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Foto: Ronaldo R. Rufino


Delegação alunos e professores da UFPel




XX Congresso Brasileiro de Sementes

Fabrício Becker Peske
fabricio@seednews.inf.br

O Congresso Brasileiro de Sementes chega à sua vigésima edição com vigor e respeito da comunidade corporativa e científica!

Assim como em todas as áreas da ciência, tanto dentro como fora do ramo agrícola, o conhecimento avança com pequenos passos de cada vez, formando contribuições significativas ao longo do tempo. Na agricultura brasileira, estas são evidenciadas ao observarmos quaisquer dados de evolução de qualidade, produtividade ou eficiência nos últimos 40 anos.

A ciência é utilizada para predizer, através da sistematização objetiva e metódica de fenômenos e acontecimentos no espaço e no tempo. Esta tem demonstrado ao longo dos séculos, que é capaz de oferecer explicações dignas de confiança, sendo altamente dinâmica e não uma verdade perene e irrefutável.

A atual geração tem experimentado um volume de conhecimento científico sem precedentes, o qual possui um impacto significativo na própria maneira de pensar e agir da humanidade.

Conhecimentos desarticulados e independentes são de pequena utilidade ao pesquisador em seu papel de explanar e interpretar os fatos. Assim, somente passam a fazer sentido quando tais conhecimentos são examinados em um ambiente de amplo raciocínio. O conhecimento científico distingue-se do conhecimento empírico, pois este se contenta com fatos, enquanto que aquele exige que as causas e os efeitos sejam claros.

Aonde há fogo, há faíscas! Ao nos confrontarmos com grandes impactos da tecnologia em nosso dia a dia, sempre poderemos observar em que momento do passado tal avanço teve seu início.

O método científico, tal como é compreendido hoje, surgiu com Galileu Galilei (século XVI). Ele partia da observação de fatos particulares para estabelecer leis rigorosas, as quais permitiam a previsão de acontecimentos futuros.

Apesar de muitos avanços em metodologia científica ao longo do tempo, não há receitas mágicas para se alcançar descobrimentos. No entanto, isto não deve ser empecilho para a orientação ao pesquisador iniciante (Gressler, 2003).

Apesar de compor menor porção dos estudos dentro da área de sementes, a pesquisa em biotecnologia e melhoramento vegetal obteve grande destaque dentre as discussões deste ano.

Através de sua palestra a respeito das inovações na biotecnologia vegetal e seus impactos no mercado de sementes, o Dr. Alexandre Lima Nepomuceno descreveu a nova tendência em técnica de melhoramento, a qual apresenta capacidade de reduzir significativamente o tempo e os recursos necessários para alcançar modificações gênicas em materiais vegetais.

Hoje, as primeiras plantas que tiveram seu genoma editado por técnicas de engenharia genética de precisão, como CRISPRs, ZFN, ODM e TALEs, começaram a ser colocadas no mercado. Uma vez que a edição de gens pode ser realizada em questão de dias, ao invés de meses (em muitos casos), e exigir um menor volume de investimento, esta técnica irá desafiar o status quo de muitas equipes e corporações ao redor do mundo.

Na mesma linha de desenvolvimento e pesquisa, o Dr. Eduardo Chumbinho trouxe uma importante atualização a respeito da manipulação da expressão gênica em plantas.

Conforme diversos estudos realizados nos últimos anos, e significativa evolução em investimentos por parte de diversas corporações, a tecnologia de interferência por RNA está transformando-se em uma tendência de alto impacto e ampla aplicabilidade. Segundo o autor, esta tecnologia poderá estabelecer um novo patamar de controle de pragas, denominado “controle de pragas altamente específico”, no qual será possível controlar uma espécie determinada sem afetar espécies “não-alvo”.

Além disto, através dos resumos submetidos e apresentados no congresso deste ano, podemos vislumbrar as tendências e as possíveis tecnologias que impactarão a agricultura brasileira nos próximos anos, seja em tratamento de sementes, análise, controle de qualidade ou biotecnologias e suas aplicações em geral.

