Sementes de soja

Edição XXII | 02 - Mar . 2018

Maria de Fátima Zorato - fatima@mfzorato.com.br

    Transformações céleres e de forma contínua ocorrem e, muitas vezes, sem aviso prévio, seja no ambiente urbano ou rural.

    Nós que trabalhamos com sementes assistimos a evoluções diversas nos últimos tempos, que incluem o sistema como um todo, o qual envolve o produto biológico e se estende à alteração de exigências do cliente-usuário. Quer dizer, o consumidor está muito mais seletivo no que se refere à qualidade da semente que adquire. Por que? Porque está sendo conscientizado da ligação que tem, especificamente o vigor, com a produtividade das cultivares semeadas em seus campos, além da valoração imputada na semente, que está semelhante a um chip, onde todas as inovações estão sendo inseridas. Correlacionando tecnologia, biotecnologia e melhoramento genético, assiste-se a cada ano o desabrochar de novas áreas territoriais e a expansão com a cultura da soja, que conduziu o progresso das regiões e ainda pode auferir elevados rendimentos. O perfil do produtor rural contemporâneo é de busca incessante pela melhorias das práticas. Além de fazer uso de tecnologias apropriadas e inovadoras, considera a semente um insumo básico e faz grandes investimentos, expectando o bom estabelecimento de sua lavoura, uma abundante colheita e a lucratividade almejada em seu planejamento.  

    O chip  biológico, de maior valor agregado, é o ponto de partida das lavouras que são conduzidas ao céu aberto, portanto, sujeitas às intempéries. A palavra já sugere, por si só, algum acontecimento infeliz. Algo que não se controla. No campo, existem os fatores que limitam e interferem no potencial produtivo das cultivares de soja, entre eles estão as doenças. De acordo com pesquisadores, grande número dessas, causadas por fungos, bactérias, vírus e nematoides, já foram e estão sendo detectadas nas diferentes regiões produtoras do Brasil. Também apontam novas anomalias de causas desconhecidas surgindo em razão das mudanças impostas pela ação do homem sobre a natureza, associada à alteração climática anual e às diversas práticas adotadas no sistema agrícola. A ocorrência de ataques fica sujeita ao hospedeiro, ao patógeno e à condição ambiental; assim sendo, depende da combinação dos três fatores. A maioria das doenças de importância econômica que ocorre na soja são causadas por patógenos, transmitidos via sementes. Na safra de soja 2016/17, foi despertada a curiosidade sobre o fungo Cercospora kikushii, causador de mancha púrpura da semente e do crestamento foliar. 


Cercospora kikushii (Matsuo eTomoy) Gardner – mancha púrpura e crestamento 

    Trata-se de um fungo considerado causador de doença de final de ciclo (DFC), que ocorre em toda a parte aérea da planta.

    As lavouras severamente afetadas passam, de forma rápida, da cor verde para castanho-escura e propiciam o aceleramento da desfolha e da maturação. O fungo atinge a semente através da vagem, causando a mancha púrpura no tegumento a partir do final do enchimento das vagens (R6), porém, em solos de mais baixa fertilidade, os sintomas podem surgir a partir do início do enchimento de vagens (R5.1). As condições favoráveis ao seu desenvolvimento são temperatura e umidade elevadas. A mancha de cor púrpura é um sintoma provocado pelo patógeno, no entanto, nem toda a semente infectada apresenta a cor característica no tegumento.  

    Os  trabalhos realizados durante muito tempo, em várias instituições renomadas de pesquisa, apontaram não haver nenhum efeito negativo do fungo sobre a qualidade da semente, assim como mostrou-se bastante baixa a taxa de transmissibilidade semente-planta-semente. Com isso, a semente infectada não parecia ser fonte importante de inóculo. Estes estudos foram preponderantes para pleitear e conseguir, junto ao SNPC/SARC/MAPA, a retirada do padrão de tolerância de sementes com mancha púrpura (10%), vigente até a década de 1980. 

    Vale  ressaltar que sempre houve a divergência de opiniões a respeito – alguns pesquisadores relataram diminuição na produtividade e na qualidade de sementes.  



Detectado o diferente

    Com o decorrer do tempo, foi intensificado o controle químico para as doenças denominadas DFC, e, por algum período, o fungo Cercospora kikushii não chamou mais tanto a atenção com sua marca púrpura na semente. Estava mais contido, sem provocar alertas.  

