Agronegócio e Alimentos

Edição XXII | 02 - Mar . 2018

Eleri Hamer - contato@elerihamer.com.br

    O agronegócio (no conceito amplo e sistêmico que se deve empregar) ainda possui grandes desafios a serem vencidos. De forma menos simplista e mais pragmática, os desafios não se prendem apenas às questões econômicas ou mesmo financeiras dos negócios de que é composto, aos quais está vinculado ou diretamente envolvido, mas principalmente à visão de quem consome os produtos do sistema, e especialmente a produção dos alimentos em si. Por consequência, como o ambiente urbano, cuja população é crescente, percebe esse primo, que hoje já não habita apenas o interior.


Três visões distintas

    Dizer da importância do setor para a economia ou mesmo do seu complexo sistema de funcionamento tornou-se lugar comum no Brasil há pelo menos 30 anos, senão mais. Motivado principalmente pela profissionalização sistêmica em boa parte das cadeias que hoje o agronegócio brasileiro opera, tornou-se um setor capaz de estar onipresente em praticamente toda a economia do país. Por isso vital.

    Embora um país do agronegócio, isso não foi o suficiente para que persistissem no ambiente urbano visões distorcidas dessa realidade geográfica até há bem pouco tempo. Não que seja fácil qualificar o perfil do agronegócio brasileiro, pelo contrário. Como país continental que somos, existem discrepâncias abissais entre as regiões e entre as cadeias de produção, e, por consequência, principalmente entre seus players, o que colabora ainda mais para essa visão naturalmente dicotômica, para não dizer caleidoscópica.

    Pode-se dizer que existiam pelo menos três opiniões distintas sobre o agronegócio, ou o campo: o primeiro grupo é dos que não sabiam o que se passa no campo (sequer imaginam o que é o agronegócio), não possuem ideia de qual a importância desse setor para o desenvolvimento do país, e tampouco como as coisas são no ambiente de origem, o campo. É o grupo que acha que ovo, frango e demais produtos do agronegócio são produzidos na indústria ou no supermercado.

    O segundo é composto por aqueles que pensavam no agronegócio como “aqueles caras do campo”. Uns pobres coitados, moradores dos grotões, onde pouca tecnologia chega, pouca estrada, e muito barro e pó. A comunicação é feita no bilhete e a cavalo, e a energia elétrica ainda é um privilégio de poucos. Sobre isso em particular, também é verdade que o próprio campo contribuiu para essa imagem distorcida dele mesmo. Mas é uma falácia, embora ainda ocorra em algumas poucas regiões.

    O terceiro grupo é dos que ainda mantêm uma visão romântica da vida agradável, pacífica, longe dos tumultos e atribulações da cidade grande. Quase sem compromisso, junto à natureza e o consequente ar puro que o pessoal do campo vive. Uma fantasia de quem tem sítio de lazer para o final de semana ou os feriadões e não uma unidade de negócios onde muito se trabalha, produz e transforma.

    O que se sabe de pronto é que qualquer um dos grupos precisou se informar melhor e renovar suas percepções. Há exceções, claro, com alguns resquícios que sobreviveram ao longo do tempo, mas pouco do que se percebe, principalmente na visão dos dois últimos grupos, condiz com a realidade. O mundo do agronegócio não é mais aquele e muda aceleradamente.


Como a cidade enxerga o campo 

    De outro lado, muito tem-se investido para melhorar a visão do agronegócio. No ano passado, por exemplo, empreendeu-se uma campanha intensiva em diversas mídias e canais em nível nacional, não apenas para demonstrar a importância econômica do agronegócio, mas principalmente buscando demonstrar a relevância sistêmica e o contato quase irrestrito e diário que toda a sociedade brasileira possui com o agronegócio, mesmo sem se dar conta dele, muitas vezes. Parece-me que foi a primeira vez que uma investida concatenada dessa natureza foi concebida e executada no país.