Neste ano, um total de 797 resumos foram submetidos e apresentados na sessão de pôsteres a todos os interessados e participantes do congresso de sementes em geral.

Viabilidade - Germinação - Dormência

Dentre as áreas de estudo, aproximadamente 20% foram a respeito de viabilidade, germinação e/ou dormência.

A avaliação do potencial fisiológico das sementes está bem documentada na literatura, começando pelas observações de Nobbe em 1876, que propõe procedimentos para um teste de germinação. Durante a década de 1940, surgiram os primeiros estudos para determinar a viabilidade das sementes pelo teste de tetrazolio (TZ), que atualmente é um dos testes de sementes mais utilizados no Brasil.

Ao contrário dos demais testes fisiológicos, o teste de germinação deve ser compreendido com um único objetivo, o qual é demonstrar o máximo potencial do lote de sementes sob análise, ou seja, qual sua capacidade de estabelecimento de plântulas saudáveis e normais sob as melhores condições de temperatura e umidade. Com base nestes dados, passa a ser possível inferir muitas outras informações, permitindo a correta tomada de decisão do produtor de sementes.

Basicamente, a tendência de estudos neste tema no Brasil tem seguido três caminhos nos últimos anos, os quais são: tratamentos com bioestimulantes, hormônios ou nutrientes; análise de imagens e curvas de embebição; e respostas a estresses, geralmente hídricos.

Após anos de avanço dos estudos nesta área, há uma vasta gama de conhecimentos a respeito da eficiência de cada tipo de produto aplicado sob cada espécie, seja sob as sementes ou durante os estágios iniciais de desenvolvimento das plântulas.

Em termos de nutrientes, o fósforo se destaca como o ingrediente mais importante para as sementes para melhorar o seu estabelecimento no campo, o que deve-se principalmente à sua importância no metabolismo vegetal, porém também devido à sua interação com o solo e ambiente, a qual desfavorece seu movimento dentre os coloides sob determinadas circunstâncias de equilíbrio do pH da solução aquosa (movimentando-se principalmente dor difusão) e quelatização junto a demais minerais. Já em termos de micronutrientes, muitos trabalhos vêm demonstrando vantagens na utilização de cobalto e molibdênio em espécies leguminosas.

A análise de imagens, por sua vez, é um teste que evoluiu muito nos últimos anos, acompanhando a evolução da tecnologia computadorizada ao redor do mundo. Através de digitalização das plântulas em uma superfície regulada, há a possibilidade da obtenção de diversos dados de alta precisão a respeito da qualidade das sementes, inferindo-se à germinação, massa e, até mesmo, o vigor do lote.

Já o teste de “raio-x”, permite a mensuração de dados similares, porém oferecendo a possibilidade de investigação das circunstâncias específicas de cada lote, como dano por umidade, percevejo e/ou mecânico. Além disto, traz o benefício de não danificar as sementes durante o teste, permitindo o seu posterior uso, o qual vêm a ser muito útil ao analisar sementes de alto valor agregado, como olerícolas ou ornamentais.

Um tópico que vêm sendo discutido por parte de muitos acadêmicos é relativo às sementes duras, as quais, apesar de possuírem qualidade fisiológica, não absorvem água e, assim, não desencadeiam o seu processo germinativo. Deveriam estas ser consideradas sementes mortas ou viáveis? Hoje, tais sementes não contribuem para a contagem de plântulas normais, porém sua presença pode trazer desvios positivos à porcentagem de germinação do lote, caso sofra algum tipo de escarificação (em muitas espécies de leguminosas).

Devido à importância deste teste, os laboratórios buscam demonstrar sua eficiência e precisão de análise através de testes de proficiência junto a órgãos governamentais como o MAPA (no Brasil) ou Instituições internacionais como a ISTA.

Vigor

Tanto os testes de germinação quanto os testes de viabilidade TZ podem não estar intimamente relacionados com a emergência a campo quando as condições ambientais não são favoráveis. Por este motivo, as informações fornecidas por esses dois testes devem ser complementares aos resultados de determinações mais precisas.

