O Sistema de Sementes

Edição XII | 02 - Mar . 2008

James Delouche - JCDelouche@aol.com

    Há cem anos atrás as sementes eram consideradas como, talvez, o mais simples e melhor compreendido componente na agricultura. Solos e um clima adequado, os outros componentes essenciais, não eram tão simples. Eles eram bastante complexos. Os solos usados para a produção variavam de raso a profundo, leve a pesado, fértil a infértil, ácido a alcalino, não-tóxico a tóxico ou salino. Por sua vez, a considerável variabilidade dos solos tinha uma grande influência sobre a complexidade de muitos dos componentes auxiliares da agricultura, tais como instrumentos mecânicos e tipos de força utilizados para o preparo e cultivo do solo.
 
    “Os papéis preservador e gerador das sementes são reconhecidos e apreciados desde o princípio da agricultura.”
 
    O clima era, com certeza, o mais variável, complexo e controlador componente na agricultura. Ele determinava se a produção era factível, o tipo de lavouras que poderiam ser cultivadas, e a programação e momento das operações da produção. Enquanto esses comentários são expressos no tempo passado, aqueles relacionados às propriedades básicas e à complexidade dos solos e componentes do clima podem e devem estar no tempo presente, porque eles são substancialmente os mesmos de 100 ou muitas centenas de anos atrás.
    A atual facilidade de preparação e manejo do solo, por exemplo, não é resultado de uma redução na complexidade dos componentes do solo, mas sim, de melhorias nos tipos e força do equipamento usado para cultivo. O clima está mudando, mas não em complexidade. Ele ainda é o componente controlador e incontrolável em todos os tipos de agricultura. Enquanto os componentes dos solos e o clima não mudaram, as sementes já não são mais o componente mais simples, melhor compreendido e de menor custo da agricultura.
 
    Percepções das Sementes
    As sementes evoluíram para realizar duas funções fundamentais interligadas na sobrevivência e dispersão das espécies vegetais. A primeira função é fisiológica: a preservação da vida e a herança das espécies entre as estações de crescimento e durante as épocas de clima desfavorável de forma minúscula, altamente resistente, facilmente dispersável, isto é, a semente. A segunda função é geradora: o resumo do crescimento ativo dos membros individuais da população das espécies, isto é, a germinação, quando as condições tornam-se favoráveis ao crescimento e reprodução vegetal.
    Os papéis preservador e gerador das sementes são reconhecidos e apreciados desde o princípio da agricultura. De fato, seu reconhecimento é considerado o evento crucial na gênese da agricultura. Estas primeiras percepções do sistema de sementes tornaram-se evidentes nas gerações de agricultores que seguiram e persistiram com poucos avanços até cerca de 100 anos atrás. Quais descobertas, eventos e circunstâncias ocorreram desde então para mudar as percepções das sementes de um componente essencial relativamente simples, facilmente entendido, comumente acessível para a produção, para o sistema de componente próprio complexo, multifuncional e difícil de compreender em que elas se tornaram?
 
    Gênese do Sistema de Sementes
    As perspectivas das propriedades funcionais das sementes começaram a mudar com duas descobertas fundamentais: as leis e formas de herança, no início do século 20, e a estrutura e propriedades de DNA, há uns 50 anos atrás. A descoberta das leis e formas de herança permitiu a construção de uma abundância relativa de populações estáveis sub-específicas de plantas, isto é, variedades e híbridos, com características desejáveis a partir da variabilidade natural nas espécies. As sementes, portanto, passaram a ser percebidas como repositório para os resultados do melhoramento vegetal e os meios de repassar tais resultados, isto é, variedades melhoradas, aos agricultores.
    A descoberta da estrutura e propriedades do DNA identificou e revelou as unidades básicas e mecanismos de herança que geraram a disciplina da biologia molecular e levaram ao desenvolvimento da genética recombinante. Com o tempo, a genética recombinante tornou-se a biotecnologia que produziu o moderno desenvolvimento de variedades de alta tecnologia e a indústria do aprimoramento.
    As mudanças nas perspectivas das sementes iniciadas e propagadas por estas descobertas e desenvolvimentos científicos avançaram mais ainda através de dois eventos: a elaboração de uma estrutura legal para estabelecer direitos de propriedade intelectual, isto é, proteção da variedade vegetal, para variedades vegetais na década de 60 e, poucas décadas mais tarde, a proteção ainda mais poderosa de patentes para tecnologias transgênicas específicas e eventos genéticos.
    Estas ações legais deram a proteção necessária pelas organizações de pesquisa e desenvolvimento, isto é, empresas e instituições, para investir, no momento apropriado, talento e fundos necessários para produzir a agricultura tecnologicamente avançada e muito produtiva de hoje. As circunstâncias que conspiraram com as descobertas e eventos listados acima, para acelerar a metamorfose do componente semente, simples e bem compreendido, da agricultura para o sistema complexo em que ela se tornou, são muitas e variadas.
   Geralmente, elas surgiram de avanços enormes na tecnologia industrial, finanças, comunicações, transporte e outros elementos de infra-estrutura nas economias modernas. A agricultura foi drasticamente transformada. As holdings agrícolas cresceram muito em tamanho e são cada vez mais corporativamente possuídas ou controladas. A produção tornou-se altamente mecanizada e comercializada. O foco da produção e do marketing mudou de local para essencialmente global. E, muito significativamente, os componentes sementes para produção são cada vez mais construídos, controlados e supridos por empresas especializadas para os produtores como um produto próprio para uso único.
 