    Entretanto, a partir de um determinado momento, a produção de sementes sofreu alterações drásticas no seu leque de opções. O programa de melhoramento genético atendeu a demanda de produtores que apresentavam preferências das cultivares de soja para o hábito de crescimento indeterminado e para o ciclo precoce. Ora, todos nós da agricultura conhecemos as incertezas climáticas das regiões produtoras de sementes de soja, sobretudo no Brasil Central, regiões de cerrados, as quais foram sendo desbravadas e formaram grandes áreas de novas fronteiras da oleaginosa. Não podemos desconsiderar que Brasil é um país de clima tropical e subtropical. Nestas regiões, prevalecem elevadas temperaturas do ar e elevadas temperaturas, ingredientes muito importantes para desenvolvimento de microrganismos, entre eles a Cercospora kikushii.  

    Na safra 2016/17, algo relevante foi verificado desde o início das colheitas de algumas cultivares de grupo precoce, principalmente em locais de produção em que a alta umidade do ar associada a temperaturas altas se constituíram num pacote perfeito para a instalação de doenças de final de ciclo. Sobretudo, a mancha púrpura estava diferente. Mais agressiva sobre a semente, com cor púrpura muito mais forte, bastante expressiva. Tomava toda a semente e a rasgava a partir do hilo.  E, a posteriori, veio a reclamação do produtor-usuário que, ao visualizar o atributo físico – constituinte da qualidade –, insistiu em tratar o aspecto como semente doente e apodrecida. Em alguns episódios, chegando à devolução de lotes. 


A sintonia com o real

    Desde o início da colheita, em 2017, em alguns laboratórios, quando se executava o recebimento, quer em pré-colheita de plantas, ainda no campo, ou em carga recebida na balança, no teste de tetrazólio (detecta os principais danos fisiológicos da semente), no local específico que havia a mancha púrpura começou a despertar a atenção um fato inédito até então. A mancha estava também nos cotilédones ou no eixo embrionário, trazendo uma lesão semelhante à de deterioração por umidade. A diferença estava na cor – era um vermelho carmim (cor característica do tecido em processo de deterioração), porém era mais brilhante, menos denso. A partir daí, as observações se tornaram constantes, porque a questão era: poderia este fungo estar mutando e trazer prejuízos ao potencial fisiológico no futuro?  

    Neste momento, foi fácil detectar a qualidade de trabalho realizada por analistas atentos e que monitoraram os demais testes de verificação da qualidade fisiológica – germinação, envelhecimento acelerado, emergências em canteiros ou solos, entre os mais realizados nas unidades sementeiras. Qual a surpresa? Em todos os testes, a semente que apresentava a mancha púrpura bem acentuada, nos cotilédones ou no eixo embrionário, trazia a deterioração. Começaram os questionamentos e não se obtinham respostas factíveis ao ocorrido. Alguns acompanhamentos ao longo do armazenamento foram feito, para que, na época de expedição dos lotes de sementes das cultivares que estavam com maior incidência do patógeno, não houvesse frustrações. Muitas sementes foram perdendo a qualidade quando tinham maior expressividade do fungo Cercospora kikushii (mancha púrpura). 


Novos agentes causais da mancha púrpura

A alguns dias, veiculou-se a resposta para o possível esclarecimento a respeito do ocorrido. Não se estava enxergando coisas do além, e sim o que de fato havia mudado. Um grupo de pesquisadores descobriu novos agentes causais da mancha púrpura. Uma pesquisa científica divulgada na Argentina determinou que, ao contrário do que se pensava, o agente causal da mancha púrpura da soja e do crestamento foliar de cercospora não é apenas um fungo (Cercospora kikushii), mas pelo menos quatro espécies desse gênero. De acordo com o artigo, isso sugere que existe uma situação epidemiológica mais grave do que até agora se conhecia, sendo a razão pela qual a doença tem crescido de importância recentemente. 


A observação como primordial

    Atualmente, é imperativo o analista, em qualquer dos testes realizados, sair do piloto automático e ser um bom observador e trazer suas percepções para a discussão. O mercado de sementes está mais competitivo e, para atendê-lo, existe o lançamento de muitas cultivares novas a cada ano. Organismo vivo pode sofrer as influências do seu universo.  

    Basicamente, no teste de tetrazólio, o analista que corta a semente e a atribui dentre as classes do teste, sem ter lhe tirado o tegumento, pode ficar no ponto cego e não conseguir perceber qualquer alteração diferente que esteja ocorrendo. E ainda deve fazer cortes para examinar a profundidade e as conexões dos danos incidentes. Se não fizer a análise minuciosa, em qualquer dos testes, e não se ater aos detalhes que estão fazendo as diferenças na prática contemporânea, está apenas perdendo tempo e não colaborando para a assertividade nas tomadas de decisões, fato que pode trazer consequências onerosas. Portanto, um novo olhar deve ser dado às análises. Qualidade e não quantidade de testes feitos pode significar mais ao sistema. A semente e seu contexto mudaram

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