja;
b) economia da soja transgênica - relativa ao setor produtivo da soja transgênica e seus produtos derivados;
c) economia da soja não transgênica e
d) capacidade de segregação - capacidade de separarse a soja transgênica da não transgênica, desde a produção até o consumidor.

    Estes setores relacionam-se com as seguintes variáveis do sistema em estudo: preocupação com os transgênicos, que retrata as desconfianças do consumidor com os produtos transgênicos; demanda por proteína e óleo; demanda por substitutos da soja; e estoque de terra disponível para a produção de soja.

    Percepções do Consumidor
   De certo modo, o consumo da soja não tem diferença do consumo de qualquer outro bem. Os grupos de interesse investem em campanhas pró e contra os transgênicos para propagar suas convicções sobre os benefícios ou malefícios desta tecnologia.
   O setor chamado percepções do consumidor tem impacto na preocupação com os transgênicos através da imagem dos transgênicos na mídia, a qual é fundamental, pois representa a intensidade e o tom das mensagens na mídia relativas aos produtos transgênicos. Por exemplo, uma imagem positiva alta significa maior número de fatos favoráveis aos transgênicos na mídia; enquanto uma imagem negativa alta significa que há mais fatos negativos sobre os transgênicos na mídia do que fatos positivos.
    Dois fatores são externos ao sistema e influenciam diretamente a imagem dos transgênicos na mídia: os fatos positivos e os fatos negativos sobre transgênicos. Se pudéssemos ver o futuro, saberíamos a influência destes fatos na preocupação com os transgênicos, e assim seria mais fácil tomar decisões estratégicas hoje.
  
 
   Estes dois setores apresentam estruturas semelhantes. O custo da produção influencia negativamente o lucro líquido, isto é, quanto maior o custo de produção, menor o lucro líquido. Isto é um farto muito importante que diferencia os dois tipos de soja, uma vez que um dos benefícios apregoados a favor da soja transgênica é que seu custo de produção é menor em relação à soja não transgênica. Um aumento no lucro líquido encoraja os fazendeiros a tomar a decisão de cultivar mais terra para produzir soja, o que tem efeito alguns meses à frente com o incremento da produção. Isto por sua vez puxa para cima o estoque, causando uma pressão negativa na variação de preço. Com o preço mais baixo, o lucro líquido tende a cair contrabalançando a tendência inicial de alta.

    “A demanda relativa pelos dois tipos de soja tem um papel importante na regulação dos respectivos preços.”

    Quanto maior o preço, menor a demanda pelo produto. O produtor, por sua vez, tentará maximizar seu lucro líquido, seja através da redução nos custos de produção ou do aumento da produção, usando para isto mais terra ou procurando obter uma melhor produtividade.

    Capacidade de Segregação
   As atividades neste setor estão relacionadas à habilidade para segregar a soja transgênica da soja não transgênica, desde a produção na fazenda, passando pelo processamento e sistemas de distribuição até o consumidor final. Um aumento no nível de preocupação com os transgênicos, provoca uma maior demanda por segregação que, por sua vez, força a construção progressiva de uma infra-estrutura de segregação que dê ao consumidor segurança na escolha dos produtos de sua preferência, gerando, com o passar do tempo, confiança na infra-estrutura de segregação. Quanto mais confiança o consumidor tiver, menor será o nível de preocupação com os transgênicos, contrabalançando a tendência de alta desta variável. Deve-se ressaltar ainda neste setor, que o custo do desenvolvimento da infra-estrutrura de segregação terá impacto no custo de produção dentro de cada uma das economias.
    O conceito infra-estrutura de segregação, neste contexto, vai além da capacidade de separação física dos grãos e linhas de processamento. Para promover a confiança na infraestrutura de segregação, será necessário incluir o desenvolvimento de tecnologia de teste de identificação da genética dos produtos; métodos de rastreamento e rotulação; e educação do consumidor.