O vigor é um termo introduzido ainda no século XIX, porém os avanços e estudos significativos a respeito de seus impactos no campo têm sido observados principalmente nos últimos anos.

Devido à elevação do valor da semente como insumo e veículo de tecnologia ao agricultor, a sua conscientização a respeito do vigor tem tido significativo crescimento nos últimos anos.

Em conflito com as crenças de alguns anos atrás, as quais alegavam que lotes de baixo vigor e germinação podem ser solucionados com maior densidade populacional no campo, o agricultor tem demonstrado através de seus investimentos, tanto em operações de planejamento e plantio como em pós-colheita, que um dos principais fatores responsáveis por garantir o sucesso de seu empreendimento é a obtenção de lotes capazes de superar desafios e adversidades durante o estabelecimento do campo, proporcionando um estabelecimento equilibrado da população de plantas e, assim, os altos níveis de produtividade esperados.

Trabalhos realizados nesta linha vêm demonstrando, há várias edições do congresso brasileiro de sementes, que lotes de alto vigor proporcionam acréscimos de produtividade dentre 10 a 25% em relação a lotes de baixo vigor. Tais diferenças poderiam ser consideradas pouco significativas no passado, porém a demanda por matéria prima e os custos envolvidos nas operações a cada safra vêm trazendo amadurecimento da gestão dos proprietários, o qual vêm sendo observado na diminuição do uso de sementes piratas nos últimos anos.

Muitos são os testes conhecidos na literatura capazes de contribuir com análises do vigor das sementes, especialmente ao considerarmos a diversidade de espécies e suas características, como constituição química, amadurecimento e formação. Hoje, pode-se inclusive utilizar mais de um método para cada espécie, realizando-se comparações e diferentes inferências sob a capacidade de armazenamento e resistência a diferentes estresses durante as operações de pós-colheita ou de campo.

Esta alta diversidade de testes e seus padrões mínimos têm trazido muitas discussões ao propormos metodologias e padrões oficiais ao país, porém têm se tornado mais importantes a cada dia.

Os resumos submetidos abordando o “vigor”, neste ano, representaram mais de 20% do total e, com o volume de conhecimento acumulado ao longo dos anos, acreditamos que a comunidade científica tem fornecido informações suficientes para incluir alguns destes testes nas exigências para produção e comercialização de muitas espécies no Brasil.
Secagem - Beneficiamento - Armazenamento - Tratamento de Sementes

Dentro das áreas de estudo envolvendo processos de pós-colheita, existe uma tendência significativa em aprofundar as pesquisas a respeito de condições de armazenamento, seja por resfriamento, tratamento ou criopreservação por imersão direta em nitrogênio líquido, o qual por sua vez, tem adquirido maior destaque dentre diversas espécies importantes como o café.

O tratamento e recobrimento de sementes continua sendo a tecnologia de maiores investimentos em pesquisa dentro das universidades, os quais têm demonstrado direcionamento para o uso de micro e macro nutrientes, nanopartículas, antioxidantes, aminoácidos e bioestimulantes.

Por fim, gases e embalagens com capacidade de controlar os efeitos da respiração das sementes sob o ambiente de armazenamento também têm surgido, com potencial de aprimorar muitos processos existentes no setor sementeiro.

Espera-se que todas estas tecnologias mantenham-se no curso correto em um ambiente fértil de investimento em pesquisa. Apesar de observarmos um passo de cada vez, os impactos em uma agricultura vasta e dinâmica como a do Brasil são enormes ao longo do tempo.

Os avanços em ciência e tecnologia no país são reconhecidos internacionalmente, com a adoção de várias tecnologias pelos produtores de sementes, como o teste de germinação para sementes de forrageiras tropicais e sementes florestais, vigor de sementes, beneficiamento e secagem de sementes de soja, e o frio dinâmico, para citar alguns.

Graças a todos estes avanços, o Brasil alcançou patamares únicos de produtividade em várias espécies, mesmo com desafios somente existentes em um país tropical.

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