    Nesse sentido, embora de forma ainda preliminar e até talvez incipiente, dado a envergadura e as margens de erro significativas, no final do ano passado foi apresentada, numa grande feira de negócios urbanos, em São Paulo, os primeiros resultados de uma pesquisa (Plant Project da Bridge Research) sobre a percepção do campo por quem vive na cidade.

    A primeira impressão é que o ambiente urbano finalmente acordou para nossa real matriz econômica e os infinitos potenciais advindos do agro para o desenvolvimento sócio-econômico do país, tanto no ambiente atual, como no médio e longo prazos.

    A começar pelo orgulho como um sentimento padrão. Para 96% dos entrevistados na pesquisa, quando perguntados em relação ao agronegócio e o potencial posicionamento como país internacionalmente vocacionado para o setor, essa é a palavra que resume tudo.

    A surpresa sobre a visão positiva em relação ao agronegócio é justificada pelo histórico degradante e o total desconhecimento que, de um modo geral, reinava historicamente. De outro, mostra que a integração dos sistemas econômicos dos diversos setores tem se consolidado continuamente e chegou ao cidadão comum.

    De outro lado, abre um novo mundo, baseado em informações sobre a conexão dos negócios rurais com os consumidores urbanos. Vale destacar que, em boa medida, os produtos do agro são encaminhados para exportação, algo que poderá mudar, considerando que os consumidores, conforme a pesquisa, manifestadamente conhecem mais do agro do que se imaginava. Com isso, as estratégias de marketing e de comunicação tendem a ser aprimoradas e reordenadas.

    É bem verdade que o conhecimento do que é o agronegócio continua raso. Segundo a pesquisa, quando estimulados a descrever o entendimento de agronegócio, apenas 14% dos entrevistados incluíram atividades de mercado como parte do agronegócio, enquanto que 63% descreveram atividades relacionadas à produção e produtividade da agropecuária de um modo geral.

    Contudo, respectivamente, 95% e 91% consideraram o setor importante ou muito importante para a economia brasileira e para a produção de alimentos para o mundo. Para 89%, o Brasil é o país do agronegócio, algo que parece óbvio para quem atua no setor ou o conhece por dentro, mas não é assim inequívoco (pelo menos não era até agora) para a cidade.


A produção de alimentos será High Tech

    A mesma pesquisa ainda extraiu outra mudança de percepção que abandona de uma vez por todas o cenário fictício de que ainda é um setor arcaico. Mais de 60% dos entrevistados consideram a atividade de produção rural no Brasil moderna e inovadora, ao mesmo tempo que acredita que se utiliza tecnologia de ponta para aprimorar seus processos de produção.

    O tendão de Aquiles do agronegócio ainda reside na questão ambiental. Segundo os dados obtidos, existem restrições evidentes do setor urbano sobre os impactos ambientais indesejáveis e o uso de defensivos agrícolas. Algo, notadamente, um problema menor atualmente, mas ainda relevante e de preocupação diuturna.

    Esses dados estão em consonância com uma mudança silenciosa que está ocorrendo em boa parte do mundo, principalmente entre as pessoas que, cada vez mais preocupadas com os impactos de suas atividades (algumas medidas pela pegada de carbono), tendem a, de um lado, prestar mais atenção sobre o agronegócio, entendendo cada vez mais dele; e de outro, estimulando ou mesmo criando novas tendências e inovações disruptivas.

    Algumas delas vem com firmeza, como as fazendas urbanas, por exemplo, as Food Techs (startups focadas em novas tecnologia de produção de alimentos) e ainda o movimento chamado de Eat Local, que estimula o consumo de alimentos locais, ao mesmo tempo que reduz o impacto ambiental e estimula o desenvolvimento dessas comunidades.

    Muita coisa tende a mudar nos próximos anos no agronegócio e principalmente na produção de alimentos. Vale a pena dedicar um pouco de tempo sobre o futuro dos alimentos. Se em 2100 a expectativa é de que teremos algo como 11 bilhões de habitantes no planeta, essas mudanças são para breve. O futuro não pode esperar e, pelo jeito, já começou.

Até a próxima.


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