    Estratégias
    O nível de preocupação com os transgênicos regula a demanda relativa e, no final das contas, o preço da soja transgênica em relação à soja não transgênica. Ao mesmo tempo, um nível alto de preocupação com os transgênicos poderá incrementar a demanda por substitutos da soja, uma vez que esta resulta em vários produtos que podem ocupar seu lugar no atendimento da demanda por proteína e óleo. Isto pode trazer sérias conseqüências para o complexo da soja no futuro.
    As discussões sobre soja transgênica no Brasil têm levado à proibição de se plantar tais sementes. Isto significa que o produtor brasileiro não tem a opção de usar a terra conforme sua vontade. Esta medida pode ser um reflexo das pressões dos consumidores europeus, maiores importadores da soja brasileira, visando assegurar um estoque razoável de soja não transgênica, com um custo baixo de segregação, não pressionando assim demasiadamente as variáveis preço e custo de produção. A medida que se implante uma infra- estrutura de segregação (em qualquer país produtor de soja) confiável e a custos razoáveis, a vantagem competitiva brasileira deixará de existir, fazendo crer que esta estratégia de restrição ao plantio dos transgênicos pode ter alguma eficácia neste momento, mas isto funcionará por um tempo limitado.
    O governo americano está subsidiando o produtor a plantar soja, pagando um preço mínimo que, em setembro de 1999, era cerca de 20% superior ao preço de mercado. Com um patamar de preço garantido, o que o produtor americano tem a fazer para maximizar seu lucro é reduzir o custo de produção e aumentar a produtividade. Como o custo de produção da soja transgênica é menor que o da soja não transgênica, na prática o governo americano está induzindo o uso de sementes transgênicas, fazendo com que 40% das sementes usadas na safra colhida em 1999 seja proveniente de material geneticamente modificado.
    Entretanto, o mercado dá sinais claros de que existe demanda por soja não transgênica e está pagando, inclusive, um prêmio (preço adicional) ao produtor pela soja não transgênica. As técnicas de marketing dizem que o melhor caminho é produzir o que mercado quer comprar. Desta forma, inevitavelmente, em mais ou menos dias à frente, o agricultor americano colocará no seu rol de opções de plantio todas as sementes de que dispõe e cultivará a terra visando tirar proveito de todas as oportunidades de mercado.
    Os fatos nos dão sinais claros do que será o agronegócio da soja no século 21. De acordo com o Prof. Steve Sonka (I999), “Historicamente e ainda hoje, a comercialização da soja pode ser vista dentro de um sistema tipo commodity. No futuro, parece provável que este sistema não será substituído unicamente por um outro sistema tipo commodity. É provável que o sistema de comercialização da soja no futuro seja bem mais complexo e dinâmico. Será complexo porque provavelmente coexistirão vários sistemas alternativos. Um fazendeiro poderá comercializar parte da sua produção em um sistema tipo commodity, parte em um sistema de identidade preservada (segregada) e parte num sistema tipo commodity, onde vários atributos determinarão o valor final do produto. Estas alternativas podem coexistir se cada uma delas atender satisfatoriamente aos diversos tipos de consumidor.”

    Conclusões
    Pretende-se que este trabalho seja capaz de auxiliar a dar uma sustentação ao debate sobre transgênicos, através da melhoria no processo de comunicação sobre o tema e no estabelecimento de um referencial que permita aferir com mais objetividade os progressos desta discussão.
    Trabalhos baseados neste arcabouço conceitual básico poderão vir a ser desenvolvidos para examinar as peculiaridades de cada um dos setores descritos neste artigo, desenvolver modelos adaptados às situações locais de cada país e desenvolver um modelo global capaz de retratar este complexo problema de forma flexível, com o auxílio do instrumental matemático e computacional que se dispõe hoje para simular dinamicamente o desempenho de sistemas ao longo do tempo.
 

Autor desta matéria: Paulo R. C. Villela.

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