    Estrutura e Inter-relações do Sistema
   Uma definição de um sistema é um grupo de elementos ou componentes funcionalmente relacionados, que interagem, formando um todo complexo. Esta definição engloba a percepção de desenvolvimento das sementes como cuidadoso e completo. As sementes de variedades modernas, transgênicas e híbridas representam um sistema que certamente aumentará em complexidade na proporção em que mais e mais funções relacionadas da produção forem agrupadas sob o guarda-chuva de suas funções fundamentais de preservação e geração.
   As sementes já não são mais um insumo da produção, elas são um pacote de insumos de produção que foi prontamente aceito por simplificar muitas das decisões que os agricultores precisam tomar. Antes dos eventos de tolerância a herbicidas de amplo espectro e do controle de pragas de insetos específicos serem introduzidos nas variedades, o controle efetivo de pragas envolvia o desenvolvimento de uma receita ou coquetel  elaborado de herbicidas, inseticidas, e programas de aplicação que frequentemente requeriam os serviços de um consultor de lavouras.
    A liberação de variedades tolerantes a herbicidas e o controle de insetos simplificaram o manejo e reduziram as decisões sobre as medidas para controle de pragas para a seleção da variedade apropriada. Também muito importante, o uso de tais variedades reduziu muito o uso de pesticidas químicos, com amplos benefícios ao ambiente. O primeiro pacote ou onda de eventos nascidos e transmitidos pelas sementes consistia de variedades com eventos de insumos, tais como tolerância a herbicidas e controle de insetos, que logo se somaram na mesma variedade.
    A complexidade do sistema de sementes agora progrediu para variedades de milho GM produzidas com a colaboração de duas empresas competitivas que tem oito traços ou eventos somados para controle dos insetos que atacam as partes acima e abaixo do solo na plantas de milho e são tolerantes a dois herbicidas de amplo espectro. Os eventos para resistência a certas doenças e a tolerância a estresses ambientais, como seca, calor e frio, já estão a caminho e serão consequentemente somados aos eventos de controle de pragas. Os eventos de tolerância à seca, calor e frio são especialmente interessantes, já que fornecem algum controle sobre o componente clima na produção, reduzindo assim sua complexidade e os riscos associados.
   A próxima onda de variedades transgênicas provavelmente envolverá eventos que afetem os produtos ou usos finais das lavouras, tais como o valor nutricional, sabor, vida média, composição melhorada, para conversão em produtos industriais, isto é, etanol e outros. Ainda mais adiante no túnel tecnológico e regulador estão as variedades GM que produzem químicos e farmacêuticos industriais. Estes tipos, entretanto, provavelmente encontrarão muito mais resistência e escrutínio regulador do que os eventos dos insumos.
    A incorporação de mais e mais insumos de produção no sistema de sementes deve ser apreciada como façanha tremenda, impressionante e benéfica, mas não sem preocupações significativas e questões sérias. Aquelas relacionadas à segurança dos produtos a partir de variedades transgênicas, como foi expresso pelos europeus e vários outros grupos foram energicamente afirmadas e são bem conhecidas. Mas há outras.
    Não há riscos na incorporação de múltiplos eventos de insumos e, consequentemente, eventos de uso final nas sementes? A confiança nos eventos de engenharia genética para controle de pragas importantes reduzirá a pesquisa e o desenvolvimento de novos e aprimorados produtos químicos para seu controle? A confiança em tais eventos resultará na emergência de populações de pragas resistentes? Quais seriam as consequências da redução local e, especialmente, geral, dos suprimentos de sementes das variedades populares e transgênicas importantes? Estas e outras preocupações e questões não precisam e não devem retardar o progresso da biotecnologia das variedades, mas sim, devem introduzir maior cuidado no processo e angariar mais atenção.

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