O Problema nem Sempre é a Qualidade das Sementes

Edição VIII | 02 - Mar . 2004

James Delouche - JCDelouche@aol.com

   Há muito tempo, apresentei a uma associação de produtores uma palestra bastante emocional, onde culpava a baixa qualidade das sementes por todos os problemas de produção, desde fracassos no estabelecimento inicial da lavoura até os baixos rendimentos finais. Durante o intervalo, fui procurado por diversas pessoas que me censuraram por não haver mencionado outros fatores, além da qualidade das sementes, que podem afetar profundamente o estabelecimento dos cultivos.               
    Lamentei que na minha apresentação havia realmente faltado um pouco de equilíbrio. Após alguns dias de reflexão, reconheci que minha palestra colocava injustamente as sementes - e, indiretamente os produtores de sementes -, no papel de principais vilões nos problemas de estabelecimento das lavouras. Dessa forma, decidi desenvolver uma visão mais ampla e mais equilibrada do complexo processo de estabelecimento de um cultivo, observando que, muito freqüentemente, fracassos na emergência são o resultado das interações entre a qualidade da semente e os estresses ambientais, como será mostrado a seguir.         
       
    Temperatura                
    A temperatura apresenta grande influência sobre a velocidade e porcentagem de germinação e emergência. São reconhecidas três temperaturas cardinais: a mínima, a ótima e a máxima. Para cada tipo de semente existe uma faixa de temperatura, na qual ocorrem a  germinação e emergência, se o suprimento de umidade for adequado e outros estresses forem mínimos. A faixa de temperatura para germinação é limitada pela temperatura mínima, abaixo da qual as sementes não germinam em um período razoável de tempo, e pela temperatura máxima, acima da qual as sementes geralmente morrem em poucos dias.               
    A temperatura ótima é aquela, dentro desta faixa, onde a máxima porcentagem de germinação/ emergência é atingida mais rapidamente, ou seja, em tempo mínimo. À medida que a temperatura aumenta acima do valor ótimo, germinação/emergência ficam mais lentas e as sementes menos vigorosas não resistem ao estresse devido à alta temperatura. A velocidade de germinação/ emergência também diminui à medida que a temperatura decresce para abaixo da ótima, embora a porcentagem freqüentemente permaneça alta, mas bastante desuniforme.    
             
    “Baixa emergência dos cultivos pode ser devido à estresses ambientais no solo.”   
             
    Qualquer atraso ou diminuição na velocidade do processo de germinação, causados por estresse de temperatura, aumentam a probabilidade das sementes serem atacadas por microorganismos do solo, tendo como resultado a redução na emergência. Este é o campo onde interagem o estresse por temperatura e a qualidade da semente. O teste de frio para sementes de milho avalia o vigor ou o potencial de emergência das sementes no laboratório, simulando as condições que podem ser encontradas no campo em certas regiões produtoras de milho – temperaturas próximas à mínima e excessiva umidade.                
   As variáveis que afetam significativamente a emergência no teste de frio são a carga genética, os danos mecânicos e a qualidade fisiológica das sementes. Sementes com má herança genética, danificadas mecanicamente e/ou de baixo vigor, apresentam baixa emergência no teste de frio. Assim, nesse teste de vigor, a emergência é determinada pela interação entre os estresses de temperatura e umidade e a qualidade das sementes.
               
    Umidade do solo               
   As sementes necessitam ser reidratadas até que seja atingido o teor de umidade crítico para a germinação, que varia entre as diferentes espécies de sementes. As sementes absorvem água mesmo em solos relativamente "secos", porém muito lentamente e, freqüentemente, não chegam a alcancar o nível crítico de umidade para a germinação. Até que o nível de umidade do solo aumente por meio da chuva ou irrigação, as sementes ficam "armazenadas" no solo, sob condições de umidade relativamente altas e crescentes. O desempenho das sementes sob estas condições é determinado pela interação dos estresses do meio ambiente e qualidade das sementes, isto é, o seu vigor. Chuvas prolongadas após a semeadura, combinadas com más condições de drenagem produzem excessivos níveis de umidade no solo e aeração deficiente, podendo levar rapidamente à deterioração até mesmo de sementes de alta qualidade fisiológica.    
            
    Crostas na superfície do solo                
    A formação de crostas no solo é causa significativa de falhas na emergência, em regiões onde os solos são pesados, argilosos, e ocorrem chuvas fortes com freqüência durante a época de semeadura. A crosta que se forma na superfície do solo pode impedir mecanicamente a emergência das plântulas. Em alguns casos, as plântulas conseguem ultrapassar essa camada, mas podem elas próprias quebrarem-se ou serem danificadas no processo.                 
    As variáveis mais significativas com relação à emergência através de crostas do solo parecem ser a espécie, a herança genética e o tamanho da semente. Em solos pesados, suscetíveis à formação de crostas, cultivares de soja que apresentam sementes de pequeno tamanho emergem mais e mais rapidamente do que aquelas que apresentam sementes de maior tamanho.               
   No próximo ensaio, serão revisados alguns dos importantes fatores - outros que não a qualidade da semente - que podem estar envolvidos nos problemas de emergência das culturas, tais como microorganismos, insetos, outros animais, produtos químicos, condições do solo, etc, suas interações, e algumas das estratégias para minimizar os estresses do microambiente do solo.
 

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